
Em quase todas as cidades brasileiras, uma constatação: a crise dos clubes associativos antigos, tradicionais. As mudanças de estilo de vida, mudanças sociais, econômicas, de modos de morar e trabalhar, alteraram radicalmente a sustentabilidade econômica dos clubes antigos das cidades brasileiras. Lembro que em São Paulo, não muito tempo atrás o tradicional Juventus da Móoca chegou a ter cem mil associados e em pouco tempo estava com apenas 10 mil, afetando sua manutenção, teve que se reinventar para sobreviver.
A construção em Franca de dezenas de novos condomínios horizontais para alta renda e grandes edifícios e arranha-céus, além da facilidade introduzida pelos serviços e equipamentos exclusivos oferecidos aos seus moradores e a queda do investimento necessário para construir uma piscina em casa, por exemplo, também fizeram muita gente que frequentava clubes abandoná-los.
A lista de clubes de classe média ou populares com sedes próprias bem construídas e parque de lazer em situação de abandono, precariedade, demolidos ou extintos definitivamente na cidade é enorme: cito de memória o Comercial do “Beco dos Aflitos”, o Fulgêncio de Almeida, a Sociedade Síria, a AEC centro, as três unidades do Clube dos Bagres, a sede da Francana, a Associação Cultural Luiz Gama, o Banespinha, Amazonas, a lista é enorme. Outros clubes, alguns nem tão antigos, como a AABB, CPP, AEC Castelinho, Internacional, Francana, até mesmo o Clube de Campo, sobrevivem a duras penas, sem muitos recursos para novos investimentos ou melhoramentos que possam atrair novos associados. Ao contrário, a introdução de uma gama enorme de atrações para lazer nos arranha-céus com suas pomposas nomenclaturas em inglês e os clubes dos condomínios fechados aliados à difusão de franquias de redes de academias a preços mais reduzidos vão estreitando as possibilidades de sobrevivência dos clubes tradicionais.
Por outro lado, a pandemia de Covid-19 mostrou com clareza a necessidade crucial de termos nas cidades áreas livres, insoladas, ventiladas e abertas para a prática de esportes ou a simples contemplação e convivência com aspectos da natureza como parte integrada ao sistema de saúde pública, indispensável a grande parte da sociedade que não tem recursos para bancar de forma privada o acesso aos equipamentos e atividades de esporte e lazer. Os dados recentes do Censo do IBGE mostram ainda outro aspecto importante a ser considerado na elaboração da Política Urbana: o rápido envelhecimento da população, ao menos 15,1% dos brasileiros já estão acima de 60 anos.
Estes dois pontos apontam uma oportunidade que não deveria ser desperdicada por Franca: que os clubes, hoje em situação de abandono ou em crise, podem desempenhar um papel importante para o bem-estar social. Seu reaproveitamento, adaptação e transformação em centros-dia para os idosos, sem a necessidade de construir novas e dispendiosas unidades públicas de lazer, seria componente de sustentabilidade urbana e melhor qualidade de vida, atendendo os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – ODS da ONU, do qual o Brasil é signatário.
De um lado, a memória dos clubes tradicionais tem a ver com a memória coletiva dos mais velhos, onde passaram momentos importantes em suas vidas, tornando sua preservação elemento de conexão e integração dos idosos a um programa de atividades especialmente desenvolvido para eles. De outro, o aproveitamento de edificações e estruturas existentes reduziriam os investimentos públicos em novas obras (e no consumo de energia para sua produção), resgatando dentro da própria malha urbana em locais bem localizados e dotados de toda infraestrutura o patrimônio cultural e edificado da cidade, como das instalações do Clube dos Bagres, tombado como patrimônio histórico da cidade mas em mau estado de conservação ou da sede da Francana, por exemplo.
A ideia me ocorreu ao visitar no Vale do Paraíba a cidade de Jacareí recentemente e após conhecer alguns dos Centros Esportivos de Esporte e Lazer – CEPEL, rede da Prefeitura de Franca que está em implantação. Dois clubes tradicionais de Jacareí, o Elvira e o Trianon, foram incorporados pela Prefeitura como centros de educação, esportes, lazer e cultura. O Elvira foi o time profissional de futebol da cidade e parte de suas instalações esportivas se transformou no Educamais São João. Já a sede urbana do Trianon, clube que foi forte adversário do basquete francano nos anos 1970, tornou-se o EducaMais Centro. Ambos integram o Programa Educamais que consiste em realizar ações intersetoriais com o propósito de oferecer educação, cultura, esporte e lazer para professores, alunos da rede pública e comunidade em geral, em unidades localizadas em diversas regiões do município, muito mais abrangente e intergeracional que o modelo CEPEL, que pode ser aperfeiçoado para atender a demanda do aumento expressivo do contingente de idosos que o Censo do IBGE captou para a cidade nos próximos anos. Sei que olhar o futuro e planejar além de um mandato nunca foi o forte da administração municipal, mas não custa sonhar.
Mauro Ferreira é arquiteto e urbanista







Curiosamente, outro clube muito tradicional de Jacareí, o Ponte Preta Futebol Clube, que também tinha uma ampla clube social e de lazer, por questões de dívidas, está com processo em andamento para ser assumido pela Prefeitura de Jacareí, ao menos parte de suas instalações.
Na Cidade de São Paulo, por ter uma Escala Metropolitana, existem os Clubes de Bairro. Estes Clubes tem relação com as Colônias de Imigrantes. Como Clube Português nas Perdizes, os Clubes Árabes Libaneses na Vila Mariana e Paraíso.
Mas em São Paulo, o Danilo Miranda desenvolveu uma Proposta dos SESC que cumprem um papel importante de Centros de Lazer e Cultura. Os SESC funcionam como Grandes Equipamentos Urbanos que tem uma Função de Polo Urbano.