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À Mestra, com carinho!

Quando chegamos ao prédio, em Setembro de 1980, a nossa vizinha, professora Thereza, completava jubileu de prata na Escola Estadual Dom Pedro II, que ficava a poucos quarteirões dali. Era conhecida por ser a melhor professora de Português do estabelecimento e também por ser a mais bonita. Professora Thereza tinha 50 anos naquele Setembro em que a conheci. Dona de imensos olhos azuis, cabelos fartos e já muito brancos, presos a um coque. As unhas sempre vermelhas e bem feitas, combinando com os batons de cores muito vivas, que embelezavam os lábios carnudos da mestra e que emolduravam seus dentes brancos e perfeitos. A pele também era muito branca, herança dos avós austríacos, e tinha sempre um perfume muito bom, que virava rastro pelos corredores do prédio, ora avisando que Thereza partira para as aulas, ora avisando que já retornara ao edifício, de onde, aliás, só saía para trabalhar e fazer pequenas compras no comércio do bairro.

Eu tinha 5 anos naquele Setembro de 1980 e ficava vermelho quando via a Professora Thereza, porque eu a achava muito bonita e porque era comum ela fazer alguma gracinha, como no dia em que pediu à minha mãe autorização para casar comigo, logo que eu atingisse a idade de poder casar. Elas riam, e quanto mais eu ficava vermelho aí é que o riso delas aumentava. No fundo eu também achava graça, porque ter a atenção da Professora Thereza era uma forma de eu ser importante. E assim o tempo foi passando.

Sete anos mais tarde, minha mãe pediu à Professora Thereza que me desse aulas de reforço em Português e Redação, três vezes por semana. Minhas notas estavam realmente muito baixas pelo excesso de futebol e pela carência dos livros. Um menino aos 12 anos sonha ser Pelé, nunca Drummond, e se acaso acha uma pedra no meio do caminho ele chuta em vez de eternizá-la em versos. Acho que até Drummond, aos 12 anos, em Itabira, chutava as pedras contra muros e comemorava gols inacreditavelmente belos em vez de com elas fazer poemas.

E foi assim, meio contrariado, que fui ter com a mestra Thereza minha primeira aula de reforço. O apartamento dela, embora tivesse o mesmo tamanho do nosso, parecia muito maior, porque a Professora Thereza era solteira e dispunha de poucos móveis. A sala tinha uma mesa redonda de vidro e suas quatro cadeiras, uma estante que comportava mais de 800 livros, muitos LPs e uma radiola. A um canto havia um sofá pequeno e um vaso grande de barro onde uma planta sempre existiu sem que eu soubesse sua espécie, ou filo, ou seja lá que termos os botânicos usem para identificar as plantas.

A Professora Thereza vendo minha chateação propôs: cinquenta minutos de aula com minha máxima dedicação, depois 10 minutos ouvindo músicas, uma que eu escolhesse e outra de escolha dela, desde que viessem da discoteca mantida na estante. Aceitei por não ter opção: era estudar ou estudar durante aqueles 50 minutos, depois escolher qualquer música e aguentar a música dela até o relógio apontar o fim da tal hora de estudo forçado e poder voltar para casa.

Sentado à mesa, fui retirando da mochila o caderno, o estojo com as canetas, lápis e borracha, e retirei, por fim, o insípido livro didático de Língua Portuguesa, enquanto a Professora Thereza abria as pesadas cortinas da sala, depois as janelas e deixava entrar o sol, que refletia a prata dos cabelos muito brancos dela, e deixava entrar a brisa que, depois de tocar suavemente sua pele, trazia até mim o seu doce perfume.

Lembro que naquele dia ela me ensinou a diferença entre verbo transitivo direto e verbo transitivo indireto. Depois ela escolheu uma música do Chico Buarque que dizia assim:

“Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz
Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida”.

Lembro que os olhos azuis dela se encheram de lágrimas ouvindo a música e de repente ficaram azuis e vermelhos, como o céu que arde quando o sol se põe e dá uma tristeza na gente que às vezes nem é tristeza, é só saudade. Não me lembro que música eu coloquei para tocar no fim daquela nossa aula. Sei que houve outras tantas aulas e tantas músicas entre nós até eu me mudar do prédio em Dezembro de 1994, deixando para trás a Professora Thereza – e tantas lições, e tantas lembranças! – e indo fazer meu caminho como futuro Professor de Português. Aprendi muito com ela, inclusive sobre Língua Portuguesa, e mais ainda sobre Chico, Djavan, Tom & Vinícius, além de Cartola, o poeta das rosas que não falavam. Ouvi, tempos depois, que ela ficou orgulhosa ao saber que eu me tornara Professor de Português. Fiquei orgulhoso de mim pela reação dela!

Dia desses, quando eu chegava de mais uma jornada de aulas, minha mãe trouxe a notícia da morte da Professora Thereza, aos 93 anos, em Curitiba. Engraçado é que naquela manhã, ao ensinar transitividade verbal para os meus alunos do Sétimo Ano, eu lembrei dela. Eu me lembrei da Professora Thereza e sorri durante aquela explicação, sem saber que naquela manhã ela nos deixara.

Fui à janela da sala do meu apartamento, abri as pesadas cortinas e os vidros, deixei o sol e o vento entrarem. O céu imensamente azul do inverno curitibano em dias de geada lembrava os olhos da Professora Thereza, havia um sol brilhante, mas que nada aquecia. Um vento que trazia um perfume adocicado não sei se roubado às Cerejeiras que colorem a cidade durante o Inverno.

Coloquei um CD do Chico pra tocar e ele cantou assim:

“Ó pedaço de mim,
ó metade afastada de mim,
Leva o teu olhar,
que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento,
é pior do que se entrevar”.

Depois, meus olhos castanhos se encheram de lágrimas ouvindo a música e, de repente, ficaram ainda mais escuros, como o céu de chumbo que se arma para a tempestade e dá uma tristeza na gente que às vezes nem é tristeza: é só saudade. Uma saudade que não vai passar nunca!

“Ó pedaço de mim,
ó metade exilada de mim,
Leva os teus sinais,
que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve
um arco e evita atracar no cais!”.

Mas segunda-feira eu recomeço, Mestra! Há muita criança e há muitas lições. Lembro que teve um dia em que eu estava triste e a Senhora colocou bem alto uma música que fez a gente rir:

“No intervalo
Tem cheirim de macarrão
E a barriga ronca mais do que um trovão
Quero um prato
Cê tá louco
Quero um pouco
Cê tá chato
Só um pedaço
Cê tá gordo
Eu te mordo
Seu palhaço
Olha o público cansado de esperar
O espetáculo não pode parar!”.

Obrigado por tudo, Professora!
Bravo! Bravo!

Rafael Fonseca Lemos

49 anos, é Advogado em Curitiba-PR

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