Inspirados

Carta de uma bruxa

Eu já estive aqui

Pisei nesse mesmo chão

Em tempos de Inquisição

Meu sangue ainda está nos grãos da terra


No solo pisoteado durante cada guerra

Minhas cinzas seguem com a brisa voando

E os meus olhos o futuro acompanhando

Uma alma velha já me apresento

Vi os anos passar em um sopro de vento

Nasci em um difícil tempo

No qual para as mulheres era garantido apenas sustento

Para nós era permitido nascer

E daí por diante apenas obedecer

Aquelas que diferentes se mostravam

E as regras em nenhum momento aceitavam

Aquelas que o estudo buscavam

E também não se calavam

Aquelas tiveram o mesmo destino

Queimar na fogueira em desatino

E era tão fácil ser diferente

E não agradar à toda gente

As bruxas gostavam do céu admirar

Sob o sol, a chuva, a escuridão ou o luar

Seus ciclos como a lua são

A tríplice – donzela, mãe, anciã

Guarda à todas em proteção

Nossos deuses vêm da natureza

Ela nos dá a vida em beleza

E pra elas voltamos ao fim da correnteza

A força da bruxa está em suas raízes

No aprendizado de cada ancestral

O poder das plantas, dos chás, alimentos

A cura através das mãos em trabalho medicinal

Sabemos da força da energia

E usamos apenas para trazer alegria

As bruxas aliás amam dançar

Descalças na relva verde, o corpo a se movimentar

Entoam suas próprias canções

Levam às divindades os seus pedidos

Para que seja amenizada a dor dos mais sofridos

Bruxas seguem a intuição

Ouvem a voz que vem do coração

Necessitam da liberdade

Não aceitam menos que a verdade

A mulher bruxa seu corpo atende

Ouve seus desejos e com eles aprende

Pra ela não há pudor

Respeita sua vontade

E se ama com lealdade

Com toda essa quebra de padrões

De uma vida na simplicidade

Foram julgadas sem piedade

Temidas por aprender a dizer não

E assim acusadas pela população

Chamadas de loucas por com folhas curar

Emanar energia, cantar e dançar

Por buscar o saber

Aprender a ler e escrever

Nosso corpo tentaram silenciar

Mas nossa voz continuou a ecoar

Seguimos unidas em busca de transformação

Bruxa que é bruxa não solta a mão

Nosso círculo se fortaleceu

E apesar de tudo esse laço nunca se rompeu

O sagrado feminino precisa de atenção

No mundo atual clama por proteção

As mulheres não são queimadas no presente

Mas elas ainda sofrem e o preconceito sentem

Casamentos com submissão

Abusos, assédio e tanta agressão

Almas unidas, coragem pedimos

Que cada uma saiba que não desistimos

Nossa história seguirá o percurso que há tanto começou

Lutando por tudo aquilo que ainda não se alcançou

Que à mulher – criança, jovem, mãe, bruxa ou não

Seja permitido viver em liberdade

Que não se erga nenhuma mão

Para apontar, machucar ou fazer qualquer pressão

Que o corpo – sagrado

Seja finalmente respeitado

Que todo “não!” seja ouvido

E que com a morte não seja devolvido

Que o feminino encontre segurança para viver

E que ser mulher não seja motivo para morrer

Uno meu coração ao seu

Entoemos o canto da esperança

Já é tempo de renovação

E que o amor seja enfim nossa única religião!

Jaqueline Vieira

É francana, tem 42 anos e é formada em Letras, Pedagogia, especialista em Linguística e Gestão Pública. Educadora entusiasta, escorpiana intensa, apaixonada por vinhos, gastronomia e pela arte, amante das palavras escritas, suas eternas e fieis companheiras desde a infância. Instagram: @jaquevieirad

2 Comentários

  1. O que é uma bruxa?
    “Mulheres que além de sacerdotisas de cultos ancestrais, são mulheres de poder, uma ameaça ao patriarcado, que as persegue por séculos.”
    São pessoas que não aceitam serem consideradas inferiores, simplesmente, por serem mulheres.

    Infelizmente, vemos num século já “adiantado” parte da sociedade sem saber o saber e o que faz, julgar algo ou alguém por medo e ignorância.

    Pelo fim do patriarcado, ou qualquer tipo de sistema que estabelece diferenças entre os humanos.

    Amor, paz e luz entre todos.. independente se quem sejam.
    É respeito antes de tudo.

    “Abafaram nossa voz
    Mas esqueceram de que não estamos sós”

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