Colunas

O poeta Marte

O vinil chiou baixinho na sala de Marte. Era domingo tão de manhã quanto podia ser e por isso ele não ousou deixar a música vibrar com vontade, já que poderia acordar sua esposa e sua filha.

Entretanto, isso não lhe incomodara nenhum pouco. Estava satisfeitíssimo por ter, depois de dois longos anos, finalizado seu terceiro livro de poesia. A empolgação fora tanta, quando percebera que estava no final, que nem conseguiu dormir enquanto não terminasse o último poema.

Pegou um charuto junto com uma IPA encorpada e, radiante, foi até a garagem, no canto onde era seu santuário particular de muita literatura, cinema e música. Sempre recebia os amigos mais íntimos ali, tendo ardorosos debates filosóficos e compondo o ritmo de uma vida.

Sentou em uma banqueta, abriu a cerveja e a saboreou bem devagar, sentindo o amargor característico enquanto repassava seus poemas mentalmente.

Alguns eram curtos, poucos uma epopeia e o mais importante: todos respiravam seu ar, sangravam por suas veias. Desde seu surgimento na cidade dos Migueis, junto com o momento em que o planeta vermelho mais brilhava no céu (e de onde viera sua alcunha), até a mudança para Franca e a grata constituição de sua família; seus anos de caminhadas refletidos em seus poemas.

Escrevera outros livros, romances; mas uma trilogia de poesias tinha uma musicalidade diferente, um som à parte. Era a expressão simples e pura de suas martianidades.

Quando o vinil parou, voltou à sala e colocou o outro lado, aproveitando para pegar um isqueiro e regressando ao santuário.

Contemplou o charuto antes de acendê-lo, naqueles devaneios de quem olha sem ver, buscando memórias de berço, algo inexistente…

Enfim a primeira baforada, aquele montante de fumaça que ofuscava as aparências, que não se via a ponta do nariz. Marte não se importava, caminhando pelo círculo que a fumaça condensou, até atravessar e aparecer nas margens do Rio Grande.

O sol se levantava, jogando ouro faiscante pelas águas do rio, brilhando na alma de Marte. O poeta sorriu ao contemplar o seu El Dorado, tão perto de Miguelópolis, a primeira cidade que colocara os pés, e ficou agradecido.

Do bolso pegou uma caneta e um bloquinho de papel. Compôs um soneto breve e o rasgou em pedacinhos, jogando ao enlace do vento…

Ali não fez mais nada. Voltou para casa, colocou outro vinil e aguardou sua família acordar.

Lindolfo Junior

Lindolfo Junior é: Escritor? Me chame de rabiscador, pois são linhas de incertezas as que minha mão se presta a colocar no papel… @jhunnyor

7 Comentários

  1. Em 1974, depois do pouso do disco voador nas margens do Grande Rio que circundava a Cidade dos Migueis, o Escrevedor afirmou:
    “O disco de vinil me ensinou que, só ouvindo os dois lados é que se escuta o disco inteiro”.

  2. Li devagar, como quem não quer que acabe. Tem algo muito verdadeiro nesse jeito de escrever, de rasgar versos,de insistir na poesia mesmo sem garantias. Me tocou real.
    Não é só um conto, é um estado de espírito. Daqueles que a gente termina de ler e fica alguns minutos quieta, sentindo. Obrigada por isso.

  3. Fico imaginando momentos assim, após terminar um grande projeto, um dia pesado… Apenas sentar comigo e meus pensamentos, deixar tudo fluir junto a uma música de fundo…
    Parabéns pelo rabisco!

  4. Esse texto me deu a sensação de que a poesia dele não está no livro, está na forma como ele vive, o jeito que ele contempla. Eu senti que a grande poesia não está só nas páginas que ele terminou, mas na maneira como ele existe.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos relacionados

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo