Pelo amor de Deus!

Osvaldo Jacinto Guerra tem 48 anos e é advogado. Tem uma boa clientela, estável financeiramente (mora em um condomínio) e não tem dívidas. Carismático, de fala grossa e rouca que intimida. Faz exercícios três vezes por semana, bebe moderadamente, vai à igreja uma vez por mês (“já fui mais religioso”, ele sempre diz). Considera-se conservador, um homem de bem, gosta de política e, apesar de dizer que “é tudo ladrão”, ficou 5 dias acampado em frente a um quartel (mas não gosta de tocar nesse assunto).
Naquele dia, em seu escritório, já no final do expediente, Doutor Osvaldo foi informado que foi perdido o prazo de uma grande ação na qual era causídico. Procurou saber qual foi o erro, estava na sua agenda aquele prazo fatal. A secretária esclareceu que o estagiário não protocolou a peça no fórum.
– Pelo amor de Deus! Lembre-me de nunca mais contratar estagiários.
Depois de levar uma bronca do cliente, incluindo a promessa de uma reclamação formal na OAB e processo por danos morais e materiais, foi para casa. Chegou às 19 horas.
Irene, sua esposa, nem deu boa noite. Reclamou da ociosidade, do marasmo, que tinha necessidade de voltar a lecionar na escola da qual está afastada por ‘depressão’ e que estava de saco cheio de tomar remédios e ficar em casa.
– Pelo amor de Deus, mulher! Faça o que você quiser. Estou cansado.
Irritado, foi para o banho.
Seu filho mais velho Carlos, sua filha Clara e sua esposa o esperavam na sala. O semblante era sorumbático e preocupado.
– Pelo amor de Deus! Que isso? Alguém morreu? Foi mamãe. Certeza, aquela velha não se cuida.
O filho tomou a palavra, acalmou a pai, não era nada com a idosa. Disse que o amava e precisava contar algo, que estava agoniado e preocupado com a reação dele. Finalmente, contou que era gay e que estava namorando um rapaz.
– Pelo amor de Deus! Vocês querem me matar do coração. Estava na cara, eu sei que você é ‘viado’ antes mesmo de você. Só falta agora a doida da sua irmã dizer que está grávida daquele idiota formado em Direito que não sabe escrever uma petição.
Clara ruborizou e fez sinal com a cabeça. Estava grávida.
– Pelo amor de Deus! Essa família está parecendo história do Nelson Rodrigues. Só falta me contarem que sou corno. Sou? – questionou olhando para Dona Irene.
A esposa, ofendidíssma, disse que não.
Todos reclamaram dizendo que Doutor Osvaldo não era um pai e marido presente. Ao final, o filho falou que Nelson Rodrigues era machista e a filha lembrou da frase do dramaturgo (“mulher gosta de apanhar”).
– Pelo amor de Deus! Falem o que quiserem de mim, mas não comprem essa conversa de quem não conhece o Nelson.
Controlador, exigiu que o companheiro de sua filha e o namorado de seu filho fossem ao seu escritório. Através de seus contatos, ele se encarregaria de arrumar um bom emprego para cada um deles.
Saiu de casa pisando duro, sentindo um sufocamento (sinal de alteração na pressão arterial) e sem jantar. Precisava colocar seus pensamentos em ordem.
Já no carro, ligou as luzes internas e tirou uma foto de óculos escuros, com ela atualizou a foto do WhatsApp. Depois, ligou para Drika, deu partida no carro e foi para a casa da amante.
Chegando lá, ela o recebeu entristecida e disse que precisava conversar. Falou que não aguentava mais ser a outra, que não era mulher disso, que se a sua família que morava na roça ficasse sabendo seria terrível e queria mais. Amava-o.
– Pelo amor de Deus! Esse papo de novo? Você não sabe o que é amor. Eu já te banco, pago sua faculdade e o aluguel desse apartamento. Agora isso?
Ela disse que não era prostituta para ser bancada, que era sério querer um filho dele. Estava entre a tristeza e a revolta.
Desconcertado, Doutor Osvaldo se levantou e saiu da casa da amante sem se despedir, deixando-a em prantos.
– Pelo amor de Deus! Agora essa! Filho! Tem dó! – ralhou, já no carro.
Dirigiu durante meia hora sem rumo até que viu um bucólico bar em uma esquina. Parou. Sentou-se solitário próximo ao balcão e perguntou se serviam uísque. Só havia cerveja e pinga. Pediu uma garrafa e uma dose, bebeu rápido.
