Mudança de cidade e de vida

Por Maria Goret Chagas
– De Delfinópolis a Franca!
-1951: Delfinópolis, cidade que nasci, cidade onde recebi um milagre e na qual vivi durante 10 anos.
Mudança!
-1961: Franca, cidade que acolheu e abraça minha arte e minha vida nestes 63 anos!
– Chegamos do interior, numa tarde amena ( como era ameno o clima de Franca)
sete crianças e uma mudança ‘’radical‘’ na nossa vida e na de meus pais.
Um casario antigo com parreiras no quintal, rua larga, bonita.
Vizinhos diferentes ou diferenciados!
Assustados com a possível perda da tranquilidade, do sossego…
Família grande? De onde? Quanta criança!
E mais, frango, galinha…
Cachorro? Não.
Distanciamento, frieza até o dia que um precisou do outro…
Filho doente com vontade de comer ‘’daquela comida cheirosa, frango caipira, cujo aroma vinha do outro lado do muro ‘’, simples, mas com o ingrediente principal: o amor!
As novas etapas: escola, trabalho, mais dois filhos e a família crescendo, crescendo (nove: seis mulheres e três homens ) .
Tudo foi se ajeitando com a amizade e o carinho da vizinhança, os primeiros carros do meu pai, o estacionamento, para comércio.
E a cidade? Crescendo, crescendo.
Os curtumes no centro da cidade, as primeiras grandes fábricas de calçados, quatro cinemas, as praças para os encontros, dois grandes colégios: – Champagnat (masculino) arquitetura clássica de grande beleza, influência francesa – 1917. Fundado pelos irmãos maristas, tendo como patrono o padre Champagnat .
O arquivo histórico onde colhi material de pesquisa.
A beleza singela de sua capela…
O Colégio Nossa Senhora de Lourdes (feminino) a tradição desativada em 1969 e também, que capela!
Foi Unesp, onde me formei em Letras!
Ah! quando os dois colégios se encontravam … era a “nossa alegria‘’. Participávamos de datas comemorativas, bandinha com baliza e tudo… Uma vez vesti de japonesa, não sei porque!
Tínhamos aulas de francês, espanhol, mas o mais importante, para nós, era coincidir horários das saídas das duas escolas… bastava uma ‘’olhadinha‘’ de longe: o flerte.
Quanta ingenuidade e pureza!
A AEC e as brincadeiras dançantes, os bailes, o IEETC e o curso Clássico, era perfeito cursar apenas o escolhido: humanas.
Todos estudando… vitória de meus pais: Alaíde um grande líder e Diva uma grande mulher!
Um dia caminhando pelas ruas e avenidas, comecei a avaliar:
A cidade e a vida, engraçado, às vezes, nem percebemos que o tempo passa e como passa.
A inspiração para pintar começou a aflorar, passei a observar mais os detalhes:
A cidade de Franca, internacionalmente conhecida pela produção de couro e calçado, a cultura do café, de derivados de leite, mel, chocolate, joias e lapidação de diamantes.
O basquete, as medalhas, os títulos!
O relógio do sol, único vertical, construído em 1886 pelo frade Germano d´Annecy, marca esta mudança dos tempos. Outro igual? Só na França, em Annecy…
A Catedral Nossa Senhora da Conceição desde 1898 e aberta ao culto religioso católico em 1913.
Um projeto do engenheiro italiano Carlos Zamboni…
Dois grandes monumentos que guardam as lembranças mais remotas de nossa cidade e hoje, com a mesma imponência, observam as transformações!
Franca ontem, Franca hoje… UNIFRAN, UNESP, UNIFACEF, FDF, FATEC e outras.
Espaço cultural Casa da Cultura com o atelier e o acervo magnífico de Bonaventura Cariolato .
O prédio que abrigava a FEAC, na Rua Campos Salles, foi projetado por ele e foi o lugar em que ele morou, pintou e se eternizou.
Bonaventura Cariolato nasceu em Malo, província de Vicenza, na Itália, em 1894. Aos 28 anos, conheceu uma jovem brasileira de Conquista (MG) que estava a passeio com a família pela Itália e se apaixonou.
No ano seguinte, veio para a região e pouco tempo depois radicou-se em Franca com a família.
Franca ganhou o grande presente resultado desta união.
A bonita casa era local de exposições frequentes de artistas francanos, nacionais e internacionais, salões de arte como o de Abril, que participava e que, inclusive, ganhei medalhas, troféus e menções honrosas.
Lembro que passeava pela praça, visitava o Museu do Calçado, sentia a aragem das quatro estações, a “Praça Barão´´, a Água da Careta que me serviu de inspiração, tudo é uma volta ao passado.
Dá para sentir ainda aquele tempo que saíamos em turma ou sozinhos, íamos ao Clube dos Bagres, à exposição no parque Fernando Costa, tranquilamente, sem perigo nenhum.
Não havia desemprego? Não havia maldade? Havia paz!
…e depois?
A casa nova, noutra rua, com jabuticabeiras no quintal.
Os casamentos dos irmãos, os sobrinhos netos e o vestibular…
Fui morar fora, sozinha, numa pensão em Ribeirão Preto, fiz cursinho e não só passei no vestibular (Letras) como também passei na vida!
Quanta experiência adquirida, sozinha, (d)eficiente, pessoas estranhas, mas com um grande coração .
Que sabedoria de meus pais permitindo este desafio! Atemporais!
Meu pai foi eternizado em Franca, com a Rua Alaíde Rodrigues Chagas!
Cabeça aberta, pessoas certas!
Deficiente? Eficiente com autonomia e significado!
Ainda caminhando pelas ruas e avenidas, comecei a avaliar:
A cidade e a vida, engraçado, às vezes, nem percebemos que o tempo passa e como passa.
A inspiração para pintar começou a aflorar, passei a observar mais os detalhes:
Franca, ´´FRANCA(mente)´´ considero Franca, a cidade que sempre abriu os braços para acolher-me e incentivar-me na arte, no magistério, tornou-se minha moradia especial!
Franca, lugar inspirador, nela crio telas literárias com pinceladas livres, soltas, expressionistas, repletas de sentimentos, impressionistas como a névoa, a mancha colorida das lembranças, pois se ‘’A pintura é um poema sem palavras’’, segundo Horácio, faço da Literatura uma verbalização da pintura de minha vida e coloco em exposição, nela exponho um grande e variado acervo , cada quadro com seu valor, mas a obra prima cabe ao leitor, ao observador selecionar, ela é o começo, o meio e o fim é a merecedora da Medalha de Ouro!
Descubra- a… neste labirinto da alma.
Descobri e considero como Medalha grandiosa a que recebi em 08 de maio de 2013 quando fui reconhecida como Cidadã Francana!
Esta metafórica Chave da Cidade abre infinitas portas e assim, levo o nome de Franca para onde vou com meu cavalete, pincelo cores e deixo a marca de “ minha cidade do coração´´!
Parabéns!
Esse texto faz parte da série "O que elas têm a dizer" em que escritoras de Franca homenageiam a cidade pelos 200 anos, comemorados no próximo dia 28 de novembro. Será um texto por dia, até o final do mês, de crônica, conto, ensaio, poesia… escrito por mulheres. Se você também quiser participar, envie seu texto para [email protected] indicando no assunto: texto para homenagear Franca. Ficaremos felizes com todas participações. Soraia Veloso, escritora e francana de coração, é a idealizadora do projeto.









Gratidão pela publicação do meu “amor” por Franca!
Parabéns cidade do meu coração !