Lula, o avalista da eleição na Venezuela

Quando despachou o embaixador Celso Amorim, seu assessor especial. rumo a Caracas, o presidente Lula transformou-se no principal avalista da eleição na Venezuela. Puxou para o próprio colo a responsabilidade de acompanhar, fiscalizar e denunciar as possíveis falhas, impropriedades e, especialmente, qualquer fraude ao processo.
Instalado na embaixada brasileira, após encontrar-se com representantes do governo e da oposição, o preposto presidencial brasileiro acompanhou a votação e. ao final, disse tê-la considerado regular, exortando os dois lados em disputa a aceitar o resultado, independente de quem seja o vencedor.
Depois de ter apoiado o chavismo durante toda a sua trajetória política e governamental, Lula não merecia o tratamento irônico que recebeu do mal-agradecido Nicolás Maduro. Teve a oportunidade de lavar as mãos, a exemplo do que fez a ministra Carmen Lúcia, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que, ao ver criticadas e desmerecidas as urnas brasileiras, cuja guarda é sua tarefa, cancelou a viagem de técnicos que atuariam como observadores. Ao insistir na presença de Amorim, seu fiel escudeiro, Lula assume tacitamente o compromisso fiscalizador. Como maior país e economia do continente, não deve alinhar-se com a situação e nem com a oposição. Mas exigir que o processo seja limpo e de transparência cristalina.
Logo depois do pronunciamento de Amorim, começaram a surgir os problemas e ocorreu a denúncia concreta de que a transmissão dos dados de votação ao centro totalizador foi retardada, de que os fiscais da oposição tiveram o acesso impedido aos boletins de votação e ocorreram pronunciamentos de autoridades governamentais impróprios para o momento. Nicolás Maduro festejou ter “vencido” por 51% dos votos. E o embaixador Celso Amorim, então delegado do Brasil, não voltou à cena. Mas, na entrevista concedida, já havia garantido que o presidente Lula era informado seguidamente sobre o desenvolvimento do processo eleitoral venezuelano.
Espera-se, agora, que – com as informações que deve ter recebido – o presidente se pronuncie e, com a postura de estadista e liderança regional, esclareça o que chegou ao seu conhecimento e se concorda (ou não) com o resultado da eleição divulgado numa apuração secreta onde a oposição – direta interessada no processo – foi impedida de acompanhar e auditar. Se não tomar essa providência, de nada terá valido mover o experiente diplomata e ex-chanceler Ceso Amorim até Caracas. Em vez de ajudar, sua participação poderá se configurar em prejuízo institucional para o presidente, o governo e o Brasil.
Pela posição em que ficou colocado, Lula tem o dever de pugnar pela clareza do processo. Em primeiro lugar, dizer se considera democrática uma apuração secreta e não auditada, como a produzida pela junta eleitoral venezuelana. E exigir que a apuração seja validada só depois de liberada a documentação para fiscais de ambos os lados e auditados os números encontrados nos boletins de urnas e seções eleitorais. Sem isso, a eleição que acaba de ocorrer na Venezuela restará manchada pela mesma lama que já turvou pleitos anteriores naquele país e o pior é que agora ainda lançará parte de sua sujeira sobre a imagem do nosso presidente que, mesmo ofendido e menosprezado pelo filhote de ditador venezuelano, ainda aceitou participar daquilo que pode ser uma farsa continuista de um regime que quebrou o vizinho país e infelicita elevada parcela de seus cidadãos.
Senhor Lula, em nome da respeitabilidade do seu governo e do nosso País, pronuncie-se. Adote a postura de magistrado (mesmo sem ter o poder de decisão), Diga aos brasileiros e ao mundo o que Celso Amorim apurou e, se for o caso, denuncie o ocorrido à comunidade internacional, como já fizeram outros chefes de Estado comprometidos com a volta da Venezuela ao império da democracia, onde só governa aquele que obteve o maior número de votos em eleições livres e transparentes. Para o bem geral, não se omita. Maduro não merece sua consideração e muito menos complacência…







