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Caju

Vinho cresceu com ferocidade, agarrando o mundo pelo cangote e logo se tornando uma mulher de muita opinião, pouca paciência aos desaforos, porém exacerbado amor e carinho, sobremaneira para os quatro filhos que teve.

Cada qual em seu quadrado, a caçulinha era a mais ligada no 220. Seu comprido nome, Cativante Filha de Júpiter, foi por ela arredondado para Caju.

– Pra quê um nome tão grande e estranho? – costumava questionar.

Se o apelido era curtinho, a serelepice se fazia como o nome completo. Caju parecia que nunca se cansava, desde o amanhecer até a noitinha antes de dormir. Certa vez aprendera a plantar bananeira e então, se Vinho não ralhasse, ficava de ponta cabeça todo tempo! E como sua curiosidade também se alongava para muito além das Três Colinas, todo dia era dia de novidade, não importando o que fosse… com exceção de matemática que, sem vergonha nenhuma, admitia a nota 3.

– Mas olha esse 10 em português, mãe! – escandalisava, esfregando a nota na cara dos outros irmãos.

Entretanto, algo barrava Caju de uma forma que ela se retraia toda e, mesmo com seus nove anos, procurava o colo de Vinho, sendo um sacrifício a acalmar: aranhas.

Quando surgia uma criaturinha de oito patas, a menina desligava os 220, perdia o fôlego, cor, até lacrimejava os olhos.

E foi por acaso que Vinho, caminhado perto de casa na rua Gerônimo Gonçalves da Silva, encontrou uma solução inesperada.

Coisa de mais de década atrás, a criação de mini capivaras teve um bum vertiginoso e parecia que toda residência necessitava ter uma. Pequeninas, carinhosas e fácil de cuidar, chegaram até Franca nos pet shops e se espalharam pela região. Numa dessas, houve uma fuga em massa e, por um bom tempo, eram vistas soltas pela cidade. E bem no bairro Parati, Vinho viu quando uma mini capivara fazia o possível para alcançar uma aranha dependurada no muro vizinho.

Levou para casa, procurou dono e por fim ficaram com a danadinha exterminadora de aracnídeos.

Caju e Atenas, pois esse fora o nome escolhido pela menina, criaram um vínculo quase impossível de as separar. Até para a escola a minizinha cismava em acompanhar a filha de Vinho.

Onde uma estava, a outra ia atrás. Ou quase, pois Atenas era tão rápida quanto um coelho e quando saíam para passear, ela sumia ao alcance da menina.

A própria Caju resolveu a situação, claro que precisou de Vinho financeiramente falando. E, depois de uma semana do pedido feito pela internet, os patins chegaram. Pois é… vieram tombos dentro de casa, na rua, no parque. Era difícil se manter de pé; mas quem disse que Caju desistiu?

Vários hematomas e machucados depois, Atenas disparava pela calçada, eufórica com Caju lhe alcançando rapidamente.

Vinho, sentada na sombra de uma árvore, observava com um aperto no coração, um orgulho de mãe, de ver sua menininha crescendo, indo, subindo.

“Até onde ela irá?”

Lindolfo Junior

Lindolfo Junior é: Escritor? Me chame de rabiscador, pois são linhas de incertezas as que minha mão se presta a colocar no papel… @jhunnyor

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