Com a palavra, o presidente da Academia Francana de Letras: José Lourenço Alves
“As funções primordiais de uma academia como a Academia Francana de Letras (AFL) são: preservar a memória e as obras da literatura local, desenvolver atividades de incentivo à leitura e de valorização da cultura literária. Entre as especificidades que podem ser destacadas, no que se refere à realidade de Franca, a academia tem que interagir com todos os segmentos da sociedade e ser referência quando o tema se relacionar à literatura, notadamente a local”, explica José Lourenço Alves, de 57 anos, atual presidente da instituição.

Natural de Botucatu (SP), ele viveu a infância e a juventude em Bebedouro (SP) e veio para Franca como promotor de Justiça do Ministério Público Estadual, cargo que exerceu por 27 anos, como titular em Palmeira d´Oeste e Franca . “Graduei-me em Ciências Jurídicas e Sociais pela UNAERP, em Ribeirão Preto. Cursei especialização em Inteligência de Estado e Segurança Pública na Fundação Escola Superior do Ministério Público de Minas Gerais, mestrado em Desenvolvimento Regional, na Uni-FACEF e doutorado em Promoção de Saúde, na UNIFRAN”, conta ele, sobre sua formação.
Com a meta de revitalizar a AFL, José Lourenço Alves explica que os desafios da sua gestão se resumem “a estimular a interação entre os acadêmicos, e entre esses e a comunidade. A partir de uma interação de qualidade, poderemos avançar na divulgação da literatura francana de todos os tempos, na produção de mais textos e no incentivo aos escritores do futuro.”
Para ele, “necessidade é a palavra que melhor define minha relação com a Literatura. Leio mais por necessidade – necessidade de saber, de saber de mim e do outro, da vida. Leio para alimentar a alma. Ler é minha melhor refeição. E leio muito mais do que escrevo. Mesmo quando escrevo também é a necessidade que dá impulso – necessidade de desabafar, de esmiuçar um sentido ou sentimento, de comunicar uma convicção.
Mais do que autores, tenho livros que me nutrem a alma de um modo especial, pelo texto e pelo contexto. Dois livros que li nos primeiros tempos morando aqui em Franca e me marcaram profundamente foram: Vivalei, de Luiz Cruz de Oliveira, e Quem matou Jacira?, de Thereza Rici. Depois, tive a grata oportunidade de ouvir desses autores algo sobre as intencionalidades e os detalhes das estórias – o que aprofundou a admiração por esses livros e seus autores”.
Nesta entrevista, o leitor aprenderá que a festejada autora Carolina Maria de Jesus, em seu “Diário de Bitita”, cita Franca como itinerário e também, que a AFL começa a implementar o projeto “Passeio Literário”, que dentro da perspectiva da Economia Criativa, visa a contemplar itinerários dos autores locais.
Folha de Franca – Como você chegou à Academia Francana de Letras primeiro como acadêmico e agora como presidente?
José Lourenço Alves- Tinha publicado os livros “Compromisso e realidade”, “Nas entrelinhas” e “Liberdade – uma estória”. Fui convidado pelo acadêmico Carlos Roberto Goulart, o Carogo, e decidi me candidatar. Tomei posse em novembro de 2019, junto com Ibrahim Haddad, Sílvio Marques Garcia e Zelita Verzola. A presidência partiu de um convite da então presidente Perpétua Amorim. Nem pensei para aceitar o convite, acho que movido por um senso de dever e gratidão para com a AFL. Minha chapa foi a única na disputa e fomos eleitos por aclamação. Tomamos posse em fevereiro de 2021 e somos a 12ª Diretoria, sendo vice-presidente Sílvio Marques Garcia, secretária Cirlene de Pádua, secretário-adjunto José Carlos Vaz, tesoureiro José Borges da Silva, tesoureiro-adjunto Carlos Roberto Goulart, diretora de patrimônio Ivani Marchesi e diretor de protocolo Walter Peres Chimello.
Folha de Franca – Conte rapidamente a história da AFL.
José Lourenço Alves – As funções primordiais de uma academia como a AFL são: preservar a memória e as obras da literatura local, desenvolver atividades de incentivo à leitura e de valorização da cultura literária.
O trecho inicial da ata de fundação conta o essencial: “Às 20 horas de 17 de dezembro de 1996, na Biblioteca Central da Universidade de Franca, situada em seu campus à Avenida Armando Salles Oliveira, nº 201, ocorreu o ato solene de fundação da Academia Francana de Letras. Após a mesa composta por autoridades locais, escritores e os acadêmicos Lygia Fagundes Telles e Adelino Brandão, usou da palavra o professor e proponente da Academia: Everton de Paula. Expôs sobre os objetivos fundamentais desta casa de cultura, salientando quanto ao resgate da mentalidade artística de Franca, consagração dos escritores contemporâneos e promoção de eventos culturais no sentido de propagar o gosto pela leitura e o desenvolvimento de condições para a criatividade literária.” De lá para cá, quanto mais verificamos o que tem sido a história da AFL nesses 25 anos, mais evidente fica a preocupação das Diretorias anteriores em superar as dificuldades (que são imensas) para bem cumprir aqueles objetivos fundamentais.
Folha de Franca – Quais são os projetos e desafios para a sua gestão?