Pediu outra rodada e quando estava na metade da garrafa de cerveja, já tinha tomado a pinga, um bêbado se aproximou, bafo pestilento, e pediu que Doutor Osvaldo pagasse uma dose de pinga. Pagou.
O bêbado virou a dose, engasgou e vomitou na ponta do sapatênis branco do advogado. Respingou na calça. Fedia bagaço de cana azeda.
– Pelo amor de Deus! Olhe meu sapato. Tome cuidado, homem!
O dono do bar veio em socorro com um pano encardido. Mandou o cachaceiro ir embora:
– Pelo amor de Deus! Não mande esse cara ir embora. Ele deve estar com problemas em casa. Deixa ele aí. – limpou o sapato, pagou com uma nota de cem reais, deixou no balcão, desejou boa noite na medida do possível ao dono do bar e ao cachaceiro e foi-se embora.
Continuou dirigindo tentando pensar em nada e quando fez o acesso à avenida que o levava para casa deparou-se com uma blitz. Foi parado e se identificou como advogado. O policial pediu desculpas, mas teria de fazer o exame do bafômetro para constar no relatório.
Doutor Osvaldo, perdido em pensamentos brutais, assoprou o equipamento. Resultado: 0,5 miligrama de álcool por litro de ar alveolar.
– Pelo amor de Deus! Terei de ir para a delegacia?
E foi.
A uma e meia da manhã, com a papelada assinada e sangue colhido, o delegado o liberou. Já estava saindo pela porta da delegacia quando uma viatura chegou com sirene e giroflex ligados.
– Pelo amor de Deus, que vida! Daqui a pouco chegam os advogados de porta de cadeia para salvar esses pés rapados. Que se danem!
O policial, sabendo de sua condição de advogado, perguntou se acompanharia os detidos.
– Pelo amor de Deus! Chame a defensoria pública, não tenho nada com isso.
Foi um choque quando o policial disse que um dos presos era seu filho mais novo, Caetano, que chamada por seu nome. Estava junto de dois outros rapazes.
Informaram que foram pegos com drogas no diretório acadêmico da faculdade onde o rapaz cursa o quinto semestre de Medicina. Além disso, eram suspeitos de serem os autores de pichações e depredações em públicos prédios pela cidade.
A grande preocupação era com as drogas:
– A droga era maconha? – Doutor Osvaldo sabia que o filho gostava de queimar a erva.
Quando o policial respondeu, ele colocou a mão no peito e gritou enquanto se curvava a dor:
– O quê? 25 eppendorfs de cocaína e 50 pedras de crack? Pelo amor de…
Hoje, nesse exato momento, três semanas depois daquele dia, Doutor Osvaldo está saindo do hospital. Está pálido, enfraquecido. O médico diz que o infarto é um sinal de seu corpo cansado e o adverte que evite o stress. Ele deverá tomar uma série de medicamentos de agora em diante e que esse tratamento poderá causar impotência sexual.
– Pelo amor de Deus! – foi o lamento ouvido por todos os corredores do hospital.









Sendo o Ilmo. Sr. Dr. Oficial de Promotoria do Ministério Público do Estado de São Paulo, em Franca, e bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Franca, particularmente eu esperava ler crônicas mais interessantes e construtivas, mais realistas, despidas de militância e escárnio – que inclusive já cheguei a ler no passado, escritas por ótimos mestres que também os tive há mais de 20 anos na Faculdade de Direito. Posicionamentos estes que cada qual tem direito aos seus – e devem ser respeitados, que fique registrado – mas o digníssimo colega desperdiça excelente oportunidade neste veículo de comunicação de expor mais amplamente sua inteligência e conhecimentos (que os têm com óbvia certeza, é claro!) – porém, desconfio faltar-lhe autêntica sabedoria, que é justamente saber fazer o bom uso destes.
Primeiramente, apresento meus cumprimentos e sinceros agradecimentos ao Ilustríssimo Leitor. Suas leitura e comentário são indispensáveis e essenciais para quem se dispõe a escrever.
É prazeroso saber que ainda existam adeptos da leitura de jornal em tempos de ‘tiktok’, ‘reels’ e vídeos de ‘WhatsApp’.
Minha militância é em favor da ironia e do sarcasmo, por isso um dos próximos temas será o ‘todes’, o qual já o convido a ler assim que for publicado.
Anoto que a Folha de Franca publicou algumas poesias de minha autoria neste jornal, espero que o Leitor as aprecie mais que as crônicas.
Ao final, conto que o Ilustríssimo Leitor continue a acompanhar esta sessão do jornal, se não minhas publicações, a dos brilhantes colegas que aqui escrevem.