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Franca está preparada para o El Niño?

Por Otávio Henrique da Silva Lemes

Nos últimos dias, nossa região assistiu a cenas que, até pouco tempo atrás, pareciam exceção. A tempestade que atingiu Ribeirão Preto e municípios vizinhos provocou rajadas de vento superiores a 120 km/h, microexplosões atmosféricas, quedas de árvores, interrupções no fornecimento de energia e água e danos significativos à infraestrutura urbana. Enquanto equipes trabalham para reparar os prejuízos, uma pergunta inevitável permanece: Franca está preparada para enfrentar um cenário em que eventos climáticos extremos serão cada vez mais frequentes?

Essa não é uma preocupação recente. Há mais de cinco décadas, a ciência alerta que o aquecimento global intensifica ondas de calor, secas, enchentes e tempestades. O que antes parecia uma ameaça distante tornou-se parte do cotidiano de cidades brasileiras de todos os portes.

É importante esclarecer que a tempestade registrada em Ribeirão Preto não foi causada pelo El Niño. No entanto, ela evidencia a vulnerabilidade das cidades justamente no momento em que organismos como a Organização Meteorológica Mundial (OMM), e o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) acompanham a formação de um novo episódio do fenômeno. O El Niño resulta do aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial e altera os padrões de chuva e temperatura em diferentes partes do planeta. Em um mundo já aquecido pelas mudanças climáticas, seus impactos tendem a ser ainda mais intensos.

Se sabemos que esses eventos se tornarão mais frequentes, a questão deixa de ser meteorológica e passa a ser política: como estamos preparando nossas cidades?

No Brasil, a adaptação climática ainda ocupa um espaço secundário. A maior parte dos investimentos continua concentrada na reconstrução após os desastres, e não na prevenção. Estima-se que mais de 85% dos municípios brasileiros não possuam planos específicos de adaptação às mudanças climáticas, tornando a resposta aos eventos extremos predominantemente reativa.

Franca possui, desde 2010, uma Política Municipal de Mudanças Climáticas. O reconhecimento institucional da crise foi um passo importante, mas reconhecer um problema não significa solucioná-lo. Quinze anos depois, cabe perguntar quanto dessa política foi efetivamente incorporado ao planejamento urbano.

Nesse contexto, merece destaque o pacote de obras antienchentes iniciado neste ano, com investimentos estimados em R$ 40 milhões para intervenções em córregos e no sistema de drenagem urbana. São obras importantes, voltadas à solução de problemas históricos e que certamente podem reduzir riscos imediatos para a população. Entretanto, elas também revelam um modelo de adaptação baseado principalmente na infraestrutura cinza, com canalização de córregos, ampliação da drenagem e concretagem.

O desafio é que as mudanças climáticas exigem respostas mais amplas. Obras de engenharia são necessárias, mas dificilmente serão suficientes se não vierem acompanhadas de soluções baseadas na natureza. Recuperar matas ciliares, ampliar áreas permeáveis, restaurar cursos d’água urbanos e criar parques lineares reduz enchentes, melhora o conforto térmico e fortalece a resiliência das cidades. Essas medidas permitem que a água seja absorvida pelo solo, reduzem enchentes, amenizam as ilhas de calor, favorecem a biodiversidade e devolvem aos ecossistemas parte da função que lhes foi retirada pela urbanização. Em vez de combater a natureza, trata-se de incorporá-la como uma aliada do planejamento urbano.

Essa reflexão torna-se ainda mais relevante quando lembramos da tempestade de poeira que atingiu Franca em 2021. O episódio evidenciou como estiagem, altas temperaturas, ventos intensos e degradação ambiental podem produzir impactos expressivos também em nossa região. Ao mesmo tempo, revela a importância de corredores ecológicos capazes de conectar fragmentos de mata nativa, reduzir ilhas de calor, proteger o solo e contribuir para a regulação do microclima urbano.

É justamente nesse ponto que o debate sobre a expansão urbana da Macrozona do Rio Canoas merece atenção. Enquanto a cidade investe recursos significativos para reduzir os impactos das enchentes, discute-se a ocupação de uma das áreas ambientalmente mais estratégicas do município, onde se concentram nascentes, áreas de recarga hídrica e importantes remanescentes de Cerrado.

Essa não é apenas uma discussão sobre crescimento urbano. É uma escolha sobre qual cidade queremos construir diante da crise climática. Expandir a ocupação sobre áreas que desempenham funções essenciais para a infiltração da água, a conservação da biodiversidade e a regulação do clima significa reduzir justamente a infraestrutura natural que ajuda a proteger Franca dos impactos que se anunciam.

Por isso, a resposta à pergunta que dá título a este artigo é, infelizmente, ainda não.

Franca possui instrumentos legais, realiza investimentos importantes e dispõe de capacidade técnica para avançar. Mas preparar a cidade para o futuro exige que cada decisão sobre mobilidade, habitação, expansão urbana e uso do solo seja pensada também sob a perspectiva da adaptação climática. A crise climática não será enfrentada apenas com mais concreto; ela exigirá rios vivos, áreas verdes, matas preservadas e planejamento de longo prazo.

No fundo, essa também é uma questão de justiça climática. Os impactos dos eventos extremos não atingem todos da mesma maneira. São as populações mais vulneráveis que vivem em áreas de risco, sofrem com a falta de arborização, enfrentam enchentes, calor excessivo e interrupções de serviços essenciais. Adaptar Franca às mudanças climáticas significa proteger vidas, reduzir desigualdades e garantir que o direito a uma cidade segura e ambientalmente equilibrada não seja privilégio de poucos, mas uma realidade para toda a população.

Otávio Henrique da Silva Lemes é Especialista em Meio ambiente e desenvolvimento sustentável pela Faculdade Líbano, graduado em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), é presidente da Associação Juventude Pelo Clima, conselheiro do Conselho Municipal de Desenvolvimento Sustentável e Saneamento Básico de Franca (COMDEMA), é pesquisador do Núcleo Negro da Unesp (NUPE) e do Grupo de Estudos e Pesquisa em Direito Ambiental Internacional (GEPDAI). É membro do Fórum Paulista de Combate aos impactos dos agrotóxicos e transgênicos, e do Fórum Franca Sustentável, desenvolve inúmeras ações comunitárias de  restauração e proteção do cerrado em Franca. Desde 2023 pesquisa sobre as expressões do racismo ambiental em Franca e promove múltiplas ações comunitárias de restauração e proteção do cerrado e da mata atlântica no Brasil.

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