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Bibliotecas

Meu interesse por bibliotecas e livros é antigo. Desde que aprendi a ler e escrever, me atraiam as histórias sobre a biblioteca da Alexandria que teria sido destruída por um incêndio (na verdade, não foi exatamente isso que aconteceu, mas essa é outra história), o índex librorum prohibitorium da Igreja católica, uma lista de livros proibidos considerados heréticos para a religião, a queima em praça pública de livros condenados pelos nazistas na Alemanha, a censura aos livros em tantas ditaduras a esquerda e direita, inclusive durante a ditadura militar brasileira. A recente derrota da extrema direita no Brasil afastou, ao menos por um tempo, a ameaça desses tempos sombrios voltarem.

Tirando as bibliotecas de clubes da cidade (como da AEC que foi destruída junto com sua sede modernista) e das escolas que estudei, a primeira biblioteca pública que conheci na Franca do Imperador foi em 1974, funcionava no prédio da própria Prefeitura no alto da Cidade Nova em espaço que seria um centro cultural previsto pelo projeto original de arquitetura do Paço Municipal e que não prosperou para ser ocupado pela burocracia administrativa.

Criada por lei na gestão do prefeito Abílio Nogueira em 1959, a biblioteca municipal funcionou por poucos anos desde sua efetiva instalação ocorrida somente em 1967 no prédio da Faculdade de Ciências Econômicas (no antigo sanatório Santana) e transferida para o Paço Municipal em 1972. No final dos anos 1970, com a cessão pelo Estado do prédio do antigo Colégio Champagnat à Prefeitura, a biblioteca municipal “Dr. Américo Maciel de Castro Jr.” foi transferida para os salões que antes abrigavam os dormitórios dos alunos e depois, já no início deste século, foi para um dos blocos isolados do Colégio que era uma espécie de pátio e quadra coberta, onde está até hoje. Conta com 60 mil títulos catalogados que podem ser consultados pela internet, cujo crescimento anual tem sido pequeno (1,5 mil novos livros para um mercado editorial que costuma colocar 45 mil novos títulos anualmente), basta lembrar que a biblioteca de Araraquara, cidade bem menor que Franca, tem 103 mil volumes. A Biblioteca Mário de Andrade na capital tem 3 milhões.

É um prédio grande o suficiente para abrigar o acervo atual, tem espaço para leitura, palestras, exposições temáticas, gibiteca, brinquedoteca e outras atividades culturais, porém sua arquitetura é bem deficiente. O prédio sofre com infiltrações e sua estética é tão rasa quanto a do prefeito Sidnei Rocha que ordenou a reforma, no fundo um barracão improvisado sem levar em conta o que uma boa arquitetura poderia acrescentar à sua frequência e uso. O abandono do Champagnat pela administração municipal nos últimos anos que o levaram à ruína também é um fator que pode interferir negativamente na atração de leitores e no acesso ao local.

Além disso, a prioridade da Secretaria de Esportes e Cultura no governo Alexandre Ferreira tem sido claramente o esporte e não a cultura, onde faltam funcionários, são escassos os recursos para custeio e investimentos em programas próprios que poderiam ampliar o acesso ao livro e à cultura.

Nos anos 1990 foi criada uma sucursal da biblioteca no bairro da Estação (“Prof. Olegário Maciel”), abrigada em parte da antiga estação ferroviária, com 19 mil títulos catalogados. Mudou de lugar dentro do edifício algumas vezes, na última e recente reforma teve seu espaço para acervo ampliado e mobiliário modernizado. Há anos a Prefeitura ensaia abrir uma terceira biblioteca no Parque Vicente Leporace junto ao Centro de Artes e Esportes Unificados – CEU “Júlio Biondi”, mas até hoje ainda não está funcionando. A boa notícia é que parece estar próximo de abrir ao público.

