
“Que pais é esse?”
Lembro de quando eu era adolescente e estava envolvido com a música, tocando guitarra e violão. Eu me inspirava na banda Legião Urbana e conseguia tocar todas as músicas, embora não muito bem. As letras das minhas bandas favoritas me deixavam mais “rebelde”. No entanto, apenas com o passar dos anos, pude interpretá-las à luz do seu tempo. Como não interpretar músicas como “Índios”, “Que país é esse” e “Faroeste Caboclo”? Estou falando das mais conhecidas.
Renato Russo conhecia Brasília como ninguém, falava sobre “Generais de 10 estrelas que ficavam atrás da mesa”, sobre corrupção e a vida luxuosa dos políticos vindos de todas as partes do país. Mas quero falar mesmo de uma música que tenho muito carinho: “Índios”. Começa com esta estrofe que é a cara da história do Brasil e dos povos originários: “Quem me dera ao menos uma vez/ Ter de volta todo o ouro que entreguei a quem/ Conseguiu me convencer que era prova de amizade/ Se alguém levasse embora até o que eu não tinha”.
Desde a chegada dos portugueses, o Brasil e os povos originários são espoliados diariamente. Seja pelo Império Português, pelas cortes brasileiras durante o Império, pelos bandeirantes, pelos coronéis, pela elite cafeicultora, pelos grileiros, mineradores, garimpeiros e, claro, pelo agronegócio. A lista é enorme, poderíamos encher páginas com essas classificações.
“Que pais é esse?”
A riqueza explorada por esses poucos não ficou aqui, e os povos originários ficaram com ainda menos. A riqueza explorada e exportada do Brasil foi responsável, por exemplo, por garantir o desenvolvimento do capitalismo mundial. A Revolução Industrial na Inglaterra é uma prova histórica de que o ouro brasileiro foi peça fundamental nesse processo.
“Que pais é esse?”
Por outro lado, à medida que a riqueza era explorada, os povos originários e os setores populares da sociedade brasileira empobreciam. Empobrecer não significa apenas ficar carente de bens materiais, mas de todo um conjunto. Quando os portugueses chegaram aqui, os povos originários eram em torno de 5 milhões, distribuídos em milhares de tribos e centenas de línguas. Hoje, são pouco mais de 500 mil, confinados em territórios isolados.
“Que pais é esse?”
“Quem me dera ao menos uma vez/ Provar que quem tem mais do que precisa ter/ Quase sempre se convence que não tem o bastante/ Fala demais por não ter nada a dizer.” Na semana passada e, ironicamente, na semana do meio ambiente, a Câmara votou no famigerado Marco Temporal, que apaga a história milenar dos povos originários e abre as portas para o agronegócio e garimpeiros explorarem terras indígenas, sem muitas dificuldades. Além disso, reservas criadas após 1988 perdem sua validade. Isso condenaria à própria sorte milhares de povos originários, que seriam literalmente condenados à morte.
“Que pais é esse?”
O Projeto de Lei 490 promoverá uma espécie de genocídio oficial, promovido e respaldado pelo Estado. É algo muito parecido com o que aconteceu com os Apaches durante a corrida para o Oeste Americano, ou colocar os povos originários em uma condição muito semelhante à que ocorreu no auge da invasão e colonização portuguesa.
“Que pais é esse?”
Apesar de se apresentar como “popular”, o agronegócio tem promovido conflitos, desregulamentação das leis ambientais e adoção de práticas nocivas com defensivos agrícolas. Além disso, ele socializa seus prejuízos para o restante da população, sem contribuir para o país. Vale lembrar que o agronegócio brasileiro está baseado em um modelo agroexportador, o que significa que a produção e a força de trabalho são brasileiras, mas voltadas exclusivamente para atender ao mercado internacional. Isso faz com que a riqueza gerada no Brasil se concentre nas mãos de poucos.
“Que pais é esse?”
Nesse sentido, o Estado brasileiro está fazendo uma escolha muito clara de favorecer aqueles que exploram o Brasil em benefício próprio. A PL 490, além de assassinar milhares de povos originários, também nos fará entregar riquezas que só a nossa biodiversidade possui. Para aqueles que defendem esse tipo de prática, deixo Renato Russo falar: “Nos deram espelhos/ Vimos um mundo doente/ Tentei chorar e não consegui!”









