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Agonia

Atrás daquele pano branco há um corpo a mais de quarenta e oito horas, sussurra Isabel na maca ao lado. O coitado gritava em alto e bom tom que até o presidente poderia ouvir. Mas, ninguém veio. Novidade seria se ouvisse, ou ainda fizesse algo. Aliás, esse “messias” não é profeta, tampouco salvador do povo.

Pobre pode apenas sonhar. Sonha em viver em um castelo de janelas largas, jardim grande cheio de flores para apreciar ao caminhar, porém ao acordar o que se vê são paredes por acabar sem reboco, panelas vazias e vontade de comer qualquer coisa. Saúde, educação e segurança para quem?
Palavras vazias são lançadas ao vento, trata-se dos dizeres miúdos daqueles homens públicos de dois mil e vinte. Meu pai os ensinaria a ter vergonha de mentir. Até parece que estão é esperando a nossa morte. Deus nos livre, reza Cecília com sinal da cruz. Nessa hora, acho que pobre não nasceu para ter direito. Veja aquele coitado amontoado dentro do saco preto, até agora ali esperando sabe-se lá o que. Pela misericórdia, vai começar a feder, adverte Isabel.

Entra um homem de branco, disse que gritava por socorro, mas não obteve retorno. A morte veio e o levou. Entoou: relutei tentando viver, mas faltou ar. Foi horrível. Diga a eles que eu gostaria de um epitáfio. Apenas isso. Pois, já sei que quem me velará será o santo coveiro. Que Deus as protejam, porque o “messias” de dois mil e vinte é fajuto.

Dione Castro

É administrador de empresa, estudante de gestão empresarial pela Fatec, graduado em direito e um eterno curioso.

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