O real e o concreto na era da pós verdade

O que é real e o que, não é? Nos dias de hoje, ou seja, na era da pós-verdade, nada mais é confiável, nada mais é concreto. Vivemos em meio à abstração dos fatos, calcada na liquidez das verdades criadas, liquidez essa, que escorre por entre os dedos sem nem mesmo percebermos.
A expressão “pós-verdade” surgiu com a necessidade de atribuir um novo sentido para explicar o atual momento em que estamos vivendo, ou seja, tal conceito existe para explicar a massiva manipulação de ideias e fatos, através da conveniência do sistema vigente em determinado contexto histórico. Em síntese, essa expressão surgiu para aplacar a necessidade de criar novos conceitos, a fim de modelar a opinião pública, com o intuito de sufocar os fatos concretos.
Em quê acreditar? Em quem confiar? Nos vemos perdidos entre o empirismo, as verdades do senso comum, e os factoides criados, em detrimento à verdade dos fatos concretos, baseados na ciência. Os conceitos atribuídos à era da pós verdade são criados para que a veracidade dos fatos concretos não tenha mais nenhum valor em nossa sociedade, e a verdade que é conveniente para aqueles que detêm o poder e fazem mau uso dele, se sobressaia, linda e majestosa, e a qualquer sinal de descrença acerca de tais inverdades e meias verdades perdidas entre tantas informações reais, fazem com que as pessoas que acreditam em tais factoides criem justificativas mirabolantes para o injustificável.
Os fatos concretos já não têm mais valor algum, as pessoas preferem se apegar em seus “achismos” e ao que é mais conveniente para elas mesmas, de acordo com suas crenças, crenças essas, imputadas a elas desde a mais tenra idade, ou seja, desde sua formação enquanto ser social, e tudo que foge a essas crenças que se tornam totalmente limitantes com o passar do tempo, caso o indivíduo não exerça o pensamento crítico, faz com que suas verdades já tão incrustadas em seu subconsciente, lhes turvem a visão do que muitas vezes está exposto nitidamente diante delas, logo, tais pessoas deixam que os fatos concretos, passem despercebidos ao seu senso crítico, e é automaticamente negado e desprezado por elas.
O que fazer diante de tal situação? Para tentar mudar tal fato na minha humilde opinião, ouso novamente citar um dos maiores educadores de todos os tempos, Paulo Freire, para que tal questão fique mais clara, “Não basta saber ler que ‘Eva viu a uva’. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho”, ou seja, é preciso exercer o pensamento crítico e não apenas aprender a replicar o que lhes é ensinado.
A citação acima foi escolhida propositalmente e nunca esteve tão em voga, tanto para explicar a questão aqui discorrida neste texto, quanto para relembrar das últimas notícias que tivemos sobre os trabalhadores de determinadas vinícolas, que estavam trabalhando em condições análogas à escravidão, e diante de tantos fatos concretos acerca dessa notícia, disseminadas por todas as mídias, muitas pessoas preferiram negar e fechar os olhos para esse fato tão concreto. Isso é fruto da nossa sociedade atual que está imersa no chorume da pós-verdade, onde vale mais o que “eu” quero que seja verdadeiro, em detrimento aos fatos concretos e documentados, e ao fato da não primazia em nossa educação, do exercício do pensamento crítico.








