O Olodum (me) pirou de vez

Inhaim?
Chegamos a Porto Seguro. As aerovelhas desejando boa tarde, uma finesse. Quando eu pisei no chão, parecia que pisava num pudim, de tão bom. Esse troço de avião não era comigo. Sou mais o meu Corcel.
Estava um forno em Porto Seguro. Dentro do avião estava tudo fresquinho e, mesmo assim, por causa da menopausa e do nervoso de estar no ar, fiquei com uma pizza debaixo do braço. Mas que era bom pisar na terra, isso era. Ficamos eu, Lolosa e Tobiniana esperando as malas naquele “rodeiro”. Até que tudo chegou demorou pacas. Depois que botaram o preço das passagens de avião, pobre tem aos montes. Demorou, mas demorou. Enfim, as malas surgiram no “rodeiro”. A minha, pink, foi a primeira a chegar. Depois vieram a da Lolosa e a da Tobi. Fizemos como todo mundo fazia, pegamos um carrinho pra por as malas. Perguntamos pra uma moça bonita, de drad no cabelo, onde era a saída.
“Pois não, senhoras, final do corredor tem a porta de saída”.

Aproveitamos e perguntamos de táxi ou ônibus para chegar no hotel Paradise. Ela falou que lá na porta tinha. Uma mulher escutou e anotou num bilhete o nome do táxi que a gente tinha que tomar.
Chegamos na porta, um calor do cão, e tinha um tanto de carro parado. Olhei no papel: “Vamos chamar um úbere”. Andamos mais um pouco e falamos com o chofer de um carrão branco: “Esse carro é úbere”? O moço disse que era. Peguei o papel que eu tinha anotado com o endereço do hotel e passei pra ele. Lolosa dispensou os serviços dele e colocou as malas no porta-malas. Entramos.
Nossa, como Porto Seguro tem carro, meu Deus.
“Alá o mar”, gritou a Tobi.
Um mundo de água. Ia ser bom o negócio. O “úbere” andou muito até estacionar em frente a um predinho com a plaquinha “Paradise Hotel”. Era ali, mas ficava longe de onde a gente viu a água. Ah, tá bom. Pagamos o “úbere”: R$ 50. Esse Paradise era nos quintos dos infernos.
Entramos. Um homem da cara azeda na recepção atendeu a gente. Eu subi nas tamancas: reserva em nome de Lulu do Canavial. Ele olhou na lista e deu a chave pra gente: apartamento 33. Ficava no terceiro andar. Subimos as escadas com o coração na boca. Logo no fundo de um corredor a gente leu: 33. É aqui. Quando abri a porta do quarto, de carpete vermelho, cortina cor de carne, veio um cheiro de mofo. De certo estava fechado fazia tempo. Entramos. Tinha uma beliche e uma cama daquelas antigas de dobrar. Eu fiquei com a cama. Tobi e Lolosa dividiram a beliche. Banho frio, era quase hora do almoço. A fome apertou. Colocamos nossas roupas de banho, eu resolvi estrear a “quenga” “abóbra”.
Descemos milhares de lances de escada. Perguntamos pro homem de cara azeda onde tinha um restaurante. Ele tirou o palito do canto da boca e falou: “beeeemmmmmm aí em frente”. Atravessamos um viaduto lotado de baiano e chegamos do outro lado da rua: Restaurante Come Kent. É aqui mesmo.
Lotado de gente, aquele cheiro de jaratataca, sovaqueira mesmo. Sentamos numa mesinha. Resolvemos comer PF, era mais barato. Veio ovão mole, um bifinho, arroz, feijão e batata frita. Comemos mais do que a mudinha do orfanato. Pagamos caro, mas pagamos. Agora era hora de ir pra praia, conhecer o mar. Meu sonho dourado – o outro era andar de avião. Tivemos que pegar outro “úbere” pra chegar na praia. O hotel era longe pra caraca.
Chegamos, paramos num “kibosque” embaixo de um coqueiro. A primeira coisa que eu fiz foi tirar a “quenga” e correr pra água. Pus a mão e levei na boca para ver se era salgado mesmo. Pura “salmora” que a gente faz bochecho quando está com dor de “goela”. Vinha aquelas ondas e eu e a Lolosa nos deliciando (bebendo água, mas nos deliciando). Tobi ficou vigiando as coisas na mesa pra ninguém roubar.

Agora eu quero “queimar”. Fui pra debaixo do “kibosque” e estendi a toalha que eu tinha comprado nas Pernambucanas, à prestação. Fiquei parecendo uma perereca. Passei pasta d’água na cara, pus o chapéu e pedimos caipirinha. Ai, que trem “bão”, gente. Compramos tudo o que passava, espetinho de queijo coalho (diz que pé grudento porque tem o intestino do bode dentro), camarão e até um solta bolhas de sabão pra eu levar pro Uóstim, meu sobrinho malaca. Anoiteceu e nós ficamos tontas. Puxamos conversa com o dono do “kibosque”. “O que tem pra fazer aqui?”. “Ensaio do Olodum amanhã”.
Voltamos tontas pro Paradise. A Tobi espirrou a noite inteira porque é alérgica e eu não dormi uma gota. A cada espirro, a bicha gritava: “irrrrrrraaaa”. Cedo, já estávamos preparadas pro ensaio do Olodum. Sentamos na mesa do café da manhã: pão, margarina, café, leite quente e umas bolinhas de pão de queijo que não dá nem pra pôr no buraco do dente.
Pegamos outro “úbere” pra ver o tal do Olodum. Chegamos num barracão e os moreninhos estavam todos batucando. “Olodum tá rico, Olodum tá pobre, o Olodum pirou de vez…”. Uma batucada gostosa. Compramos caipivodka e ficamos em volta do Olodum com um tanto de turista. Foi quando eu percebi que um Olodum estava me olhando com olhos de “sanduíche de gente”. Pensei: “é hoje que eu tiro a teia de aranha da pitrica”.
E foi ensaio do Olodum a tarde inteira. Aquela batucada, a vodka, o mundo ficou bom. Foi quando, no ensaio, o mocinho que estava de olhou em mim fez assim com o dedo: “vem cá”, igual chamar cachorro. Fui.
Ele: “ôxi, bonitona, de onde tu é”?
Eu: “sou mineira”
Ele: “Tá a fim de um rolê?”
Eu: “mais do que depressa”.
Combinamos que depois do ensaio a gente ia pro Paradise. Eu expliquei pra Tobi e pra Lolosa, que àquela altura tinham arrumado programa também. Terminou a batucada –não sei se o Olodum ficou pobre, ou rico, eu sei que o Olodum iria entrar em mim. Pegamos um “úbere” e fomos pro Paradise.

Não deu nem tempo de fechar a porta direito e o Olodum me jogou na cama de armar e desarmar. Dei a cuíca pro Olodum. A baqueta dele era imensa. A cuíca roncou a note inteira. O Olodum foi embora sem dizer uma palavra. E eu aí com palavra de Olodum. O que tinha valido era a cuíca. O pior estava por vir: na hora de tomar banho eu estava parecendo uma zebra com a tinta do Olodum que passou pra mim no rala-e-rola.
E foram quatro dias de Olodum, praia, caipirinha e sol. Deu a hora de ir embora. Agora era enfrentar o voo da Azuli de novo. Da próxima vez, eu venho de ônibus, nem que o meu pé vire uma pipa. Avião quero mais, não. Vou cuidar das galinhas, da Nininha, do Tedão e continuar a vida nas minhas faxinas. Alegria de pobre dura pouco.








