Solfejo enarmônico

O silêncio inexistente da rua deixava Menestrel desnorteado! O que custava um pouco de paz para uma mísera composição?! Antes do sol estender os braços sobre as Três Colinas, lá estava ele com uma caneta e a famigerada folha em branco. E por um bom tempo continuou em branco… branco…
Uma ideia! Que se dispersou ao som das marteladas do carro do gás!
– Desarranjo da minha vida! – esbravejou, amassando a folha incólume. – É uma algazarra de palhaços! Quem dá conta?
Sentava os olhos sobre uma nova folha, café e aguardava os sons. Nenhum instrumento por perto, afinal nunca aprendera a tocar nada, exceto cansados arranhões no violão. Um estalar de língua, zumbido de abelhas, gotas de chuva: essa era sua orquestra, a qual traduzia para o papel. E se alguém questionasse se eram boas canções, os vários prêmios na prateleira da sala atestavam a favor, com assinatura do prefeito e tudo.
Nisso veio uma nota e talvez as palavras necessárias para acompanhar. Ergueu a caneta e chegou a riscar algumas coisas antes que o telefone tocasse. Claro que xingou, pisou fundo, se rebelou contra as forças que não o deixavam quieto, mas no quarto toque atendeu.
Santa Casa! Sua mulher estava para ter uma criança!
Vestiu qualquer coisa bem depressa, deu partida no carro e nada. Não cogitou pedir ajuda, colocando os pés em movimento, quase se esquecendo de fechar a casa.
Logo atravessou a avenida, alcançando a rua Voluntários da Franca quando seu fôlego reduzira ao ponto de precisar parar. Concentrou-se naquela subida, procurando uma arrancada crucial para pôr-se em movimento… precisava era de ar, seu coração num batuque, em tambores audíveis, sarapateando junto com o vento que o forçava a regredir. Apitos, estouros, gargalhadas!
Menestrel, de olhos fechados, ouvia o mundo.
Buzinas e explosões quando o palhaço Passer domesticus cruzou a esquina com sua trupe, gritou, despertou Menestrel do seu transe e sumiu como sempre fazia.
O compositor se acalmou, respirou fundo e assobiou algo. As árvores e flores se torceram, indo e vindo no ritmo do assobio. Dançavam e se mantiveram assim até a chegada de Menestrel à Santa Casa, onde ele teve mais uma apreensão para descobrir se estava tudo bem.
Estava.
O levaram ao quarto no qual sua mulher descansava. Em seus braços, um montinho de gente dormia quietinha.
Menestrel beijou a esposa na testa, aproximou-se da criança e assobiou, bem baixinho, a canção que acabara de compor para ela.









Que conto mais delicado 🥰
Muito poetico 🥰
Lindo
Que fofinho
Numa entrevista para a “Rolling Stone Magazine”, Nosfa# , a bateria eletrônica dos Retinas Queimadas, disse que o solo de guitarra da música “Clown, o Palhaço” foi criação de Menestrel
Um conto maravilhoso sobre encontrar paz e racionalidade dentro da própria calmaria, dentro da própria alegria e momentos felizes. Um sentimento muito aconchegante.
Acho que o que mais gostei foi a ironia da situação, o coitado brigando com cada barulho da cidade, xingando tudo e todos, e no fim eram justamente aqueles sons que estavam montando a música na cabeça dele. E gostei muito de como a inspiração apareceu no momento mais importante da vida dele, transformando toda aquela confusão do começo em algo bonito e cheio de significado💛
Ótima inspiração para obter uma bela composição,em um dos momentos mais lindos da vida!!!