Franca, minha aldeia
Por Vanessa Maranha
Franca, minha aldeia
Vanessa Maranha
O conselho do escritor Leon Tolstói, “canta a tua aldeia e serás universal”, que condensa sentidos de pertencimento e identidade, quando jovem, me soava como um certo reducionismo.
Nossa! Como assim, contestar Tolstói? Ah, o jovem tem uma inquietude, uma arrogância, oposição contra o estabelecido e quer mundo.
Não esquecer que como nação colonizada e espoliada por tantos séculos, nos é quase atávica, enquanto brasileiros, a ideia de que o maior e o melhor está lá fora. Pensando bem, nem só por nações colonizadas.
A Bíblia traz a parábola do Filho-Pródigo; a Odisseia, de Homero; a Caverna de Platão; o conceito entrópico do “eterno retorno do mesmo”, em Nietzsche, para citar apenas alguns dos constituintes do pensamento Ocidental mostram como sempre ocorreu esse movimento dinâmico de fuga (da) e volta às origens.
Comigo também assim. Só na maturidade a máxima de Tolstói se traduziu em significado corporeificado em mim, na percepção de que a minha aldeia, por onde quer que eu caminhe, o que quer que eu escreva, o que quer que faça, ainda que não nominalmente, está toda no que sou.
Já morei em locais remotos, muito longe daqui, acima da linha do Equador, inclusive.
Já viajei para vários países circundando essa Terra redonda; sou essencialmente viajante, expedicionária mesmo, mas, na medida em que o tempo passa, mais e mais me encanto por essa cidade, suas largas avenidas, seu centro, sua atmosfera, clima, gentes, comidas, suas árvores, sua beleza.
Precisei sair daqui para aqui querer estar. Precisei ver Franca de longe e comparativamente, para aprender a amá-la.
Como ficar longe dos amigos de tantos anos? Como não ter perto o frescor dos pães e quitutes do Pão Nosso? Como não pedir um delivery caprichado no Azul? Como não estar, pelo menos uma vez ao mês, no Gasparini e na Chaminé?
Como não acompanhar os movimentos sempre fecundos do Laboratório das Artes, a produção textual de Sonia Machiavelli, Luiz Cruz, Baltazar Gonçalves, Perpétua Amorim, Lígia Freitas, Adriana Mendonça e tanta gente que escreve bem nessa terra?
Nazir Bittar, Diego Figueiredo, os irmãos Ronaldo e Marcos Sabino, o Quarteto Enredado, gente fazendo música da melhor cepa aqui.
Tudo flores? Não. Franca precisa de mais cuidado nas áreas da Cultura, Educação, Lazer, Saúde, Social, Ambiental entre outras.
Mas é, hoje, finalmente, o meu ponto de contato com o mundo.
Daqui saio para sempre voltar.
Parabéns, linda cidade, pelos seus 200 anos!
Esse texto faz parte da série "O que elas têm a dizer" em que escritoras de Franca homenageiam a cidade pelos 200 anos, comemorados no próximo dia 28 de novembro. Será um texto por dia, até o final do mês, de crônica, conto, ensaio, poesia… escrito por mulheres. Se você também quiser participar, envie seu texto para [email protected] indicando no assunto: texto para homenagear Franca. Ficaremos felizes com todas participações. Soraia Veloso, escritora e francana de coração, é a idealizadora do projeto.








