Top Gun: Maverick encontra equilíbrio entre sequência e homenagem

Por Jota Silvestre
Continuação do clássico de 1986 atualiza a trama para os dias de hoje sem deixar de presentear os fãs nostálgicos
Pode não parecer, mas já faz 36 anos que Tom Cruise, então com apenas alguns filmes para adolescentes no currículo, rasgou os céus a bordo do seu caça em Top Gun: Ases Indomáveis e abriu caminho para se transformar num dos atores mais bem pagos, atarefados e carismáticos de Hollywood.
Top Gun: Maverick, que teve pré-estreia nos cinemas de Franca nesta segunda-feira (23), segue a cronologia da vida real – ou seja, se passa mais de três décadas depois da história do filme de 1986 –, evidencia um interessante choque geracional e acerta no tom ao se equilibrar entre uma sequência e um filme-homenagem.
É uma sequência porque o personagem de Cruise, o agora experiente capitão Pete “Maverick” Mitchell, retorna à academia de combates aéreos que o consagrou, apelidada de Top Gun. Até então, ele levava uma vida tranquila como piloto de testes da Marinha e recusara patentes mais altas para continuar fazendo aquilo para o qual nasceu: voar. Sua ficha, marcada por grandes feitos, mas também por insubordinação, inspira desconfiança dos comandantes quando ele é indicado para treinar uma nova geração de “ases indomáveis” para uma missão quase suicida.
Maverick precisa provar para os jovens aviadores e para seus superiores que ele ainda é um piloto melhor do que qualquer outro, tudo isso em meio a um debate sobre a substituição dos voos de combate tripulados pelos modernos drones. Para além do confronto entre o “velho” e o “novo”, a maior carga emocional de Top Gun: Maverick recai sobre a presença de Bradley “Rooster” Bradshaw (interpretado por Miles Teller) entre seus treinandos, ninguém menos do que o filho de “Goose”, parceiro e melhor amigo de Maverick, morto num traumático acidente no primeiro filme.
Respeito
Top Gun: Maverick é também um filme-homenagem que lida de forma respeitosa com o original (sem os deboches da trilogia Matrix que a diretora Lana Wachowski plantou em seu recente Resurrections, por exemplo). No novo longa, o diretor Joseph Kosinski consegue emular a estrutura narrativa do Top Gun de 1986 de um modo que o encadeamento das situações soe como referência, e não simples repetição da fórmula.
Claro que que há momentos de homenagem descarada, quando ele presenteia os fãs com cenas e enquadramentos que praticamente reproduzem os originais. O letreiro e os créditos de abertura; a animada reinterpretação de Great Balls on Fire ao piano, a postura arrogante de um piloto na academia (Jake “Hangman”, interpretado por Glenn Powell); e até a icônica exposição de bíceps avantajados e abdomens definidos num jogo de praia são algumas destas muitas referências, porém atualizadas aos valores de hoje. A cena da praia não mais remete a uma prática esportiva que reproduz o ambiente competitivo dos vestiários da academia, mas sim a uma partida de futebol que tem como objetivo incentivar a colaboração e converter os talentos individuais numa equipe.
Em vários aspectos, Top Gun: Maverick prova que a franquia envelheceu bem. A rigor, o relacionamento amoroso entre Maverick e Penny Benjamin (a sempre ótima Jennifer Connelly) acrescenta muito pouco à trama. Porém, se o romance é inevitável nesse tipo de produção, que reflita a maturidade do casal.
Não há mais espaço para a paixão tórrida embalada pelo hit Take My Breath Away nem para uma instrutora (“Charlie, papel que coube a Kelly McGillis em 1986) que se recusa a elogiar seu treinando em público para não deixar transparecer os sentimentos. O relacionamento entre Maverick e Penny é maduro, cheio de cumplicidade, e a única cena na cama tem mais diálogo do que sexo.
A homenagem não estaria completa sem a presença do astro Val Kilmer na tela, o famigerado piloto Tom “Iceman” Kazanski que atormentou a vida de Maverick na Top Gun no primeiro filme. Trinta anos depois, ele é um respeitado almirante, amigo e protetor de Maverick e responsável por indicá-lo ao novo cargo de instrutor. Na vida real, Kilmer travou uma batalha contra o câncer que deixou como sequela dificuldades de fala. A forma como esta condição foi leva transposta para a tela está entre as mais emotivas das pouco mais de duas horas do filme.
Com tantas referências e homenagens, Top Gun: Maverick foi feito sob medida para os nostálgicos da década de 1980, mas não vai deixar de agradar àqueles que curtem filmes com máquinas poderosas, aos fãs fiéis de Tom Cruise ou a quem simplesmente aprecia assistir a um bom filme no cinema.
Ainda assim, quanto maior o envolvimento da audiência com o Top Gun original, mais completa será a experiência, e antes de comprar o ingresso vale a pena dar uma passada por alguns canais de streaming onde o clássico está disponível em pacotes de assinatura ou aluguel avulso.
Cruise foi aplaudido em pé no Festival de Cannes na semana passada. Depois de assistir a Top Gun: Maverick, fica fácil entender o motivo.








