Assim, chegamos a Franca!

Por Rosana Branquinho
O ano era 1970.
Em cima de um caminhão Ford, além de alguns poucos móveis e utensílios domésticos, estavam meu pai, eu, minha irmã Marlúcia e meu irmão Cizo. Na cabine com o motorista, mamãe e duas irmãs menores, a Mariângela e a Bia.
Deixávamos para trás, em Igaçaba – distrito de Pedregulho, parte da nossa história. Dali em diante, começaríamos “vida nova” na Vila São Sebastião, em Franca. Era o que papai dizia e emendava animado, que era uma casa bonita e que tinha até telefone! Ele trazia uma quantia em dinheiro que apurou com a venda do último bem material da família: um sítio, herança dos meus avós e que fora vendido para uma prima. Me lembro que minha mãe não queria assinar o contrato de venda e só concordou depois de muita insistência e insultos de meu pai, que dizia que a herança era dele.
O pagamento incluía uma parcela em dinheiro, porcos, uma máquina de costura Elgin e alguns outros objetos de pouco valor. Não deu para comprar sequer uma casa. Morávamos de aluguel. Com parte do dinheiro, papai montou um bar no cômodo comercial anexo a casa, na esquina.
O bairro era afastado e tinha fama de ser lugar perigoso, mas papai logo tratou de fazer amizade com os homens mais temidos da cidade. Eram frequentadores do bar. Muitos eram ex-presidiários, considerados os “bandidos ” da época. O mais famoso era o Pezão. Uma busca nos jornais da época vai indicar o grau de periculosidade do meliante. Tinha o rosto todo marcado por cicatrizes de faca. Meu pai, que era homem bonachão, carismático, dizia que eles não nos fariam mal, enquanto cultivasse a confiança deles.
Eu ia para a escola de manhã e à tarde costurava sapato na casa de uma vizinha. Usava uma “dedeira” para ajudar a grossa agulha a encontrar o furo. Ficava a tarde toda nesse exercício para receber alguns trocados.
Nossa estadia na vila São Sebastião durou 8 meses. O dinheiro acabou e nos mudamos para a Avenida Brasil, depois para a Rua São Paulo, Rua Maranhão, Avenida Alagoas e por último na Rua Goiás. O atraso no pagamento dos aluguéis era o motivo para a busca por novo endereço. Papai não era bom com dinheiro e vivia dando “cabeçadas”.
A cada mudança, troca de escola. Nós não tínhamos tempo de construir relações duradouras. Foi morando na Rua São Paulo que estreei na Rádio Difusora aos catorze anos, como Discotecária, sem ao menos saber o que era. Mamãe ouvira o Verzola anunciar a vaga e me levou para fazer o “teste”. Foi assim que eu entrei para o universo do rádio, paixão da minha mãe que tinha o sonho de ser cantora do rádio, como Emilinha Borba, Carmen Miranda, Elizeth Cardoso e outras.
Menina ainda, assustada e ingênua, comecei a trabalhar e só depois de muito tempo me dei conta que tinha o privilégio de estar entre os grandes nomes da comunicação francana, como Valdes Rodrigues, Ewerton Lima, Paulo Roberto Verzola, Renato Valim, Jovassi Correia Dias, Carlos Gregorucci, entre outros famosos admirados pelo público.
Mamãe não cabia em si quando Verzola iniciava o seu programa dizendo: – na Discoteca, Rosana Branquinho! Fiquei bastante conhecida e meus pais se gabavam orgulhosos da filha que trabalhava na Rádio.
Cheguei a ter um programa – “Embalos de sábado à noite”, inspirado no filme estrelado por Olivia Newton John e John Travolta. Fui picada pelo “bichinho da comunicação”, como diziam, e desde então, atuei em diversos veículos até ter o meu programa de televisão ” Turismo e Cia”, no qual apresentava as opções de lazer e hospedagem da região por mais de 15 anos.
Hoje, eu trago Na Bagagem, muita gratidão pela cidade que nos acolheu. Meus filhos e netos são francanos, e embora eu tenha nascido em Pedregulho, tenho Franca como a cidade do meu coração!
Feliz 200 anos Franca!
Rosana Branquinho é jornalista, turismóloga e mestra em desenvolvimento regional
Esse texto faz parte da série "O que elas têm a dizer" em que escritoras de Franca homenageiam a cidade pelos 200 anos, comemorados no próximo dia 28 de novembro. Será um texto por dia, até o final do mês, de crônica, conto, ensaio, poesia… escrito por mulheres. Se você também quiser participar, envie seu texto para [email protected] indicando no assunto: texto para homenagear Franca. Ficaremos felizes com todas participações. Soraia Veloso, escritora e francana de coração, é a idealizadora do projeto.









Que história legal, Ro. Amei conhecer mais um pouquinho da sua vida aqui na Franca, que você ama e que ama você.