Colunas

Kíke

Na manhã de sol, num outubro semana das crianças, dois pequenos amigos corriam por uma trilha de terra e grama. Não se atentavam por onde passavam, com os olhos resolutos na colorida pipa que dançava numa queda lenta pelo céu azul.

Desde o momento em que a linha arrebentou, os dois não tinham parado um só instante, saindo do quintal de casa, atalhando pelo córrego e alcançando a lavoura de café. Tinham que capturar a pipa antes que ela alcançasse o rio e se desvanecesse no meio da água.

– Ela ‘tá indo muito rápida, Gulin! – gritou o menor e, todavia, não menos esperto.

– Eu sei! É o vento! – respondeu Gulin passando entre os pés de café. – Não para de correr, Kíke!

E nenhum dos dois parou.

Quando a pipa desceu quase verticalmente para mergulhar no rio, os meninos esbravejaram um ecoante “não”, pedindo para o que pudesse ouvir que os ajudasse. O vento frio que vinha do sul, soprando ali pelo pé da Serra da Canastra, resolveu colaborar com um redemoinho, jogando a pipa para o meio do pasto, onde sua linha se enroscou nos galhos de uma enorme figueira.

Na raiz da árvore, os meninos olhavam incertos para a pipa balançando no alto. O tronco era muito reto e liso, o que os frustrava na pretensão de escalar. Tentaram com um bambu e nada!

– Se a gente voasse que nem passarinho, ia ser fácil – comentou Kíke limpando o suor da testa.

Foi então que Gulin teve uma ideia: buscou um pedaço de lona e barbantes, amarrando nos pulsos e tornozelos de Kíke. O garotinho desconfiou, disse que aquilo não daria certo e por que não era Gulin que tentava?

– É só você subir naquele cupinzeiro, abrir bem os braços e as pernas, e pular mirando pra frente.

Virando o rosto, Kíke balançou discordando, reclamando e preferindo ir embora. Mesmo assim, com muito custo subiu no cupinzeiro e de lá ficou olhando para a pipa. Puxou ar entre os dentes e saltou.

O vento sulista ainda estava nos arredores, inflando a lona e empurrando o menino pelo céu, enquanto bagunçava o cabelo do que tinha ficado no chão.

Kíke voou tão alto que não se aguentava num sorriso. Ele via tudo! O casarão da fazenda, a mata na curva do rio, a vendinha do Bebeleu! Viu até a cachoeira Véu da Noiva! Molhou os dedos nas nuvens e experimentou um bocadinho. Se sentia livre como não sabia explicar.

Deixou Gulin, os cafezais, a fazenda… se agarrou ao vento e com ele viajou para longe. Atravessou mares, viu continentes e cidades do mundo todo.

Já bem moço, cansado de apenas voar e comer nuvens, Kíke procurou repouso em terra. Despediu-se com grossas lágrimas de seu amigo vento, pousou pelas bandas das Três Colinas e por lá ficou…

Lindolfo Junior

Lindolfo Junior é: Escritor? Me chame de rabiscador, pois são linhas de incertezas as que minha mão se presta a colocar no papel… @jhunnyor

19 Comentários

  1. Que texto lindo! A forma como a narrativa nos leva de volta às lembranças de infância e ao sentimento de liberdade é simplesmente inspiradora. Dá para sentir o vento no rosto e a alegria de voar alto junto com o Kíke! Parabéns Junior pela sensibilidade e poesia no diário de um momento tão simples e cheio de significado.

  2. Mesmo o maior prazer e gosto que temos na vida agora, pode se tornar algo que chegará ao seu fim. Nos despedimos, de forma amigável às vezes, mas nos despedimos.
    Excelente texto, meu amigo rabiscador, lindo, triste, e um sentimento nostálgico sem ponto de origem certo.

  3. Um texto que voa alto e toca o coração! 😍 A liberdade de ser criança e a nostalgia de crescer… Lindolfo Junior, você tem um dom para contar histórias que nos fazem sentir vivos! 💫

  4. Que conto sensível e imaginativo! Uma ambientação tão linda e o voo surge de forma natural, nos conduz a um final delicado que fica no nosso coração.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos relacionados

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo