Espinho

A Praça da Juventude era infinitamente grandiosa. Possuía uma ampla entrada se estendendo pelas construções à esquerda, onde cursos, oficinas e demais atividades eram feitas; e percorria um gramado com seu monumento à direita, seguindo pelo pátio, rampas de skate, quadra de areia e…
E era até aí que os olhos curiosos de Espinho alcançavam, já que ele não atrevia a se aproximar, permanecendo próximo às árvores do estacionamento na calçada.
Espinho era um apelido, devido ao corte de cabelo arrepiado e seu tamanho miudinho com seus sete anos muito bem comemorados. Assistia desenhos, ia à escola e depois passava horas e horas tentando reproduzir o que vira na televisão. Numa folha em branco, pegava alguns lápis, canetas, canetinha e rabiscava as aventuras que seus heróis viviam, lutavam e venciam; raramente uma derrota. Quem olhasse a folha, não entenderia as linhas incompreensivelmente sem direção, tamanho ou curvatura.
Apenas ouviam sons.
Todo e qualquer som que Espinho imaginava, reverberava em um simples papel. Uma lufada de vento ou grandes explosões e trovoadas; tambores, vozes, uma orquestra! Cores e sons se misturavam, torciam, se agitavam nas linhas de Espinho.
Numa manhãzinha sem aula, enquanto desenhava sua imprevisível sonoplastia, Espinho ouviu uma algazarra distante. Largou lápis e papel sobre o sofá, passou escondido pela mãe e, engolindo saliva, abriu o portão da garagem e ganhou a rua.
Seguiu os risos, a gritaria e rapidinho chegou na esquina. Olhando para os dois lados, atravessou a rua e tam tam! Alcançou o estacionamento da Praça da Juventude.
Ele viu uma enorme quantidade de crianças de todos os tamanhos e idade, o que lhe deixou acanhado, correndo atrás da proteção de uma árvore.
– Você está brincando de esconde-esconde? – perguntou uma menina de laço florido nos cabelos cacheados, sorrindo às costas de Espinho.
Levando um susto muito grande, ele abafou o grito que queria vir, com receio de chamar a atenção de todos. Virou, olhando para a menina, um pouquinho mais alta que ele e respondeu que não, que só estava…
– Estava o quê? – ela questionou colocando as mãos na cintura.
Ele gaguejou, gaguejou e nada saiu. A menina, achando graça, segurou uma das mãos de Espinho e o arrastou pelo estacionamento até adentrarem a praça.
– Viu? Todo mundo aqui ‘tá brincando. Você não tem que ficar escondido que nem tatu – ela riu e deu um tapinha na testa de Espinho. – ‘Tá com você! Vem me pegar!
Naquela tarde, quando já estava em casa e depois de levar bronca de sua preocupada mãe, Espinho desenhou um coração atrás de uma árvore.
Ele ouviu as folhas balançando
Ele ouviu os galhos rangendo
e ele ouviu o coração batendo…









É bonito demais ver como a infância aparece aqui sem filtros, cheia de imaginação, liberdade e sentimento. O Espinho não é só um personagem, é quase um espelho de memórias que muita gente carrega sem perceber. A escrita é leve, mas toca fundo, porque fala de coisas simples que marcam a gente pra vida inteira. Texto que acolhe, faz sorrir e pensar. Daqueles que a gente termina e fica com o coração quentinho.
Eu adorei, a primeira amizade feita do nada a gente nunca esquece, amo ler seus textos na semana aquece meu coração 💓
O destaque para mim foi o desfecho a ideia de ouvir o coração batendo capturou perfeitamente a pureza do sentimento dele. Adorei!
Muito bom a história sendo contada de forma tão leve.
Muito lindo, me deixou com o coração quentinho de felicidade 😻
Que história leve, porém incrivel. Cheio de “Espinhos” adultos por aí só esperando alguém segurar na mão pra conhecer coisas novas mas impedidas pelo medo inexplicável.
Que texto lindo, de verdade. Ele tem uma delicadeza que vai entrando devagar, quase sem pedir licença, e quando a gente percebe já tá com o coração apertadinho. O Espinho é desses personagens que ficam ecoando depois da leitura, não pelo que ele diz, mas pelo que sente. Essa mistura de som, desenho e infância é muito sensorial, dá pra ouvir o texto enquanto lê. E o final simples, silencioso, mas absurdamente potente. Parece que a história respira ali, junto com ele, atrás da árvore. É o tipo de escrita que não grita, mas marca🖤
Definir em uma palavra tudo isso, mas não acho que consigo, talvez em uma frase curta;
Uma vida com pequenos momentos de imaginação amizade simples, vale mais que um milhão.
Realmente esse texto me fez me lembrar tanto de coisas que nem mesmo esqueci, más reacendeu forte na memória.
Maravilhoso texto rabiscado, oh grande rabiscador!
Ao mestre das palavras, Júnior
Existem textos que a gente lê com os olhos, e existem textos — como o seu — que a gente lê com a alma. Sinceramente, ainda estou tentando encontrar as palavras certas para descrever o que senti, porque o que você escreveu foi muito além da literatura; foi uma experiência.
Senti meu coração tremer a cada linha. É raro encontrar alguém que consiga traduzir sentimentos de forma tão pura, a ponto de nos fazer perder o fôlego e, logo em seguida, nos inundar com lágrimas de pura felicidade. Seu texto não foi apenas lido, foi sentido em cada batida do meu peito.
Obrigado, Júnior, por ser esse “rabiscador” de emoções. Você tem a habilidade rara de transformar letras em abraços e frases em cura. O mundo precisa de mais rabiscos como os seus, que trazem luz e fazem a gente lembrar como é bom sentir a vida com essa intensidade.
Minha eterna gratidão pelo presente que foi essa leitura. Continue escrevendo, porque sua arte faz o mundo (e o meu coração) muito mais bonito.
Bela história!
Que história fofa! Quando criança é tão fácil conversarmos uns com os outros, nos entendermos e fazermos amizades, independente de nossas diferenças… Porque será que perdemos isso ao crescer?
Gostei em junin concordo com tudo que ta ai[
Simplesmente genial