Nia e Lia

Bem-te-vis assobiavam em um coral improvisado, flutuando de muro em muro pelo bairro Dermínio. Estavam eufóricos por Nia que, aos 22 anos acabava de ter Lia, uma bebezinha pequetucha, forte e muito cativante.
E como o tempo gosta de passar rápido, com muito alpiste para os bem-te-vis e papinha para Lia, quatro anos saltaram aos olhos de Nia em um contentamento que inflava o coração da mãe de primeira viagem.
Aquele ano parecia a Nia muito promissor. Visara um emprego de coladeira no Santa Efigênia e em breve Lia seria admitida em alguma creche. Junto com o marido, estavam conseguindo uma boa renda para um almejado e calmo futuro.
Que não veio.
Ao fundo da casa da mãe, Nia chorava baixinho para não acordar Lia. Todos os seus pensamentos, sua vida, seus sonhos… tudo colapsara na traição do marido, o qual se justificara, pedira desculpas… Ele lhe apunhalara tão descaradamente, tão fundo…
“Como pode fazer isso comigo e com a Lia…”
A garotinha vinha, curiosa, se aninhava ao pescoço da mãe dando um beijo estralado e adormecia novamente. Nia se segurava, estremecia levemente e acariciava o cabelo de Lia, murmurando uma canção de ninar.
Por vários meses Nia acordava de olhos inchados pelas manhãs. Preparava o café, junto com um leite bem morninho, torradas e acordava Lia com um sopro na ponta do nariz.
– Hora de ir para a escolinha, meu amor.
Cinco minutos solicitados para mais sono. Tudo bem, só um pouquinho. Deixava a mochila organizada nesses minutos ao lado de sua marmita e verificava o dinheiro da semana: tinha que dar até a próxima quinzena; esticando e apertando conseguiria.
Lia demorava para levantar, entretanto se arrumava bem rápido, calçando tênis e escovando os dentes sozinha. Pegava um lápis esquecido junto de um brinquedo, os colocava na mochila e estava mais pronta que a própria Nia.
Subiam pela rua Capitão Henrique Beletable antes mesmo da alvorada. Nia levava a filha até a escola e de lá partia para o trabalho. Por isso não se dava o luxo de esperar por um horário melhor, caminhando no escuro da rua com suas luzes queimadas. Eram quatro passos que ressoavam solitários, enquanto mãos se entrelaçavam num medo fugidio do que estaria em cada esquina, dia, em cada ano de incertezas.
Na expressão da adolescência, Lia já trabalhava numa loja de roupas, acordando antes do despertador e muitas vezes até antes de Nia. Os passos agora eram mais rápidos, mais certeiros com a trilha que se formava para ambas.
Foi nessa época que Huguinho encarou Nia bem nos olhos, com a respiração quase falhando e muito suor pela testa, e pediu permissão para namorar com Lia.
Os bem-te-vis cantaram alto!
E continuaram cantando, festejando! E veio casamento e veio mudança!
Aos 22 anos, Lia entrava para uma faculdade na Austrália, pronta para alcançar o topo de ruas não mais sombrias.
Orgulhosa, o coração inflando novamente num sorriso que não saía do rosto, Nia observava as estrelas sumindo no amanhecer. Pegava um pequeno balde e jogava alpistes para os bem-te-vis.









O conto Nia e Lia traz uma delicadeza especial ao retratar vínculos, sentimentos e pequenas descobertas da vida. A narrativa conduz o leitor de forma suave, quase como quem observa um instante simples que, aos poucos, revela significados profundos. É bonito perceber como as personagens ganham vida nas entrelinhas, lembrando que muitas das maiores transformações acontecem em gestos discretos e relações sinceras. E me fez lembrar de uma amiga querida minha 🥰
Que conto maravilhoso! Continue nos presentiando com esses contos interessantes!
Que conto bom, em especial pela forma que desenrola e mostra que a vida continua a seguir o fluxo dela, nem sempre em altas porém nunca somente em baixa! Parabéns pelo rabisco!!!
Muito bom delicado e leve ❣️ como tem que ser a vida
É um lindo conto sobre continuar, sobre a tristeza ser passageira, sobre permanência e sem esperar por nada perceber que existe algo ou alguém mais importante esperando no futuro.
Sempre muito bom, ter um conto com final feliz para se ler em um meio da tarde.
Lindo conto !!!
Realçando a força da mulher e mãe,criando uma filha ,depois de um divórcio.
E a felicidade de ver a filha vencendo na vida 👏🏻👏🏻👏🏻
Amei 💞
Muitas vezes as tempestades na vida de algumas pessoas vem para destruir tudo , mas a fé , a força e a coragem de lutar mesmo com o choro escondido as fazem vencer todos os desafios que vem , no final são vencedoras , vencem toda dor , e vem a alegria .
Hoje podem celebrar suas conquistas e vitórias.
Lindo demais!
Me emocionei!🥺