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Lulu do Canavial e o Milagre de Natal –Parte V

Inhaim?

Não pensava noutra coisa. Só no meu segurança. Liguei pra Lolosa.

“Lolosa, sonhei a noite inteira com o Letsgo”
Lolosa invejosa, a cadela: “Sossega essa pitrica que não é para o seu bico”.
Lolosa anda vendendo pouca roupa da 25 de Março, apareceu uma concorrente na cidade, e ela anda puta da vida. E eu com isso? Cada um com os seus “pobrema”. Hoje é dia de ir para o Besta’s Shoping trabalhar. Acordei no madrugão, mas estava leve como uma pluma de pintinho. O amor está no ar. Peguei o busão, não me incomodei com a azaração e nem com um homem que dividia a poltrona comigo, que pegou no sono e dormiu no meu ombro. Pior que era feio, senão eu tirava uma casquinha.

Comecei a pensar: o doutor tinha falado que na menopausa a pitrica sossega. Esse doutor era cubano e não sabia de nada. Comigo, a menopausa esquentou tudo, como até pé de galinha, não posso ver um pepino no mercado, sonho direto com os “homi” e adoro cheiro de perfume de macho.
Cheguei no “shops” com a minha frasqueira e fui por o suplício da roupa com a cinta modeladora. A feijoada da festa me fez pegar um quilo. Também comi até mudinha de orfanato. Enfiei aquela roupa, abotoei os 5º colchetes e vesti minha insuportável roupa de assistente de Papai Noel.

Fui me encontrar com minhas colegas (a Penélope olho de “vidru” tem inveja de mim.Nem te ligo, bolacha). Abracei o “Plabo” Papai Noel e gritei no ouvido dele: “Gooooooooostou da festa”? Surdo, o “veio”, mais do que uma porta. Não adiantava. Fiz dedão e ele respondeu me mandando enfiar o dedo, olha que absurdo!
Achei o Letsgo Daqui numa das portas. Ele me olhou e piscou. Entrou uma avalanche de criancinhas. Ai, santo dos meninos, ajuda que ninguém cague e que eu tenha que trocar a fralda. E pega menino, põe no colo do Papai Noel e belisca ele para ele rir, foi assim até umas três horas.

Dei uma escapadinha e fui lá no Lestgo.
“Oi”, disse.
E ele: “Oi, gata. Vamos jantar no shopping? Vamos dar um rolê? (vi que faltava um dente assim no final do lábio, mas não tinha o menor problema, um defeitinho todo mundo tem)
Meu coração veio na boca: “Claro”.
Marcamos. Seis horas. Seis horas eu estava lá. Meu marrom bombom. Minha metade da laranja. Meu pão. Meu sonho de “homi”. Ele tinha a voz do Lindomar Castilho, sabe aquela que arrepia até os cabelos do relógio”? Pegou minha mão, tirou a luva e deu um beijo. Que homi era aquele?
Levou-me para jantar na churrascaria “Paleta na Brasa”. Eu pensei: primeiro a carne, depois a brachiola. Letsgo Daqui tinha apelido de Beringela. Estava com uma camisa assim “Tô monstro”. Achei linda. Ele estava com uma calça justa branca, parecendo o Zezé de Camargo, e crocs verde no pé. Tinha um medalhão no pescoço escrito: “çemos do interior mas não somos besta”. Que bom gosto.

O clima começou a esquentar. Mão naquilo. Aquilo na mão. Vi que ele era casado. Pensei: “agora vamos prum motel”. Beringela me chamou pra ir no estacionamento do “shops”.
Fomos. Só para tirar a cinta modeladora era uma novela, mas não ia precisar. Ele explicou que estava mais duro do que pau de tarado e quando recebesse me levaria num motel com direito a banheira e um shops. No estacionamento, ele começou a me agarrar atrás de uma Belina Azul. Disse “não”. “Para de pobreza. Bem ali tem uma “Railuxi””. Foi a minha terceira vez de descabelar o palhaço – as outras duas foram na Universal e em Aparecida. Agora eu entendi porque o apelido dele era “Beringela”…
Liguei pra Lolosa: “Lolosa, compra uma dúzia de Crystal e umas linguiças que hoje “nóis vai bebê até cai”.

Terminei de trabalhar – antes mandei Papai Noel a puta que o pariu – e voltei pra minha cidade. Ô, cidade bonita. Cheia de cachorro na rua, cavalo pastando, uma igrejona, mas eu gostava. As “patroa” queria que eu deixasse tudo limpo.

Cheguei em casa, dei comida pras galinhas e pro ganso, o resto do marmitex pra Nininha e comida pro papagaio que eu tinhga e que só dizia “vai tomar no cu”, mas tava “bão”. O porco tinha comida. Uma vizinha, Ziza do Bim, dava resto de almoço para ele.
A Lolosa chegou. Ia entortar o caneco pra esquecer o Beringela. Vai te catar. O próximo “homi” que eu for dar terá que ser num motel. Tô parecendo galinha: só trepo em pé.. “Eh, lasqueira.

Luciene Garcia

É jornalista e criadora da personagem Lulu do Canavial.

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