Colunas

O recepcionista

Havia um edifício no bairro São José. Nos anos 20 do terceiro milênio ele era considerado novo em folha. Sua fachada, vestida em pétalas de papoula, elegantemente abria as portas logo após uma escadaria, com rampas de acesso e um jardim suspenso. Diversificado em serviços entre suas grossas paredes, logo ganhou uma boa reputação.

Por um período não registrado ou sem importância para a grande História, Escudeiro trabalhara no tal edifício como recepcionista. Morando perto, era comodamente econômica a locomoção até o trabalho; e mesmo assim se atrasando quando não havia arco-íris para percorrer. Detalhes.

Eram quatro recepcionistas, alinhadinhos defronte ao balcão no hall de entrada. A pessoa que passava pela porta principal, poderia escolher quem o atenderia. Sendo Escudeiro o que sentava na ponta destra, o mais próximo à saída, era bem visado e, obviamente, requisitado no atendimento. Sorria e seja gentil.

Tanto Pavel, Benevolente e Grahambell, os demais recepcionistas, emendavam cortesias aos, generalizando, ansiosos pacientes. Era “bom dia, no que posso ajudar?”, cadastro com CPF, fotografia e a sala da consulta. Rotinas de ir e vir, segunda à sexta, pulando feriado. Nessa época, quem regia a orquestra era Baluarte, irmã de Reluzente.

Pois muito bem; cafezinho da manhã na copa, pão, manteiga e vamos ao expediente com os computadores grudados no rosto. Quinta-feira de estresse, vento assobiando nas altercações entre Benevolente e Pavel, de subir a voz e ir até a gerência.

– Vou ter que separar vocês – resolveu Baluarte após ouvir a versão de cada um e ponderar. – Pavel vai lá para o canto, no lugar da Grahambell. Benevolente do outro lado, trocando com Escudeiro.

Murmúrios e reclamações, muda lugar, cadeira e até computador. Pronto? Provavelmente.

Assim que Escudeiro se ateve ao novo espaço, sentiu que não era apenas diferente, mas com uma estranha ligação ao seu âmago. Suava frio, arrepios ocasionais e até pensou que poderia estar doente.

Veio o dia 31 do antepenúltimo mês do ano. O garoto que corria pelo arco-íris acordou com uma terrível percepção para aquele dia. Sem atrasos, caminhou devagar até o edifício para iniciar seu trabalho. Trocou de roupa no vestiário, uma grande xícara-de-chá quase entornando café, garrafa d’água e… ao sentar para a lida, sua mente desvaneceu por instantes. Viu-se numa penumbra, afogando em um sombrio lago. De olhos injetados, retrocedeu à recepção com um exigente e mal-humorado paciente exigindo velocidade, pois estava atrasado.

– No que posso ajudar, senhor? – a frase se formou automaticamente na boca de Escudeiro.

O paciente, ironia do termo para quem sofre de paciência ausente, elevou a voz, quase berrando ao alegar que não repetiria a um preguiçoso e incompetente funcionário.

– Eu gostaria que você falasse bem mais baixo – respondeu o recepcionista monocórdico.

Gesticulando escandalosamente, os dentes à mostra em gritos que… escaparam aos sussurros quase inaudíveis. O paciente se assustou ao perder a voz. Olhou ao lado em busca de ajuda: sem chances, cada qual com seu problema. Aterrorizado, deixou o prédio correndo, se esquecendo do carro no estacionamento.

Escudeiro não teve tempo de pensar sobre, já que uma mulher, também visivelmente de ovo virado, jogou sua bolsa sobre o balcão, mascando chiclete e exigindo saber se fulano atendia naquela biboca.

Para que apenas a mulher ouvisse, Escudeiro exclamou:

– Moça, vá se consultar no inferno.

Em um rápido clarão, chamas consumiram a mulher, não sobrando nada.

Novamente sentindo o escuro lago ao seu redor, Escudeiro desmaiou, acordando dois dias depois em seu apartamento.

As câmeras gravaram o desaparecimento da mulher. Inquéritos, investigações. Não houve explicações plausíveis e acusações cabíveis a Escudeiro. Teorizaram, por influência dos jornais, combustão espontânea. E nos dias correntes, nada mais ocorrera.

Bem, quem sabe no próximo ano?

Lindolfo Junior

Lindolfo Junior é: Escritor? Me chame de rabiscador, pois são linhas de incertezas as que minha mão se presta a colocar no papel… @jhunnyor

3 Comentários

  1. É o lembrete: jamais provoque Escudeiro em um dia sem Arco-Íris depois de uma noite mal dormida por causa de um Kowalski bagunceiro e uma Cherrie e uma Veridiana desaparecidas pra uma noite de farra Na rua dos gatos.

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