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Em Qualquer Esquina de Kiev

Havia uma canção que sugeria a ocorrência de um conflito entre dois indivíduos, conflito esse que não teria sido causado nem por dinheiro, tampouco por amor, mas sim por um “pandeiro que depois ficou no chão”. A provocação que parece implícita aqui é se o combate, de fato, seria algo razoável, posto que, no fim, os objetivos vislumbrados nem sempre são tão relevantes assim, ou, por vezes, são dispensados posteriormente.


Desde o início da chamada Guerra da Ucrânia – transpondo aquela abstração musical à realidade hodierna – no longínquo ano de 2022, a sustentação militar da Ucrânia vem, fundamentalmente, em decorrência do apoio internacional, dentre os quais, um dos mais abundantes, desde o princípio, tem sido o ofertado pelos EUA.


Entretanto com a consolidação de um sentimento de relativo cansaço em se tratando do embate aludido diante de resultados militares não tão efetivos, a ocorrência de casos de corrupção envolvendo alguns integrantes do governo ucraniano, a intensificação dos enfrentamentos entre Israel e Hamas, o que tende a desviar as atenções do debate público acerca do tema Ucrânia, dentre outras questões, a manutenção de um robusto apoio econômico dos EUA à causa ucraniana tem apresentado uma resistência maior por parte de alguns congressistas estadunidenses.


Tal impasse pode ser vislumbrado na rejeição que uma proposta de auxílio financeiro e militar à Ucrânia recebeu do Senado dos EUA ao ser avaliada no último dia 6 de Dezembro. Nessa ocasião, é bem verdade, o rechaço à referida proposta dialoga mais com fatores adjacentes à questão ucraniana – apoio financeiro a Israel, por exemplo –, todavia relevante ressaltar que o constrangimento dos Senadores ao votarem de modo contrário a essa proposta não foi suficiente para alterar sua posição, um claro reflexo do apoio mais caducante que a sociedade estadunidense tem apresentado a essa causa nos últimos meses.


As pressões por uma finalização negociada do conflito, segundo a qual cada parte abriria mão de parte das suas pretensões, vai se tornando cada vez maior, porém não é a primeira vez que isso ocorre na história – “Política de Apaziguamento”, Partição da Índia, Anexação da Criméia à Federação Russa – e, com alguma frequência, esses conflitos não são evitados com as referidas medidas, mas apenas adiados. Seria mais um impasse onde a manutenção da guerra se faria algo necessário?


Esperamos que não. Na verdade, a paz é de bom tom que seja não apenas o destino almejado, porém que componha o caminho a ser trilhado. O que não significa que essa ambição será, no curto prazo, atingida, talvez nem seja algum dia. Enfim, cabe a nós observarmos e, por que não, construirmos, dentro das nossas possibilidades, esse caminho ambicionado desde já. Enfim, se razoável, que recolhamos esse pandeiro o mais pacificamente possível…

Wiliam de Oliveira

É graduando em Direito, pesquisador de política internacional e apresentador do programa Panorama

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