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O Pedante

O pedantismo é uma arte! A arte de demonstrar um conhecimento que pouco ou nada se tem.

Já foi um movimento de vanguarda, mas com a valorização da ignorância e a ode à estupidez, o pedantismo cresceu tanto que se banalizou.

Há exemplos de pedantismo no dia a dia e em todos os lugares. Pois, veja que encontrei amigo, e ele me contou uma história que foi um aprendizado sobre pedantismo religioso.

Ele queria dar um presente para a esposa e um colega de trabalho lhe deu a indicação de ótimas lojas na Avenida Giovanni Montini.

Não existe essa avenida em Franca, eu mesmo procurei no ‘maps’.

Quando confrontado com a inexistência do logradouro na cidade, o rapaz, conforme me narrou o amigo, apoiou o queixo entre o polegar e o indicador, fechou levemente a pálpebra direita, levantou a sobrancelha esquerda e começou:

“Ora, Giovanni Montini é o nome de nascimento de Paulo VI, Papa que se sentou no trono de São Pedro entre 1963 e 1978. Viveu em um período muito conturbado da História, pontífice em uma época de grandes mudanças sociais e políticas, e terminou o Concilio Vaticano II, iniciado pelo seu antecessor João XXIII”. Após essa cátedra apostólica, deu um sorriso.

Lembro da época da adolescência que um aluno da minha escola tinha fama de poeta. As meninas o circulavam enquanto ela lia seus poemas. Não muito tempo depois, descobrimos que ele usava trechos de poemas de Vinícius de Moraes sem que ninguém soubesse. Um pedante poético.

Esses são pedantismos inocentes, que são até gostosos de se ver. Eles incentivam a busca de conhecimento.

O pedante pedagógico é um pouco mais complicado, merece cuidado e pode ser nocivo. O jargão preferido é repetir incansavelmente Paulo Freire e dizer que “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor”.

Já o pedante do tipo arrogante não sabe que é pedante, ele acha sinceramente que conhece todos os assuntos e que é um sábio. Ele não faz questão de ouvir, ele tem absolutas certezas.

Eu fiz a seguinte questão em uma conversa banal: excepcionalmente, é admissível que um adolescente, vá lá, com 13 anos, fique em uma oficina mecânica no período da tarde – quando toda a família está fora trabalhando e não há um centro social onde ele possa ser acolhido – e o dono da oficina aja como tutor lhe ensinando noções de mecânica automotiva?

Recebi uma resposta bem direta: “leia a carta das Nações Unidas sobre o trabalho infantil e terá a resposta”.

Claro que o trabalho infantil deve ser combatido com fervor. No entanto, acho que vale uma discussão em casos específicos. Evidente que deve se acompanhar o adolescente e trabalho é diferente de tutoria.

Talvez eu tenha sido tolo ao pensar assim, mas o que incomodou foi o encerramento do assunto de forma abrupta sem nem ao menos uma reflexão e conversa sobre. O debate respeitoso aproxima as pessoas e aprimora as ideias.

No meu caso, me defino como um pedante simpático ou pueril. Não é raro eu citar, em momentos chave, frases feitas em alemão (“Ich esse das Brot”), francês (“Le chat noir”) ou espanhol (“Hay que ser duro, pero sin perder la ternura jamás”), e quando me perguntam se falo uma dessas línguas respondo rápido “muito pouco, pouquíssimo, praticamente nada”. Se o tom for o certo, soa como modéstia.

Sobre cinema, eu guardo algumas cartas na manga. Jean-Luc Godard é um ás. Já assisti aos filmes ‘Acossado’ e ‘Masculino, Feminino’, achei chatíssimos e manter a atenção foi um desafio. Mas, isso pouco importa, numa conversa falo algo sobre o diretor (‘nouvelle vague’), cito esses filmes e ‘voilà’.

Não abro muitas brechas, mas seu eu for desmascarado, acabo fazendo alguma piadinha, vou ao banheiro acesso a Wikipedia e volto falando algo sobre filosofia e a Escola Peripatética.

Essas pequenas genialidades mentirosas, essas sutis demonstrações vazias de conhecimento, saciam meu ego e criam reações químicas no meu cérebro, me dando prazer e me deixando feliz.
Sou pedante com orgulho!

PS: não faço ideia do que sejam reações químicas no cérebro e nem se isso existe, minha afirmação foi apenas uma demonstração prática de pedantismo.

Michel Pinto Costa

É Oficial de Promotoria do Ministério Público do Estado de São Paulo, em Franca, e bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Franca.

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