A importância do autoconhecimento para as crianças
Assunto corriqueiro em treinamentos organizacionais e em psicoterapias das mais diversas abordagens, o autoconhecimento é um tema de importância não só para os adultos, mas para adolescentes e crianças também. Conhecer e compreender a si mesmo é necessário em todas as fases da vida, mesmo que a amplitude disso varie consideravelmente de acordo com a faixa etária.
Se considerarmos a complexidade dos tempos atuais, onde a internet e as redes sociais afrouxaram as barreiras da distância e até da privacidade, veremos a importância de facilitarmos que a criança desenvolva autoconhecimento desde cedo. Trata-se de um processo composto por apontar e iluminar o caminho diariamente.
A criança que melhor compreende – e portanto, sabe nomear – o que pensa e sente tenderá a ser um adulto mais congruente consigo mesmo e com suas escolhas de vida. Isto que nos acostumamos a chamar de “eu real” (Karen Horney) ou de “self verdadeiro” (Donald Winnicott) é a força-motriz de nossa autoestima, e de nossas motivações construtivas. E é na infância que a percepção de si mesmo começa a ser construída. Quem mais conhece e compreende a si mesmo, mais “próximo” estará de seu eu real e assim terá relacionamentos mais realistas e saudáveis com as outras pessoas e consigo mesmo. Fica a cargo da família (ou dos cuidadores) preparar o terreno.
Aqui vão algumas dicas para auxiliar a criança no desenvolvimento de seu autoconhecimento e de uma saudável percepção de si:
- Tenha um interesse genuíno pela criança e pelo mundo dela. Faça perguntas sobre seus gostos e interesses (e tenha paciência de ouvir sem julgamentos).
- Incentive a criança em suas tarefas diárias. Falas como “eu sei que você consegue” são sempre bem-vindas.
- Permita-se ser um porto-seguro para a criança. Mostre-se disponível para as dores e frustrações dela. De acordo com Karen Horney a formação de uma personalidade adulta saudável e madura implica em sentir-se amado e seguro, sobretudo durante a infância. E isso é muito diferente de receber uma criação permissiva.
- Lembre-se sempre de quem é o adulto da relação e demonstre isso à criança sempre que necessário. É preciso saber dizer “não” e colocar limites em geral. Muitas vezes a criança precisa ser frustrada, para o bem dela e das pessoas com quem ela convive e das que ainda irá conviver.
- Mostre que você sabe para onde está indo (e para onde está levando a criança). Isto é, mantenha uma postura madura, confiante e amorosa. Se a criança consegue confiar nos adultos da casa (ou da instituição), suas ansiedades tendem a diminuir e seus adultos vão se tornando cada vez mais figuras confiáveis e admiradas em seu mundo interno.
- Tenha o hábito de falar sobre o que você sente, perguntando à criança o que ela sente em determinadas situações. Nesse diálogo vá ensinando nomes de sentimentos, dentro daquilo que a idade e o vocabulário da criança comportam. Convém incentivar a criança a pensar e falar sobre bons sentimentos, mas proibir os sentimentos dolorosos de surgirem não é uma boa opção. Sentir raiva e tristeza é tão necessário quanto sentir amor e, se todos admitissem suas invejas de vez em quando, talvez muitas amizades e relacionamentos em geral durariam mais.
- Trate a sua criança interior com carinho. É bastante comum que a experiência da maternidade / paternidade reacenda antigas feridas internas que não foram curadas. Isso faz com que – muitas vezes, inconscientemente – os filhos recebam uma carga de cobranças ou idealizações que têm mais a ver com os pais do que com eles mesmos. Isso gera problemas no relacionamento e frustrações em ambas as partes. Os filhos não devem nunca ser vistos como um “pequeno eu”. Eles não são e jamais conseguirão ser uma extensão de quem os pais são (ou de quem gostariam de ter sido). Procure tratar a si com o mesmo carinho que gostaria que sempre houvessem dispensado a você. Estando em paz com as lembranças do passado e sendo realista com seu “eu” do presente, você permite que seu filho (a) seja livre para se expressar e para ser quem realmente é.
Autoconhecimento também é saber que ser quem se é não é algo perigoso ou desprezível. O eu verdadeiro é o apanhado de tudo que forma quem somos: gostos, ambições, medos, características físicas, identificações, talentos, etc.. E ele é fortalecido na medida em que o autoconhecimento avança. Quem melhor sabe quem é tem melhores condições de enfrentar os desafios da vida adulta. Além disso, considerando as infâncias conectadas na rede que os últimos anos vêm produzindo, existe uma urgência de fortalecimento de vínculos e de construção de autoconhecimento para que as crianças consigam lidar com essa realidade conectada de modo seguro e responsável. Obviamente, sempre com a supervisão de um adulto.
Douglas Marcel da Silva Buzoni (32) é psicólogo e escritor. Desde 2023 atua na educação infantil. Com pós-graduação em psicanálise infantil, é autor do livro “Desenvolvimento da Personalidade: Teorias e Técnicas” (Autografia, 2025) e coautor do livro “Educação na Pandemia: Perspectivas Sobre a Realidade Brasileira” (CRV, 2021). Lattes: http://lattes.cnpq.br/3581407845341281. Instagram: @douglasbuzoni








