Colunas

O ateliê de Malerei

Apoiando o rosto na mão esquerda, daquele jeito que a gente fica quando quer descansar a cabeça (mas não totalmente! Só uma relaxadinha), Malerei deixava a direita sobre uma folha em branco, retendo a pena de nanquim a centímetros de iniciar algum traço com a viscosa e escura tinta.

Um rapaz que se apresentara como Tarcísio lhe encomendara ilustrações para os contos que escrevia a um jornal. Uma de suas exigências era justamente que fossem em nanquim. Malerei não possuía dificuldade quanto a algo assim, porém sempre preferia alguma técnica mista, dançando nas cores, brincando com várias formas de desenhar, reinventar o mundo…

No devaneio, batidas no portão lhe inculcaram o momento da próxima aula que conduziria.

— Já estou indo! — gritou Malerei, organizando o balcão de trabalho, separando estojos, tintas e resmas à disposição de quem precisasse.

Folheou rapidinho um livro da Aline Abreu, repassando o que iria ministrar, e prendeu Aubergine, sua simpática e eufórica cadelinha, atrás de uma cerca no quintal. Ufa! O ateliê estava pronto para os alunos.
Turma nova, tímida, mas com os olhos famintos que deleitavam Malerei a ensinar. Dispôs cadeiras para se sentarem, arranhou a garganta e ergueu três lápis acima da cabeça, apresentando as cores primárias numa simples explicação. Sabia que todos estavam doidos para desenhar algo.

Nova batida no portão.

— Malerei!

— Um instantinho!

Era um pequeno garoto, cabisbaixo, de cabelo bem espetado, com uma pasta em mãos.

— Ah, bom dia, Espinho! — cumprimentou a sorridente ilustradora. — Vem, entre. Sua mãe não quis ficar? Tudo bem, os outros estão nos aguardando.

Agora sim, todos na expectativa das orientações: poderiam desenhar o que quisessem, contanto que utilizassem o amarelo, o azul e o vermelho na ilustração.

— Sim, as três cores devem aparecer no que forem desenhar. Então, caprichem e soltem a imaginação.
Distribuiu folhas, lápis e deixou os alunos demonstrarem o que sabiam.

Serviu-se de chá, propositalmente preparado para a aula, exalando um verdejante aroma, e ofereceu aos aprendizes. Depois de alguns minutos, virou uma ampulheta sobre o balcão, alegando que teriam até o último grão de areia cair para terminarem o desenho.

Quando muito, ouviram um ritmo fraco, gorgolejante, fluido e retumbante, como água em pedra… Malerei se guiou por aquele som, curiosa de onde vinha. Caminhou ao longo do ateliê e, incrédula, aproximou-se de Espinho, que acabava de desenhar o mar se jogando sobre rochas.

— Você coloca vozes nos seus desenhos — comentou Malerei, maravilhada. — Eu também sei uma coisinha ou outra.

Piscou com um dos olhos e sorriu ao pegar um lápis azul e desenhar uma onda na folha do menino. No instante em que finalizava, ao puxar o lápis para si, grudado na ponta estava uma torrente daquele mar que veio junto, saindo do papel, acompanhando a mão de Malerei. Ela, como um maestro, espalhava o flutuante azul por tudo — pelas paredes, chão, teto, entre os alunos. A onda dançou, se retraiu e, quando a ilustradora tocou a folha, voltou para seu lugar ao lado da rocha.

Abismados, pediram para que fizesse novamente. Malerei cochichou para Espinho, que desenhou algo, e dele foram puxadas estridentes gaivotas voejando com suas asas em uma algazarra risonha.
No quintal, um frenético ruído!

Aubergine saltou pela cerca e adentrou o ateliê sem pedir licença. Pulou sobre mesas e balcão, derrubando tintas e lápis, latindo incansavelmente para as gaivotas, que Malerei fez sumir como um raio. A cadelinha não parou!

E lá veio outro som! Um longo silvo conseguiu acalmar Aubergine; Espinho rapidamente desenhara um apito.

Malerei prendeu mais uma vez sua parceirinha e voltou aos alunos. Estreitou os olhos e não se conteve na gargalhada contagiante.

“E esse é só o primeiro dia de aula.”

Lindolfo Junior

Lindolfo Junior é: Escritor? Me chame de rabiscador, pois são linhas de incertezas as que minha mão se presta a colocar no papel… @jhunnyor

2 Comentários

  1. Muito bom! O texto começa parecendo um relato comum de ateliê e de repente somos engolidos por uma cena mágica super criativa. A dupla Malerei e Espinho tem muita química narrativa. Parabéns por mais um ótimo conto!

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