Ninguém grita em velório de rico

Inhaim?
Nossa, né possível… eu estava no serviço quando meu telefone tocou. A Chaiene, neta da Dona Genevieve Cortese, uma das minhas patroas, ligou para avisar que a avó tinha ido para a caixa prego, batido com as dez, batido com a cachuleta, foi pra terra dos pés juntos, virou adubo e morada de minhoca. Fiquei em choque. A véia tinha lá seus 80 anos, mas era esperta e enjoada (tô pecando). Eu jurava que ela ia passar dos 100. Tinha que ir ao velório. Ai, meu Deus, velório de rico! O pior de tudo é que eu tinha perdido um dos meus ganhos. PQP. Chamei a Lolosa para ir comigo.
A bisca relutou: “ai, não tenho roupa”.
“E eu, tenho?”.
“Lolosa, é coisa de irmã”
Concordou. Afinal era coisa de gente rica. A véia ia ser “queimada”. Coisa de rico também. Rico tem essa mania de virar cinza no fim da vida e ainda dar trabalho pros outros. Ficar carregando aquele pote de cinza e ter que jogar em algum lugar. E rico ainda resolve onde quer que joguem a cinza. Um caso.

O velório ia ser na Funeral Home. A única roupa mais escura que eu tinha era um vestido azul marinho de flor branca e azul. Pra ficar mais chique, fiz um turbante amarelo com um lenço. Pus os óculos escuros que comprei no Brás e fui. De táxi. Gastando por causa da véia. Pior que a Lolosa mora nos quintos dos infernos. Ela estava com um conjunto listrado e sapato de bola com laço vermelho.

Gente, o velório era numa casa linda. Entramos. Dona Genevieve estava esticadinha num caixão que parecia um guarda roupas de mogno, de tão bonito. Cumprimentei a família. “Chuif”. Rico chora baixinho e põe o lenço na boca. Não é igual pobre que grita e debruça em cima do caixão: “Não leva ele não”, “Eu quero ir junto com ele”. Quer nada. Enterrou e já está dando para outro na rua. Pobre gosta mesmo é de gritar. O velório tinha ar-condicionado e uma sala com um monte de comida. Pão de queijo, pão de batata, sucos, sopas, espumante, música ao vivo, chuva de pétalas, vídeo de homenagem (a véia finada segurando uma bonequinha) e transmissão pelo computador. Gente, eu e a Lolosa aparecendo em rede!
Mas mesmo assim prefiro os velórios dos meus compadres e amigos. A gente ri, conta piada, faz negócio, fala mal dos outros, fica sabendo quem largou, quem chifrou. De rico é só aquele lencinho e um “chuif” igual de gatinho novo que a maquiagem nem escorre. De pobre é cada limpada no nariz, cada catota que escorre.
Resumindo: no meu velório, quero todo mundo lembrando assim: mulher boa de forno, fogão e cama. E boa faxineira.
A véia morreu no luxo e eu voltei pobre para casa e ainda pagando táxi… Essa coisa de morte, mata a gente de raiva…









