Colunas

Um sonho oportuno

Não era meia-noite quando Krankenhaus despertou em seu quarto, sem pretensão alguma de se levantar; mas a garganta seca fora impertinente. Conferiu se Matianetu, seu marido, continuava dormindo e partiu na curtíssima jornada até um oásis: copo d’água na cozinha.

Bebeu um tanto e decidiu por mais, ingerindo a água aos poucos enquanto relembrava a figura alada, em seu sonho, com um longo tufo de cabelo na testa e a parte de trás da cabeça completamente careca. O que quer que seja, pairava sobre alvas edificações, cúbicas, com o azul do Mar Egeu refletindo a carruagem de Hélios.

– Santorini… – exclamou Krankenhaus, observando a noite através de uma fresta na janela.

Quando criança, deveria ter uns oito anos, assistira um filme – não se lembrava do nome. Ao fim da película, aparecia uma imagem de várias casas brancas, que pareciam caverninhas numa encosta. Achara lindíssimo, algo de outro planeta. A imagem ficara gravada em sua mente e, muito tempo depois, ainda um tanto nova, descobrira que era na Grécia. Não, melhor dizendo, assimilara que aquele lugar era A Grécia. Um dia iria até lá.

E quarenta anos depois, terminado de beber água, decidira: era o momento, o tempo oportuno – Kairós.

Engrenou os Relatos Sinceros para que continuasse com os periódicos, férias à vista e malas prontas.

– Vamos, Matianetu!

A primeira parada fora na sempre festiva Míconos, que também aceitava a grafia com Y e K, e que recebera os viajantes nas areias que circundavam a ilha. Todavia, como chegaram fora de temporada, a região estava muito tranquila, quase uma cidade do interior.

Beach Club, moinhos Little Venice! Krankenhaus capturou as sensações, muitas, que preencheram sua alma. Lá conhecera uma colombiana, agradavelmente simpática, e acabaram naqueles deleites juvenis, tomando algo e conversando no respirar de toda uma noite.

E pelo mar, lógico, as flâmulas do sonho oscilaram: era Santorini se aproximando e, em sua elegante cortesia, estendendo os braços para que a jornalista e seu parceiro se sentissem acolhidos. A alma de Krankenhaus transbordou nas casinhas brancas, na infância, em todos os anos de espera, de acreditar, antevendo a oportunidade – Kairós.

Sonho dentro de sonho. No hotel que ficaram, havia uma ampla sacada e a vista resplandecia no crepúsculo, enquanto Selene atrelava sua carruagem prateada, aguardando que seu irmão descansasse da empreitada diária. Krankenhaus, com uma taça de espumante em mãos, brindava e se deliciava na plenitude da vida. Amava pôr-do-sol, indo em bairros de Franca para apreciar a vermelhidão dos dias que se encerravam.

– É tão lindo – soou a voz de sua criança interior ao horizonte interminável de Santorini.

Depois teve Atenas, que também a surpreendeu sob o céu das divindades gregas. A Acrópole fora um evento, a contemplação, os jardins circundantes… E o restante? Bem, coube ao que os dias reservaram, sem agenda, sem compromissos, um instante infinito após o outro – Kairós.

Lindolfo Junior

Lindolfo Junior é: Escritor? Me chame de rabiscador, pois são linhas de incertezas as que minha mão se presta a colocar no papel… @jhunnyor

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