Passado e presente: lembranças “basquetebolísticas”

Nunca fui muito ligada ao esporte. Uma garota baixinha, magrela, com pneumonia persistente, crises alérgicas e unhas encravadas. Durante todo o Ensino Fundamental afastada das aulas de Educação Física pelo pediatra (meu muito obrigada ao Doutor Petri) e, preciso ressaltar essa evolução, no Ensino Médio muito atuante nas aulas, dançando Axé ou jogando cartas, o que para o professor, eram ótimos motivos para várias notas 10.
Mas, voltando ao início da adolescência, num fim de tarde na década de 90, lá estava eu para uma apresentação de jazz em um intervalo de jogo no ginásio Pedrocão. Quando cheguei precisei de tempo pra me acostumar com o barulho ensurdecedor, as luzes e a multidão. Lá de cima, em pé por um vão entre as arquibancadas, aguardando o momento da apresentação, assisti ao meu primeiro jogo de basquete “ao vivo e em cores”. Não foram poucas as vezes em que, naquela noite mágica, senti os olhos marejados de lágrimas pela emoção. Era algo inimaginável, dentro das minhas quase nulas experiências de adolescente, assistir aquela torcida enorme vibrar o tempo todo a cada lance dos jogadores. Foi amor à primeira vista. Eu, que nunca consegui sequer jogar uma bola de basquete minimamente próximo do aro da cesta estava apaixonada por aquele time. Naquela minha primeira partida, o time era ainda o “All Star Franca”, mas muito em breve a disputa em quadra deixaria de ser apenas entre cidades distintas para se tornar um verdadeiro espetáculo entre Sabesp Franca e Dharma Yara.
Alguns anos mais e permaneceria apenas um dos times representando a cidade, sendo que muitos jogadores do Dharma iriam para o grande rival daqueles anos, o COC Ribeirão. Nessa época eu já podia ir aos jogos com amigos e assim conseguia acompanhar o máximo possível de partidas. Quando nem se pensava em sócio torcedor, eu já tinha “minha cadeira” que ficava na terceira fila atrás do time da cidade. Chegava bem cedo para não correr o risco de perder meu cantinho para outro torcedor. Do outro lado da quadra sempre havia um grupo de torcedores também muito fiéis, presentes em todos os jogos e que davam início aos “gritos de guerra”. Ah, e como eu gritava, pulava e vibrava em cada jogo. Como era incrível sentir aquela emoção. O dia posterior ao jogo era de silêncio, pois não restava um fio de voz. A rouquidão era como um troféu que eu exibia com orgulho “fui ao jogo ontem”, dizia sussurrando. Alguns episódios ficaram marcados tão profundamente que estão em minha memória com riqueza de detalhes.
Uma delas foi do jogo em que meus amigos não puderam ir, então fui sozinha e fiz algo que sempre tinha vontade, misturei-me com a torcida “do outro lado”. Sempre tímida, naquele dia tive medo de sentar em meu lugar sozinha e ser notada pelos gritos, então resolvi misturar-me com os demais. Foi incrível! Quase no fim da primeira metade do jogo, com poucos segundos de bola que não dariam para uma jogada de muitos passes, Márcio Dornelles arremessou a bola do meio da quadra e pra surpresa de todos, converteu a cesta. O ginásio todo se levantou em puro êxtase e me vi comemorando aos abraços com pessoas que nunca havia visto na vida. Realmente o esporte une as pessoas!
Também me lembro muito vividamente de quando minha irmã, fã enlouquecida do jogador Helinho conseguiu uma foto e um abraço. O único problema é que a “bonita” estava usando uma blusinha minha, que nunca mais foi devolvida porque não poderia mais ser lavada ou usada. Nessa noite aprendi algo sobre as pessoas. No sucesso há quem se mantenha fiel aos seus princípios, quem sabe da sua importância para o outro estando em um lugar de destaque. Isso o Helinho mostrou ter, e muito, e por muitas outras vezes. No mesmo jogo, um outro jogador fez um drama conosco porque tiramos uma foto dele ao fim do jogo, enquanto se alongava ali na separação da torcida com a quadra. Eu sempre ficava até todos os jogadores saírem para o vestiário. Nesse dia, esse jogador parou bem na nossa frente, nem sabíamos o que fazer, todos com vergonha pois era algo muito especial para meus amigos e eu. Peguei a câmera e fiz a foto. De volta recebi uma careta e uma reclamação. Quanta vergonha senti! Foi tão assustador que nunca mais deixamos nossa cadeira para nos aproximar ou tirar outras fotos do time. Numa mesma noite foi construída uma admiração profunda pelo Helinho, que perdura até hoje e só cresce a cada dia, e destruído todo o carinho por aquele outro jogador, do qual sentimos muita raiva, que da mesma forma continua até hoje (escorpiana não perdoa!).
