Opiniões

Uma agradável visita

Estávamos numa chácara tranquila, em uma área de solo escuro, fértil, preparando o plantio. Eu e um amigo que fora até ali para trabalhar. Era madrugada e ainda estava escuro. De repente apareceu correndo, no seu modo festivo, o Valter, o cachorro da família, fazendo círculos em volta de mim.
O fato inusitado era que o nosso querido amigo havia falecido há 72 dias, e todos estávamos ainda bastante tristes. Vi-o na penumbra e parecia que estava meio sujo, com manchas pretas no seu pelo amarelo palha.

Tive a sensação de que fugira da cova em que o havíamos enterrado, na chácara da família. Ele estava mais magro e parecia mais novo. A sua presença era insinuante, uma forte e agradável sensação que ia muito além da visão tênue que eu tinha da sua agitada figura na penumbra.
Ele correu à minha volta alegre, balançando suas longas orelhas caídas (era um bassê robusto) e se aproximou para eu pudesse abraçá-lo, como era seu costume. Lembro que tentei sentir o seu cheiro, para saber se fedia a chorume, tendo em conta que já estava enterrado havia dias. E também porque cães têm o hábito de rolar em cima de cadáveres, quando os encontram de jeito… Não senti cheiro nenhum, senão que a sua presença amorosa, carinhosa e simpática um pouco mais de perto.

Então gritei duas vezes com alegria na voz: mãe, olha o Valtinho! O Valtinho voltou! A minha mãe estava numa casa a uns dez metros de nós, na cozinha. Ela saiu à janela e, mesmo na penumbra percebi que ficou meio intrigada, porque nada respondeu.
Então me abaixei rapidamente enquanto o Valter se erguia nas patas traseiras para alcançar o meu colo, como sempre fazia. Assim que ele me tocou eu comecei a abraçá-lo ainda de cócoras. Estava com muita saudades. Mas nesse exato instante acordei com o despertador do celular de minha mulher, que tocou às cinco horas em ponto, para que ela tomasse uns remédios de que vem fazendo uso. Acordei com uma agradável sensação de reboliço no coração, mas com uma ponta de frustração dolorida, por conta de o tão desejado abraço haver sido interrompido antes mesmo de tocar o meu peito…

Dr. José Borges

Advogado (Formado em Direito pela Faculdade de Direito de Franca); especialista em Direito Civil e Direito Processual Civil e em Direito Ambiental. Foi Procurador do Estado de São Paulo de 1989 a 2016 e Secretário de Negócios Jurídicos do Município de Franca. É membro da Academia Francana de Letras.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos relacionados

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo