“Descanse em paz”

Como se tivesse a vida inteira
E não somente o saldo de seus dias
Partiu disposto a resgatar os sonhos
Dos quais abdicara há tanto tempo.
Em vão os vaticínios e conselhos
Em vão os argumentos e obstáculos
Pois nada deteria aquele homem
Que tudo suportada tão calado.
Nos olhos, o rosto dela e o horizonte
Na carne, as cicatrizes dos açoites
Na boca, o gosto de um beijo distante
Na alma, a memória de todas as noites.
Partiu ainda em meio à madrugada
Trovões tremiam o céu enegrecido
Donde estrelas extintas e estilhaçadas
Vinham estender no pó da estrada
As lâminas de seu tapete vítreo.
Dia inteiro: pé e peregrinação
Chão, chuva, charco e chaga
Sol, suor, sangue e solidão
Parto, vida, morte e praga.
De tanto andar chegou ao horizonte
Descobriu que além não havia nada
Deitou-se sob o manto azul do céu
Reconheceu nas nuvens sua amada
E pôde então dormir, eternamente.
Rafael Fonseca Lemos, 47 anos, Advogado em Curitiba-PR