José Lourenço Alves – Assumimos com o lema Integração passado-presente-futuro, propondo: 1. regularizar a situação jurídica da AFL; 2. alterar o estatuto: a) para adequa-lo ao novo Código Civil; b) para nomear patronos vinculados a Franca; 3. realizar reuniões literárias: a) de memória acadêmica; b) de autoria e estilo; 4. realizar concurso literário; e 5. abrir inscrição para ocupação das cadeiras vagas.
A situação jurídica já foi regularizada e o estatuto, alterado. Temos realizado reuniões literárias à distância e abrimos inscrição para a ocupação de três cadeiras.
Estamos na fase de impressão de uma coletânea em comemoração aos 25 anos da AFL, intitulada Prosaversando. Estamos montando a página da AFL na internet. Criamos o canal Academia Francana de Letras no Youtube, onde estão disponíveis os vídeos que produzimos até agora (apresentações, reuniões literárias, reuniões acadêmicas e entrevistas – um material precioso sobre a memória da nossa literatura, seus personagens e personalidades).
Os desafios da nossa gestão se resumem a estimular a interação entre os acadêmicos, e entre esses e a comunidade. A partir de uma interação de qualidade, poderemos avançar na divulgação da literatura francana de todos os tempos, na produção de mais textos e no incentivo aos escritores do futuro.
Folha de Franca – A biografia de Carolina Maria de Jesus aponta passagem da escritora por Franca. Fale sobre isso e sobre o projeto Passeio Literário, que deverá contemplar também este itinerário.
A passagem de Carolina por aqui é um valioso patrimônio histórico e cultural da cidade. Entre idas e vindas, Carolina morou cerca de seis anos por aqui, de 1931 e janeiro de 1937. Um bom tanto do que viu e sentiu ela narra no livro Diário de Bitita, mas há muito ainda por ser descoberto – um prato cheio para pesquisadores, historiadores. Aliás, no evento “Bitita em Franca”, promovido pela AFL, a filha dela, Vera Eunice, comentou que há textos inéditos em que Carolina narra mais detalhes sobre essa fase de sua vida.
Sobre o Passeio Literário, muito me alegra informar que o inauguramos na manhã de domingo, 24 de outubro de 2021. Foi ótimo. Saímos do Obelisco da Praça Barão e fomos até a Praça do Cemitério. Pelo caminho, fomos parando para viver e reviver a biografia e as obras de grandes nomes da literatura francana, como Josaphat Guimarães França, Antonio Constantino, Carolina Maria de Jesus, Carlos de Assumpção, Abdias Nascimento e Ygino Rodrigues.

Folha de Franca – A perspectiva agora é a de patronos francanos para as cadeiras?
José Lourenço Alves – A AFL inseriu em seu estatuto a possibilidade de renomear cadeiras para homenagear escritores que nasceram ou residiram aqui, ou que fizeram significativa referência à cidade em sua obra. Em assembleia realizada na noite de 26 de outubro de 2021, foram aprovados novos patronos com base nessa alteração. Carolina Maria de Jesus é a patronesse da cadeira 7; Abdias Nascimento, o patrono da cadeira 9; Alfredo Palerno, o da cadeira 18. Josaphat Guimarães França é o patrono da cadeira 36 e João Alves Pereira Penha, o da cadeira 37.
Folha de Franca -Você ocupa a cadeira Antonio Constantino. O que tem aprendido sobre este autor?
José Lourenço Alves – Sim, com muita honra. Antonio Constantino é o patrono da cadeira 5. Além de jornalista e advogado, foi um grande poeta e romancista ligado ao movimento modernista. Engajou-se na Revolução Constitucionalista e, posteriormente, transferiu residência para a Capital, onde exerceu o cargo de diretor da biblioteca da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, além de seguir na escrita para jornais como o Estado de S. Paulo.
Entre tantos aprendizados dessa interação com a obra e biografia dele, gostaria de destacar a particularidade de sua adesão ao movimento modernista. Ele estabeleceu uma brasilidade regional em sua obra, encontrando lirismo em coisas e situações até então inusitadas, como cupinzeiros e um mourão abandonado. A proposta modernista era mesmo romper com a então tradicional visão europoética e Constantino se destacou por ter encontrado uma vertente interiorana e de beleza ímpar. O aprendizado é, portanto, sobre entender a diferença entre ver e enxergar, traduzir a complexidade simplesmente, sem se apartar do lado bom que sempre há.
Folha de Franca – Como retirar o estigma, o estereótipo no senso comum de que academias sejam elitistas e passadistas?
José Lourenço Alves – Mostrando a importância dos autores e das obras do passado para nós que vivemos o presente e queremos fazer isso de modo intenso, verdadeiro. Também é preciso interagir com a comunidade, nos bairros, nas escolas; mostrar que, sim, letras passadas movem moinhos, ou seja, movem a alma dos leitores e a alma dos escritores, num belo círculo virtuoso.
Folha de Franca -Fale sobre a autoria francana.
José Lourenço Alves – Poetas, contistas, cronistas, romancistas, ensaístas… Franca tem autores de valor em toda e qualquer forma de manifestação literária. E é importante destacar que tem, também, uma profusão de temas e fatos inspiradores em sua longa história e no seu cotidiano. No passado e no presente, homens, mulheres e até adolescentes têm publicado textos expressivos, de qualidade. A Literatura, entre nós, é árvore frondosa, de raiz profunda. Honra-me a oportunidade de cooperar para que essa árvore siga revelando bons frutos.








