A encomenda

Bocejando muito naquela manhã que garoava mansinho, Mestre Vinícius estralou as juntas envelhecidas e saiu de sua cama pronto para um forte café e alguns biscoitos de polvilho.
Ele estava com um pouco de ansiedade, pois precisava ainda finalizar o pedido anual naquele dia. Afinal o cliente, muito ilustre, não se atrasava.
Café da manhã resolvido, desceu as escadarias para a oficina no porão da sede dos Mestres Sapateiros. Chamou dois aprendizes, cada um encarregado de alguma ferramenta, e começou a confecção do par de botas encomendado de forma vitalícia.
-Preciso de mais couro – solicitou Mestre Vinicius sem tirar os olhos do pé-de-ferro que sustentava a forma da bota.
-Mestre… acho que acabou…
Incrédulo, Mestre Vinícius desviou o olhar para os dois rapazes, visivelmente constrangidos, e apertando a têmpora vociferou:
-Como que em Franca, a capital dos calçados, falta couro?! É brincadeira?!
-É que esse couro da bota é diferente…
-Sem desculpas! Corram até a alfaiataria do Björn e tragam o couro! Ligeiro! Daqui da avenida dos Sapateiros até o Jardim Noêmia é uns dez minutos – pegou um lenço e limpou o suor na testa. – Estão aguardando o quê?
Aproveitou a espera pelo retorno dos aprendizes modelando as grossas solas que sustentariam seu antigo cliente. Deveria ter averiguado antes o couro, como pôde esquecer? A idade realmente estava pesando, seus ombros doíam por qualquer movimento. Talvez chegara a hora de passar aquela tarefa para alguém mais jovem, enquanto ele se manteria apenas com a parte burocrática de gerir e organizar a sede…
Mas não naquele dia!
Os aprendizes voltaram aliviados por terem conseguido o couro. Mestre Vinícius agradeceu e não perdeu nem mais um segundo, pulando almoço, café da tarde e jantar. Tinha que finalizar as botas no tempo. E, exausto, teve êxito!
A avenida dos Sapateiros estava silenciosa quando bateram na porta da sede. Mestre Vinícius pediu para alguém abrir e aguardou no hall de entrada.
-Você não se atrasa mesmo, senhor Nicolau – comentou Mestre Vinícius sorrindo para a figura rechonchuda que se aproximava.
O bom velhinho, tirando a touca dos cabelos grisalhos, retribuiu o sorriso soltando sua tradicional risada:
-Ho ho ho!









Onde ja se viu, faltando couro em Franca, o mundo ta perdido mesmo.
Ainda bem que conseguiram couro rapidinho no Noêmia não é mesmo? Haha. Já estava intrigada de quem é que encomenda botas de forma vitalícia… O plot muito bom!! Como sempre histórias fluidas e gostosas de ler!
Que história bonita! A Encomenda mostra que ainda existem pessoas que fazem o trabalho com o coração, mesmo quando tudo parece difícil. O sapateiro podia ter desistido, mas ainda bem que tinha couro no noemia. E esse final, com o toque do bom velhinho, deixa tudo ainda mais especial. Feliz natal 🎄✨
Eu ameii, amei ler contos no dia de natal
Ele não se esquece de ninguém ! Seja Rico ou seja pobre o velhinho sempre vêm
Um conto de Natal fresquinho, que delicinha.
Com o tempo se tornará um eterno clássico para a leitura matinal
Resquícios da realidade, identidade local, uma pitada de drama para a continuidade em fantasia, maravilhosa conexão, conto genial.
Amei a história! Muito criativa, porém a falta de couro em Franca fui o ápice,hahaha
Ri muito, na parte da falta de couro kkkk
Quem diria que o bom velhinho viria de tão longe para pegar seu par de botas….
Meu bisavô conheceu o velho Björn.
Seus contemporâneos diziam que o alfaiate viera da Islândia, à leste da Groenlândia e, seu pai era vizinho do Sr Nicolau.
O resto é lenda…
Oia, só o rabiscador não tira folga nem no Natal! Bom para mim…
Gosto de como a historia essas historias parecem se transformar em mais um relato do que uma fantasia! Amei S2
Adoro contos de Natal!!