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O caixão e o coveiro

Há algum tempo, trabalhei numa cidade da região. Lá, dentre outros serviços, eu fazia atendimento ao público. Coisa simples, orientação e encaminhamento ao cidadão que tinha dúvidas.
Exige responsabilidade, comprometimento e é um ótimo exercício para a mente. Mostra que nossos problemas podem ser ínfimos e banais quando comparados ao universo que nos rodeia.
Logo no primeiro dia, apareceu um senhor. Tinha 73 anos, ele tinha minha altura, gordo, forte, pele morena e cabelos brancos. Camisa de botão aberta até o meio do peito e uma correntinha com uma Nossa Senhora Aparecida.
Já haviam me falado que era enjoado, às vezes, mal-educado e exaltado quando contrariado.
Ele tinha um problema na renovação de CNH, não passou no exame de vista. Estava irritado: “É só conversa, e ninguém resolve meu problema”.
Pesquisei a situação do procedimento de renovação e o orientei a procurar um oculista, fazer os exames e, se necessário, usar óculos. Se ele quisesse, eu mesmo faria contato com a assistência social do município para marcar uma consulta. Com trabalho esperando minha atenção, eu queria me livrar dele o mais rápido possível.
Contrariado, ele envermelhou o rosto, uma veia estufou-se no centro da testa e ele disse: “Não estou cego”. E foi-se embora pisando duro.
Na semana seguinte, lá estava ele de volta. Disparou sua metralhadora de reclamações contra médicos, assistentes sociais, prefeitura, justiça e disse que eu não resolvia nada.
Por obra divina, mantive a calma e não respondi com as primeiras palavras que me vieram a mente. Se eu o fizesse, daria razão a sua reclamação de ser maltratado em todos os órgãos públicos que procurou.
Uma semana depois, eu já o esperava. Cogitei dizer que não haveria atendimento, mas há determinadas questões que estão acima de conceitos práticos, são obrigações morais. E lá estava ele com a mesma ladainha.
O fato dele não ter aparecido na data imediata me deixou aliviado. Mas, o senhor não deixou de aparecer na próxima, dessa vez com um problema diferente:
“Vizinho não trabalha, e acha que todo mundo é obrigado a ouvir música pornográfica com som alto”. – dentre alguns impropérios que não cabem nesse espaço, eis seu novo problema.
Orientei que ele poderia acionar a Polícia Militar, procurar a Defensoria Pública para entrar com um processo ou fazer uma mobilização com os vizinhos, um abaixo-assinado, para que o problema saísse do individual e se tornasse comum, pois facilitaria a tomada de providências. Foi embora um pouco mais calmo.
Sucessivamente, surgiram reclamações diversas. Falou sobre os filhos. Que não queria vê-los, estavam morando distantes. Perguntei se ele gostaria que fizéssemos contato em caso dele estar passando alguma necessidade, ele disse que não. Apenas o ouvi, mesmo que sobre isso eu não pudesse fazer nada para ajudá-lo.
Nesse dia, no momento que ele foi embora, deu aquele clique, aquelas reflexões que aparecem rapidamente no nosso pensamento: sua presença semanal ali tinha um motivo, ele apenas precisava conversar.
Você pode até pensar que essa é uma conclusão lógica, mas não é bem assim. Há pessoas, que por circunstâncias que a vida lhes impõe, são fechadas, rudes e não se sentem à vontade para expressar sentimentos. Aquele homem solitário usava sua rudeza como forma de enfrentar o mundo.
Sobre isso, Fiódor Dostoiévski escreve em ‘O Idiota’:
“Sei muito bem que todos sentem vergonha de falar dos seus sentimentos, mas eu estou aqui falando e não sinto vergonha na sua presença. Eu sou insociável, e é possível que fique muito tempo sem visitá-las. Só peço que não façam má ideia disso: eu não disse que não as aprecio, e também não pensem que me ofendi com alguma coisa.”
Quando deixei de vê-lo como uma obrigação de trabalho e passei a olhá-lo como gente, mudei a forma de observar as questões daquele senhor e passei a doar a ele algo que, acredito eu, lhe seria valioso, o meu tempo.
Nos dias de atendimento, eu adiantava o trabalho de manhã e à tarde ouvia sem pressa o que ele tinha a dizer.
Colocando as reclamações de lado, me contou que era santista e gostava de futebol:
“Ê, rapaz! Gostava do Serginho Chulapa no Santos, era centroavante bruto, arrumava briga e grande jogador. Fui no estádio assistir a primeira partida da final do Campeonato Brasileiro de 1983, Santos ganhou do Flamengo de 2 a 1, mas acabou perdendo a segunda partida e perdemos aquele título. O Rodolfo Rodriguez foi o maior goleiro que vi jogar. Neymar e Ganso chegam nem perto do que Robinho e Diego jogaram. Lembro da Seleção de 1970”.
Contou sobre uma morena goiana inesquecível. “Eu era caminhoneiro sem juízo, um dia fui embora e não voltei mais. Nem imagino como ela deve estar hoje? As morenas envelhecem”.
Eu respondi que as loiras também. E foi a primeira vez que aquele senhor deu uma gargalhada.
Eventualmente, ele faltava uma semana, mas na outra ele sempre estava lá, entre reclamações e saudosismos.
No último atendimento antes do recesso de final de ano, era uma tarde úmida e quente, em que a chuva de verão ia e voltava. Ele apareceu mancando, usando chinelo de dedo e apoiado num guarda-chuva. Ajudei-o a se sentar, busquei umas bolachinhas e um cafezinho para tomarmos.
Falamos amenidades naquele dia, e ele me mostrou o motivo de estar mancando. Uma ferida próxima ao tornozelo, era diabético. Perguntei se ele se cuidava, e sua resposta não me convenceu. Eu fiz uma careta e ele disse “é assim mesmo, isso vai sarar”.
Encaminhei ele ao hospital para uma consulta sobre aquela ferida, e me ofereci para chamar uma ambulância. Ele recusou: ‘Passo no hospital quando sair daqui. Prometo’.
Levantou-se para ir embora e me agradeceu: “Obrigado! Acho que você é o único que me chama de senhor. Feliz Natal para você e sua família”. Desejei o mesmo a ele e o acompanhei até a saída.
As memórias do trabalho se perdem entre a confraternização, as risadas, os jantares e os almoços das festas de Natal e Ano Novo. É obrigatório um ‘reset’ na memória, para um início de ano construtivo.
E o recesso tem fim, e findo, volta ao trabalho.
No primeiro dia de atendimento, entre tantas pessoas, nem percebi que o senhor não apareceu.
Na semana sequente, também não. Foi até bom, pois há um aumento considerável na quantidade de pessoas que buscam orientação por ‘problemas’ ocorridos durante festas de final de ano.
Entretanto, ele não apareceu pela terceira vez seguida. Perguntei ao segurança do prédio se ele tinha notícias. E ele me respondeu:
‘Você não ficou sabendo? A guarda municipal o encontrou em casa dia 27 de dezembro de manhã, quando os vizinhos chamaram por causa do mal cheiro. Parece que faleceu cinco dias antes. No enterro, disseram que só estavam o caixão e o coveiro’.

Michel Pinto Costa

É Oficial de Promotoria do Ministério Público do Estado de São Paulo, em Franca, e bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Franca.

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