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Passional, paixão e apaixonados

As palavras estão intrinsecamente conectados à temporalidade, sentimentos e concepções, todos eles datados historicamente. O que sentimos é moldado pelo contexto temporal em que vivemos, influenciado por referências do passado. Nossos sentimentos parecem representar três tempos históricos distintos: passado, presente e futuro.

Como seres humanos, estamos constantemente inclinados a explorar o novo, mas ao mesmo tempo, estamos amarrados ao que é familiar e seguro. Essa contradição nos impulsiona em várias áreas da vida, incluindo sociedade, política, amor e paixão. Se fôssemos puramente conservadores, ainda estaríamos na era da coleta de frutas e habitando cavernas. No entanto, se fôssemos aventureiros incessantes, provavelmente já teríamos enfrentado a extinção.

Impulsionados pelo desafio da sobrevivência, fomos além, criando arte, poesia e música como expressões que transcendem a mera necessidade de sobrevivência. Os gregos, por exemplo, valorizavam o ócio como um momento essencial de contemplação, um encontro consigo mesmos.

Os romanos, construtores de impérios e negócios, adotaram uma postura oposta, negando o ócio. Para eles, a sociedade era fundamentada no trabalho e na guerra, sendo o ócio considerado inaceitável. Até a famosa política de “pão e circo” era projetada para entreter e manter a negação do ócio. É do latim que surge a palavra “passio”, central para nosso tema.

A origem etimológica de “apaixonar”, “paixão”, “passional” e “sofrimento” remonta ao latim “passio”. Para os romanos, estar apaixonado era estar em sofrimento, amar sem medida, intenção ou razão.

Essa noção de “passional” foi revisitada pelos iluministas, que priorizavam a razão pura em contraste com sentimentos genuínos. Estar apaixonado adquiriu conotações negativas, pois era considerado ausente de razão. No século XIX, poetas como Charles Baudelaire e Lord Byron questionaram essa visão,

desafiando a ideia de que não poderíamos estar apaixonados e simplesmente não fazer nada.

Nesse contexto, o século XIX testemunhou a construção de teorias revolucionárias enquanto o capitalismo atingia sua forma mais racional e cruel. O extremismo do racionalismo resultou em guerras que resolveram conflitos em escala global, mas com uma quantidade de mortes nunca antes vista na história da humanidade.

Na contemporaneidade, sob o neoliberalismo, a relação entre paixão e trabalho tornou-se mais sutil. Coaches online afirmam que o sucesso é exclusivamente determinado pela força de vontade individual, culpabilizando aqueles que não seguem uma agenda focada em trabalho, investimentos, exercícios físicos, e outros aspectos da vida moderna.

A sociedade capitalista e burguesa contemporânea impôs um sentimento de culpa por não sermos produtivos o suficiente, não seguirmos um padrão de vida idealizado. Isso resultou em solidão, monotonia, um vício pelo trabalho e uma absoluta falta de criatividade.

Sendo assim, nada é mais subversivo do que aderir ao “passio”, ser apaixonado e contemplativo, sem se culpar por apenas não fazer nada, estar no ócio. Por isso, apaixonemo-nos e estejamos sem razão!

Carlos Machado

É Professor Historiador e Militante do PCB.

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