O olhar que falta à sociedade: os 80 anos da Fundação Dorina Nowill e o resgate da visibilidade
Por Guilherme Kalel
Existe uma profunda diferença entre a incapacidade física de enxergar e a recusa social em ver. Muitas vezes, a verdadeira barreira enfrentada por uma pessoa com deficiência visual não está na ausência da visão, mas sim na invisibilidade imposta por uma sociedade que não consegue enxergar o indivíduo além de sua condição jurídica ou médica. É justamente no centro dessa reflexão que se posicionam as oito décadas de história da Fundação Dorina Nowill para Cegos, que completa 80 anos.
Para celebrar esse marco histórico, a instituição lançou uma campanha marcante sob o título Longe Dos Olhos. O filme publicitário inverte a perspectiva tradicional: em vez de focar no aspecto clínico ou nas limitações da deficiência, a narrativa expõe a miopia coletiva de um mundo que falha em reconhecer esses cidadãos como seres plenos. Ao retratar pessoas com deficiência visual em papéis dinâmicos e cotidianos, como um surfista, uma mulher grávida, um escritor, um músico e um casal se divertindo em uma festa, a campanha evidencia que essas pessoas circulam, consomem, amam, estudam e trabalham. Elas ocupam as cidades. A mensagem central é urgente: o que o público precisa não é de condescendência, mas sim de igualdade, independência e dignidade na prática.
O papel desempenhado pela fundação ao longo de sua trajetória é monumental. Desde a sua criação, a entidade transformou-se no principal porto seguro para a reabilitação, inclusão e emancipação de pessoas com deficiência visual e baixa visão no Brasil. Mais do que prestar serviços de assistência, a organização atua diretamente na democratização do acesso à leitura e à cultura. A instituição é uma das maiores imprensas braille do mundo, responsável pela edição de centenas de milhares de páginas adaptadas anualmente, além de produzir audiolivros e títulos digitais acessíveis.
Como parte das comemorações de aniversário, novos passos estratégicos estão sendo consolidados, incluindo a reinauguração de seu Centro de Memória, o estabelecimento de uma Biblioteca Inclusiva e exposições sensoriais abertas ao público. Essas ações reforçam o real propósito do trabalho da fundação: romper as barreiras comportamentais do preconceito e tornar visíveis aqueles que a sociedade teima em ignorar, garantindo que o potencial humano seja colocado sempre antes de qualquer limitação física.
O alicerce dessa grande obra foi Dorina de Gouvêa Nowill, nascida em São Paulo em 28 de maio de 1919. Aos 17 anos, ela perdeu totalmente a visão em consequência de uma grave infecção ocular. Diante de um cenário nacional em que não existiam livros ou estruturas voltadas para a educação inclusiva, ela se recusou a interromper sua trajetória intelectual. Dorina desafiou as convenções de sua época e se tornou a primeira estudante com deficiência visual a frequentar e concluir o curso regular de formação de professores na tradicional Escola Normal Caetano de Campos.
Percebendo as imensas lacunas educacionais enfrentadas por outras pessoas na mesma condição, ela viajou aos Estados Unidos com uma bolsa de estudos para se especializar em educação especial na Universidade de Columbia. Ao retornar, fundou em 1946 a instituição que inicialmente se chamava Fundação para o Livro do Cego no Brasil, focada em trazer maquinários e viabilizar a impressão de livros em braille em larga escala.
Sua liderança transpôs fronteiras. Dorina idealizou o primeiro curso de especialização para professores de pessoas com deficiência visual na América Latina, presidiu a União Mundial de Cegos e chegou a discursar na Assembleia Geral das Nações Unidas. Na esfera pública, dirigiu a Campanha Nacional de Educação de Cegos do Ministério da Educação, expandindo serviços especializados por todo o território nacional.
A educadora foi casada por 60 anos com o advogado Edward Hubert Alexander Nowill, com quem construiu uma família com 5 filhos, 12 netos e 3 bisnetos. Dorina de Gouvêa Nowill faleceu aos 91 anos de idade, em 29 de agosto de 2010, na cidade de São Paulo, em decorrência de uma parada cardíaca após passar cerca de duas semanas internada para o tratamento de uma infecção. Embora sua trajetória biográfica tenha se encerrado, as engrenagens de inclusão que ela ativou continuam transformando milhares de vidas diariamente.
Guilherme Kalel é Jornalista e Escritor. Publlisher da Agência Visionpress./[email protected]