Outra memória dramática da época e que me leva às gargalhadas hoje em dia foi a minha paixão avassaladora pelo jogador Valtinho. Ninguém mais chamava minha atenção em quadra, meus olhos só eram capazes de seguir os passos dele. Comprava os jornais e recortava apenas as fotos dele pra por na pasta “do amor”. Até que numa triste noite, a decepção bateu na minha porta. Num passeio ao shopping lá estava ele com sua noiva! Que absurdo, que ousadia! Que sofrimento! Chorei, fiquei “de mal” dele e decidi que não queria mais saber dessa paixão. O bom de ser adolescente é que nos apaixonamos e “desapaixonamos” com a mesma rapidez e intensidade. Logo logo a paixão passou e a admiração pelo jogador permaneceu. Afinal, ele era mesmo muito bom em quadra, então não dava pra guardar mágoa!
O time passou por alguns outros nomes, referentes aos patrocinadores. Com o nome de Vivo Franca, lembro-me de acompanhar o time em algumas viagens nas cidades mais próximas. Porém, com o passar do tempo e da idade, vamos assumindo novas responsabilidades. Com muito trabalho e estudos, ir aos jogos se tornou algo impossível e até mesmo acompanhar as transmissões não era algo que eu conseguia na maioria das vezes. A vida adulta realmente nos consome!
E pra encerrar as lembranças marcantes, uma não tão distante assim foi em 2020, ano de pandemia. Como integrante da equipe gestora de uma escola estadual não foi fácil dar conta das demandas pedagógicas, emocionais e financeiras de cada aluno. Trabalhamos muito para oferecer o máximo que podíamos naquela situação. Então, numa das disciplinas de uma docente muito querida e dedicada, ela se propôs a organizar uma Feira de Profissões Online. Com muitas ideias surgindo, criamos um blog, os alunos registraram seus sonhos para o futuro e então fomos em busca de profissionais de várias áreas, que pudessem dar depoimentos sobre as profissões e incentivar ainda mais cada aluno em seu projeto de vida. Tínhamos um aluno já engajado no basquete e, com o apoio de outros amigos queridos, conseguimos a participação do jogador Lucas Dias e do técnico Helinho em nossa Feira. Eu sei que fiquei muito mais emocionada (e exibida) que o próprio aluno. E também que me emocionei algumas vezes assistindo os vídeos (inclusive nesse momento). Que bom se tivéssemos muitos mais bons exemplos assim, ou melhor ainda, que esses bons exemplos, ídolos de tantas pessoas, recebessem muito mais visibilidade na mídia. O bem é contagioso, assim como o mal, precisamos escolher qual dessas duas sementes queremos e precisamos semear, pois será a nossa colheita mais à frente.
Hoje, ainda na loucura da rotina que milhares de outras pessoas vivem, com uma jornada dupla de trabalho fora de casa (e também a dentro de casa), por muitas vezes já consigo pausar o tempo e acompanhar as transmissões do basquete francano. São momentos em que a adolescente volta, em que me sinto tão viva, com tanta energia, sem tantas preocupações. Poucas horas que fazem brotar alegria, alguns gritos, pulos no sofá e aquele nervosismo gostoso. Assistir vitórias é sempre muito bom (e estamos assistindo muitas!!!), assistir as derrotas é entender que os nossos dias também são assim, com momentos bons e outros em que precisamos nos reorganizar, reerguer, ter coragem e enfrentar as dificuldades do caminho.
Ao Franca Basquete, meu carinho infinito, minha gratidão por cada memória tão vívida, por tantos bons exemplos, por nos inspirar sempre! Sucesso!










Que delícia de texto! Lindas lembranças, boas risadas! Quem nunca teve uma paixão platônica que atire a primeira pedra!!! Sobre o basquete francano, um amor inexplicável!
É como se estivesse assistindo aos jogos com você !!! Lembranças maravilhosas ! Parabéns
Que legal!!! Que saudade! Me fez reviver bons momentos da juventude no ginásio pedrocão! Realmente a vida adulta consome muito de nós mas aos poucos vamos encontrando espaços para relaxar e nada melhor do que fazer isso assistindo nosso basquete vencer!
Legais as lembranças. Rememorar é mágico.
Belas memórias!!!! Franca é uma cidade agraciada em ter incentivo e protagonistas que fazem o esporte crescer e fazer a diferença na vida de muitos!!
Jaqueline, cá entre nós, não dá para devolver a blusinha né? Por favor.. daria para ela te comprar uma nova… rsrsrs
Bons tempos!! E o basquete de Franca não para!! Que possa nos trazer muitas alegrias!!