A criação de espaços públicos de leitura é fundamental para o acesso ao livro e à cultura, porém precisa estar atrelado a outras iniciativas do poder público em parceria com a sociedade civil: a criação de clubes de leitura nos bairros, uma agenda permanente de ações ligadas ao livro e à leitura como palestras de autores e debates sobre temas candentes do momento, oficinas regulares de escrita e leitura, enfim, construir uma agenda permanente e consistente de forma a atrair novos e velhos leitores, sem contar as possibilidades inovadoras com equipamentos digitais e tablets que facilitem o acesso a audiolivros e outras experiências.

Por conta do meu interesse pessoal em arquitetura e em literatura, procuro conhecer bibliotecas sempre que viajo. Desde as bibliotecas antigas como o excepcional Gabinete Real de Leitura no Rio de Janeiro passando pela Biblioteca Nacional, a maravilhosa biblioteca “Virgílio Barco” projetada pelo arquiteto Rogelio Salmona em Bogotá à Biblioteca Parque também no Rio de Janeiro (projeto de Glauco Campello) e em São Paulo, como a que foi instalada no antigo terreno do Carandiru (Parque da Juventude), projeto de Aflalo & Gasperini e a reforma da Biblioteca Mário de Andrade no centro da capital, projeto original de Jacques Pillon reformada pelo escritório Piratininga (espero viver até ficar pronta a Biblioteca dos Saberes de Francis Keré no Rio), penso como essencial a necessidade de ampliar os espaços destinados à leitura e à cultura nesse mundo cada vez mais violento e surreal. Adianto ainda que provavelmente nunca visitarei a biblioteca de Viipuri na Finlândia, espécie de Meca para os arquitetos que admiram, como eu, o trabalho do arquiteto Alvar Aalto.

O acesso ao esporte em Franca é facilitado pelas centenas de equipamentos públicos existentes em centros esportivos e quadras pela cidade toda, praticamente não há bairro sem um lugar construído pelo poder público municipal para a prática desportiva. Pode-se criticar sua manutenção insuficiente, mas eles existem. Porém, os equipamentos de cultura são totalmente neglicenciados pela Prefeitura. Regiões como do Parque Leporace, da Vila São Sebastião ou do Jardim Aeroporto, tão populosas quanto as pequenas cidades que nos rodeiam, não possuem nenhum equipamento público destinado exclusivamente à cultura, como bibliotecas, teatros ou museus. Nos últimos quatro anos, a Prefeitura tem investido 2 a 3 milhões por ano do orçamento municipal em novos centros de esporte e lazer (CEPEL) e outros tantos milhões em reformas nos equipamentos existentes por toda a cidade, mas não há perspectiva de construção de novas edificações, equipamentos ou instituições culturais nos bairros, apenas pequenas reformas nos prédios existentes para evitar que desabem, medidas em geral só tomadas após pressão do Ministério Público ou do judiciário. Ou seja, qualquer cidadão encontrará próximo a sua moradia onde praticar esportes de forma gratuita, mas ter acesso à cultura somente será possível viajando para a região central da cidade.

As pequenas bibliotecas de livros infantis disponíveis nas escolas dessas regiões que concentram grande parte da população da cidade de menor renda e em situação de vulnerabilidade se restringem ao atendimento do público escolar. Jovens, adultos e idosos seguem sem atendimento pela inexistência de qualquer política pública de acesso à leitura, a não ser de iniciativas esporádicas da sociedade civil, como da bela biblioteca infantil criada no Jardim Aeroporto (Casa Crescer) por iniciativa de uma estudante brasileira que vive em Dubai e mantida por uma ONG. Não deveria ser tão difícil assim ampliar as estruturas e programas culturais para uma Prefeitura de porte médio como a de Franca e cujo vice-prefeito é um professor de letras e autor de livros. De qualquer modo, por motivos inexplicáveis, a cultura e os livros não fazem parte do universo de prioridades do prefeito, do vice e de sua majoritária bancada de vereadores na Câmara Municipal.

Mauro Ferreira

É arquiteto e urbanista.

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