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A ficção, as ruas e as avenidas da Franca do Imperador

Há muitos jovens na cidade que não fazem ideia do porquê ‘Franca do Imperador’. Pelo que sei, o nome ‘Vila Franca del Rey” foi alterado para ‘Franca do Imperador’ em homenagem a Dom Pedro I, que declarou a Independência do Brasil. Se eu estiver equivocado, por favor, me corrijam.

São coisas que vão se perdendo com o tempo.

Imagine, então, o quanto a maioria de nós desconhece a história por trás de algumas personalidades da cidade que emprestam seus nomes a ruas e avenidas.

Fazendo parte dessa maioria, fico imaginando, quando passo por aquelas vias, quem são aquelas pessoas, o que fizeram, quais seus legados, a partir disso crio histórias fictícias sobre elas.

Pois veja que Alonso y Alonso (o ‘maps’ insiste em chamar de ‘Alonso ípsilon Alonso’) foi um navegador espanhol. Se estamos longe do mar, isso não é problema.

Em meados do século XVII, Alonso y Alonso e sua tripulação saíram de Mar del Plata rumo à região do oeste catarinense com o intuito de criar gado.

Após passarem por Buenos Aires, erram o caminho e, em vez de subirem pelo Rio Uruguai, navegam Rio Paraná adentro. Perceberam o erro ainda no território argentino, em Corrientes, e decidem continuar a viagem.

Esgotados, quase soçobraram na região da Tríplice Fronteira. Ali viveram em uma tribo indígena por seis meses e aprenderam um pouco da língua e cultura.

A jornada longínqua e perigosa os levou até o Rio Grande. As provisões acabam e eles desembarcam na região que hoje é Rifaina.

A bandeira de Fernão Dias, o ‘Caçador de Esmeraldas’, localizou Alonso y Alonso a beira da morte, era o único sobrevivente da tripulação.

Ele é levado até esta região, onde havia posto bandeirante encravado entre três colinas, e na qual corria um rio que lembrava o Rio Guadaíra, da sua terra natal Sevilha.

Notável artesão, Alonso y Alonso ficou famoso fazendo consertos nos calçados dos viajantes que aqui passavam, se tornando referência nessa arte.

No ano de 1944, o jovem Nicácio se despede da família na Estação de Franca e segue até o porto de Santos. Embarca rumo a Europa e o que o aguardava eram os horrores da II Guerra Mundial.

Na Itália, fez parte do 6º Regimento de Infantaria e suportando um frio de -10 ºC, heroico, alertou os companheiros de iminente emboscada alemã.

Estava no grupo que tomou o Monte Castelo. Ferido no braço, recebeu em campo de batalha a patente de Major.

Voltou ao Brasil e chegou à patente de Coronel, no entanto, popularmente continuou a ser chamado de Major Nicácio até o fim da vida.

Dona Eliza foi uma mulher notável, de grande intelecto a frente de seu tempo. Foi professora, que na época era uma das poucas profissões onde se admitiam mulheres, que eram legadas, na grande maioria das vezes, aos afazeres domésticos.

Eliza Verzola Gosuen, já idosa, teve diversos bisnetos, que lhes eram apresentados com um “toma bença da bisa”, ao que ela respondia, fazendo o sinal da cruz e dando um terço de presente, “que Deus abençoe e guarde essa criança”.

Fazia crochê para passar o tempo e bebia chá de camomila para combater uma úlcera no estômago.

Rua Carlos do Carmo é uma homenagem a um senhor que, todo domingo de manhã, ao buscar pão, ia até a banca e comprava para si um exemplar de ‘O Globo’, para ler a crônica de Nelson Rodrigues e fazer as palavras cruzadas, e o último número da revista ‘O Cruzeiro’ para sua esposa, Dona Carminha.

Seu Carlos tinha o bigode amarelado pela nicotina e gostava de beber café com bolinho de chuva.

Santos Pereira e Estevão Leão Bourroul foram intelectuais francanos.

Transferido de Marília, Santos Pereira foi comandante do Corpo de Bombeiros de Franca e, ao se aposentar, entregou-se a sua grande paixão: a poesia.

Um dos poemas de seu livro ‘Poesias, Odes e Cantos para a Franca do Imperador’ foi lido por Lygia Fagundes Telles na abertura da Academia Francana de Letras. Foi colaborador a obra biográfica “Grandes Vultos – Forças Vivas da Nação”.

Leão Bourroul era filho de um cônsul francês e uma socialite paulistana.

Seu sogro tinha terras por aqui, e entre Marselha e Franca, preferiu Franca.

Lecionou Aula Magna na recém-inaugurada Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Franca.

Posteriormente, foi reitor da UNESP em Ilha Solteira. Escreveu o livro ‘Capitalismo e o Amor sob as Óticas Aristotélica e Freudiana’.

Dois grandes amigos com ideologias diferentes, e não é surpresa que um fique à direita e o outro à esquerda da Avenida Major Nicácio.

Álvaro Abranches foi advogado e professor universitário. Era conhecido como ‘Canhotinha de Ouro’ e foi grande incentivador do futebol varzeano. Era fã dos Beatles e usava corte de cabelo ‘moptop’.

Doutor Abranches deu um verdadeiro show na formatura da turma de 1970 da Faculdade de Direito de Franca quando, depois de beber meia garrafa de aperitivo St. Raphael, subiu no palco e cantou ‘Here

Comes the Sun’ e ‘Please Please Me’. Inesquecível!

Os irmãos Wilson e Miguel Sábio de Mello se afastaram após se desentenderem em razão de uma disputa por herança. Por essa bobagem, foram duas décadas sem se falarem. Reaproximaram-se através do esforço de um amigo comum.

Coincidência ou não, hoje é possível ir de uma avenida a outra que têm o nome dos irmãos trafegando pela Rodovia Ronan Rocha, o amigo em comum que os reuniu.

Vendo nas ruas um navegador espanhol, um pracinha da FEB, uma simpática avó, um senhor com jornal debaixo do braço, dois amigos tomando cerveja e evitando falar sobre política, um advogado beatlemaníaco e dois irmãos que se reconciliaram, dentre tantas figuras com histórias fascinantes (reais ou ficcionais), faço dessa cidade minha de coração.

Michel Pinto Costa

É Oficial de Promotoria do Ministério Público do Estado de São Paulo, em Franca, e bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Franca.

3 Comentários

  1. Sensacional Michel que riqueza imensurável de valor histórico da nossa cidade, parabéns pelo excelente texto e retrato cultural da nossa cidade.

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