Meu sobrinho Uóchito só me dá despesa!

Inhaim?
Estava eu desencravando a minha unha do dedinho direito do pé quando tocou o telefone. Era o Conegundes, meu irmão, dizendo que mandaria meu sobrinho Washington Cleidisson para passar a “semana do saco cheio” na minha casa. Chegaria de Curralinho de busão. Que diabo é isso de saco cheio? Os estudantes resolvem enforcar aula e baixam na casa de algum parente!? No meu tempo era palmatória, sopa rala e a professora ainda quebrava régua na cabeça da gente. Molecada folgada.
“Que dia ele chega”?
“Amanhã”?
Putz, vou perder o forró do Milk Boi.
Fui pra rodoviária buscar o Uóchito de Corcel com o Ditão do Espeto. Gastou uma gasolina fudida. Esse Corcel bebe mais do que o Mussum dos Trapalhões. E toda vez que liga o carro sai uma fumaça preta. O Ditão diz que é normal. Eu acredito nesse mano véio de cachaça, bão de reprodução e que ainda tem banca de jogo do bicho. O Ditão do Espeto falou, a água parou.
Quando cheguei à rodoviária, já achei esquisito: o menino não tomou “bença”. O filho de uma égua pulou no banco com as “chinela” havaiana remendada com arame. Eu com luxo com o carro, cheirando a Alfazema. O moleque ainda arrancou um olho da onça que pisca quando breca o carro. Ditão, só você para arrumar. Era meu bibelô. Não perdoo. Essa eu levo pro caixão.

O menino começou a soltar bufa no caminho da rodoviária pro barraco. Achei que eu estava nadando de costas no Tietê. Esgoto puro. Já sei: comeu coxinha estragada em alguma parada. Pobre adora coxinha de rodoviária, gordurenta, na estufa.
E o moleque: “Tia Lulu, lá em Curralinho, carro de puta é Corcel”.
É verdade. As do puteiro da dona Margô só desfilavam de Corcel. Mas eu sou a Lulu, pura e casta (só dei na Universal e em Aparecida).
Chegando em casa, o capeta correu pro banheiro e castigou a porcelana. Parecia aquelas pinturas que a gente vê num museu.
Tive que fazer janta. O moleque come com mais fome do que aqueles meninos da África que a gente vê na televisão. A barriga enorme, cheia de verme. E eu não sou acostumada a jantar. Janto dois “pão” com “mortandela” e Tubaína – comida mais leve. No outro dia, o Uóchito comeu 5 “pão” com margarina Cremosy, bebeu meia garrafa de café e eu, pro leite render, pus água.
Fomos ao supermercado comprar umas coisas pro menino comer. No carrinho, ele foi colocando Nutella, sucrilhos, requeijão, Danette, bombom Ferrero Roche, Kinder Ovo (deu birra!), iogurte sem lactose. Ia só jogando no carrinho. O cabra da peste resolveu tirar a barriga da miséria nas costas da tia.
O moleque só comia e via Sessão da Tarde. E eu fazendo as contas de quantas faxinas ia ter que fazer pra pagar aquilo tudo. Além disso, o menino produzia fezes em escala industrial. Enquanto via televisão, tirava catota do nariz, fazia bolinha e pregava embaixo do meu sofá de napa amarela.

Uma das poucas vezes que saiu para brincar, chutou a bola na vidraça da Dona Alice dos Prazeres Preciosa. Tive que pagar. E acalmar a dona Alice, que de Prezeres não tem nada.
Uóchito disse que o sonho da vida dele era experimentar comida japonesa. Nós “fumo”, ele “porvô” e não “gostô”. Disse que o peixe estava cru. Uma grana.
Chegou o dia de levar a praga na rodoviária, ele falando mais do que a nega do leite e dizendo que ia voltar no ano que vem.
É, bebé? Cê que pensa.
Depois dessa, só quero ser chamada de Titia Herodes.
Ilustração:











“Kinder Ovo (deu birra!)”, essa é típica de menino birrento. kkkk