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Ciscando Aventuras

FILME: About time, Sobre o tempo

(Filme  britânico, 2013, direção de Richard Curtis. 123 minutos).

Depois de descobrir um grande segredo reservado aos homens da família – que ele pode viajar no tempo – o jovem Tim Lake, aos 21 nos, usa sua habilidade para ganhar o coração da mulher dos seus sonhos e salvar seu amigo de um desastre profissional. Exagera nas viagens ao passado na tentativa de tornar perfeito os seus relacionamentos.

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POR QUE GOSTEI:  Revejo o filme sempre que há reprise, no Telecine, ou em qualquer streaming…um filme alto astral. Que renova as esperanças de que o amor em família nos sustenta e ampara. Sim, o filme se baseia em um realismo mágico, já que não é possível viver refazendo cenas e situações da vida, como um rascunho a ser aperfeiçoado e revisto. Mas que bom seria, hein?  Poder refazer uma cena em que nos excedemos nas emoções, em que nos faltou uma boa palavra, em que o coração abriu uma janela, ou uma porta e nos adentrou em um relacionamento terno e duradouro… Este filme é de uma delicadeza de sentires e pensares…E o mais interessante é que a saga de poder reverter o tempo e refazer uma cena, ou uma palavra, acertar um sentimento, pertence aos homens e não às mulheres.  É para se pensar… as mulheres parecem complexa mente estar refazendo vínculos, parecem estar bagunçando tudo, numa estreita visão de mundo, machista.  Mas…são persistentes e não têm medo de consertar, ou concertar (reunir diferentes vértices) desacertos, confusões em família, no trabalho, etc..  Já os homens…parecem desistir no primeiro encontrão com o que parece não poder se transformar, a “realidade”.  Enfim, não é bom generalizar. Veja o filme e tire suas conclusões. O tempo é traiçoeiro e passa sem parar.  Se não podemos, mágica mente, refazer o que fizemos de fato, há um outro jeito, trabalhoso – podemos transformar nosso tempo passado e reinventarmos um diferente futuro.  Não é que é possível?  Só que não é mágica, exige um esforço e um trabalho psíquico de descobertas e de reconhecimentos.  A análise é um excelente instrumento de transformação.  O passado vira outro, o futuro se movimenta e o presente nos presenteia com um outro Eu – outramos, como diz Fernando Pessoa.  

LIVRO: AMARGO VERMELHO

(De Bartolomeu de Queirós, Ed. Cosacnaify, 2011, 69 páginas).

 Em “Vermelho amargo”, prosa poética de cunho autobiográfico, o escritor Bartolomeu Campos de Queirós narra as difíceis memórias afetivas de sua dolorosa infância. Ele, muito cedo, teve que aprender a lidar com a madrasta enquanto ainda sofria com a morte prematura da mãe. O escritor revisita, em sua narrativa memorialista, não só seus sentimentos e suas atitudes, mas também as histórias dos cinco irmãos, do pai e da madrasta. ‘Vermelho Amargo’ procura revelar uma face diferente do escritor Bartolomeu Campos de Queirós. Um narrador em primeira pessoa.  A ausência da mãe substituída por uma madrasta indiferente. Os irmãos, filhos de um pai que não larga o álcool.  Uma madrasta que serve em todas as refeições fatias, cada vez mais finas, de tomate. Eles desenvolvem diversas anomalias para tentar suprir a ausência de afeto e a saudade da mãe – um come vidro, a outra não larga as agulhas e o ponto cruz. Numa espécie de contagem regressiva, o narrador observa seus irmãos mais velhos irem embora de casa.

De extrema delicadeza, contrapõe-se à figura nada terna da madrasta. O romance foi vencedor in memoriam da categoria Melhor Livro do Ano do Prêmio São Paulo de Literatura 2012. 

Um excerto do livro: Seu adeus me deu, como sina, ler o além das letras. Aprendi, com sua ausência, a decifrar o depois dos olhares, se de afagos ou de repulsa.  Li os segredos das mãos, se abençoando ou repudiando.  Decifrei a censura se manifestando na linha dos lábios, amargos ou doces.  Lendo adaptei-me a corresponder ao projeto do outro sobre mim. Desviando-me de mim, e, ingênuo, desconhecia a impossibilidade de novamente viver o dia de ontem.  Sua partida me legou, como herança, a habilidade de explorar meu tesouro em seu vazio.

Mais uma frase: “na morte, a ausência ganha mais presença.”

POR QUE GOSTEI: você conhece este escritor?  Tão importante na história literária brasileira. Ele me foi apresentado anos atrás, quando ele já tinha morrido, pela nossa escritora Vanessa Maranha.  Fiquei escandalizada, eu, que sempre estive ligada à Educação, de não ter notícias de tamanha pessoa. Nascido em Minas Gerais, Pará, usou da arte no processo educacional. Fez Pedagogia em Paris e tocou projetos incríveis como o ProLer – de leitura, dando seminários para professores.  Foi um dos principais idealizadores do Movimento por um Brasil Literário.  Colecionou muitos prêmios, foi indicado 4 vezes para o Prêmio Hans Christian Andersen (o Nobel da literatura infanto-juvenil), tem livros maravilhosos infanto-juvenis (procure!).  Publicou mais de 40 obras, muitas traduzidas.  Aldir Blanc tem razão – O Brasil não conhece o Brasil. 

Vermelho Amargo, aviso logo, é pura poesia. De fatias de tomate o Autor vai fatiando o nosso coração leitor. O luto nos faz seguir o olhar da criança desamparada, em meio a tantos sapos a engolir por adultos também desamparados e que nos fazem pensar… Como poderemos atentar para o que realmente importa nesta vida única que temos? Como sensibilizar nosso coração para cuidar do ser que se humaniza a partir da nossa precária humanização?  Este é um livro delicado, recomenda-se que se adentre nele, silente, como que

Maria Luiza Salomão

Maria Luiza Salomão é psicanalista pela Sociedade de Psicanálise de São Paulo e mediadora de leituras, participante do projeto Rodalivro, membro da Academia Francana de Letras. Correspondente da Afesmil (Academia Feminina Sul-mineira de Letras).

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