A Fome e a Liberdade

Os momentos decisivos da sociedade humana, como na proximidade de uma guerra, constituem oportunidade para avaliação com mais objetividade dos regimes políticos vigentes no mundo. Quanto à guerra especificamente, é fácil notar que tanto nas democracias quanto nos regimes totalitários, a decisão sobre deflagrá-las ou não é tomada pelos governos, sem a participação direta do povo. Portanto, para esse fim, o regime político não tem importância. Também as consequências da guerra são sentidas igualmente pelo povo, qualquer que seja o regime vigente no país. Seriam os regimes democráticos mais pacíficos do que os totalitários?
Olhando para a história recente das duas maiores potências bélicas atuais, EUA e Rússia, uma um regime democrático, e a outra um regime totalitário, parece que não. Quase sempre essas potências estão metidas nos mesmos conflitos, ainda que indiretamente, como nas guerras do Vietnã, do Afeganistão, da Síria, etc., em que mediram forças sobre o território desses países. Na prática, a motivação dos duelos é a disputa por influência sobre os países envolvidos.
Quanto às consequências dos regimes políticos adotados para os diversos povos do planeta, fora dos períodos de guerra, não é tarefa fácil. Mas, olhando para a história, desde as primeiras organizações sociais surgidas na antiguidade, uma constatação parece irrefutável: a liberdade é um bem precioso em todos os regimes que o homem logrou inventar até hoje.
Para Espinoza (Baruch de Espinoza, 1632-1677) ser livre é da natureza do homem. E explica: “deve-se notar que, embora a alma humana seja determinada pelas coisas exteriores para afirmar ou negar, não é determinada a ponto de ser constrangida por elas, mas permanece sempre livre, pois nenhuma coisa tem o poder de destruir a essência dela”. Sartre (Jean-Paul Sartre – 1905-1980) diz que “a liberdade é a condição ontológica do ser humano”.
Daí pode-se concluir que é condição de existência do ser. Logo, qualquer regime político que tenda a suprimir essa condição está fadado ao fracasso. Por outro lado, a fome, que vem fustigando a humanidade desde a pré-história tem sido a justificativa da existência de regimes totalitários, que priorizam a igualdade material em detrimento da liberdade. Marx (Carl Marx, 1818-1883) afirma que: “não há liberdade sem o mundo material no qual os indivíduos a manifestam”.
A fome ainda é um dos principais problemas do Brasil, que com altos e baixos tem preservado a democracia. Por isso, com frequência costumamos ouvir de simpatizantes do regime de Cuba que lá não existe fome. Não obstante, são bem conhecidos entre nós também a saga dos de botes a remo que se arriscam nos quatrocentos quilômetros que separam a Ilha do estado americano de Miami, conduzidos por cubanos famintos de liberdade!
Na semana passada o primeiro-ministro britânico Boris Johnson disse que o que Putin teme não é o poderio militar da Ucrânia, mas a liberdade da sua população. Podem até criticar Boris Johnson de descumprir normas sanitárias por ele mesmo criadas na pandemia, de ser um festeiro incontinente, etc. Mas ele definiu em poucas palavras toda a motivação do ataque feroz do exército russo ao país vizinho. Parece bastante evidente que o motivo foi mesmo o medo da influência que o regime de liberdade da Ucrânia poderia provocar no povo russo, que vive privado da liberdade de expressão e de informação, num ambiente em que Putin manda prender críticos e eliminar adversários políticos. O seu temor tem fundamento porque há uma ligação afetiva entre os povos russos e ucranianos, que se consideram irmãos, fora as questões pontuais de luta por autonomia de algumas regiões.
Por outro lado, o atual presidente americano parece destoar um pouco da postura agressiva tradicional na disputa por influência no mundo, aliás como pareceu acenar também o anterior presidente, Donald Trump, ao concentrar a sua administração nas questões internas do país. A propósito, ao justificar os embargos econômicos impostos àquele país pelo Ocidente, disse Joe Biden: “precisamos parar de usar os combustíveis da guerra e procurar outras fontes de energia limpa”, referindo-se ao petróleo e gás que os EUA e a Europa compram da Rússia. Apesar de sofrer com as críticas pela sua postura cautelosa em relação às medidas tomadas contra a Rússia pela invasão da Ucrânia, a sua frase resume pontos importantes do debate do momento. Primeiro, porque parte considerável da economia russa é baseada na exportação de combustíveis fósseis (gás e petróleo).
A redução da importação desses produtos certamente reduzirá os recursos de Putin para a guerra. De outro lado, a redução da dependência dessa fonte de energia estimulará a criação de outras mais limpas, o que contribui para combater os efeitos das mudanças climáticas, provocadas pela emissão de gases poluentes na atmosfera.
Muitos analistas têm afirmado categoricamente que Vladimir Putin já perdeu a guerra, ainda que venha a destruir totalmente a Ucrânia. Certamente porque sabem que o presidente russo assumiu uma empreitada que nenhum outro tirano do mundo até hoje logrou concluir com sucesso: tirar a liberdade de um povo, que nasce, antes, na alma. Especialmente de um povo que já fez contato com os regimes de liberdade do Ocidente!









Muito esclarecedor e ao mesmo tempo lindo esse texto! Apesar de o tema ser tão terrível (é lastimável ver ou ouvir que crianças estão morrendo em valas de sede e fome, dentre tantos outros horrores dessa guerra, e guerras não tem lado bom), ainda assim, poder perceber que há uma luz, embora fraquinha, como uma saída para nós, humanidade… Obrigada!