A Guerra Pessoal de Vladimir

Nos últimos dias o mundo civilizado tem assistido assombrado a transformação de um sonho particular de um déspota em uma guerra. Costuma-se atribuir ao dramaturgo grego Ésquilo, 525-455 a. C, a afirmação de que “na guerra, a verdade é a primeira vítima”. Tendo Ésquilo lutado na guerra que resultou na invasão da Grécia pela Pérsia, certamente sabia do que estava falando. E mesmo hoje, quando os meios de comunicação possibilitam transmitir a guerra ao vivo, tudo continua igual!
O mundo tem duas conflagrações distintas: uma de fatos reais, com mortes e destruição, e outra de versões. Desde a guerra do Vietnã, 1955-1975, a primeira que teve imagens transmitidas pela televisão, a prevalência das versões oficiais tem sido dificultada. Em 2003 o mundo soube, antes mesmo do seu início, que a Guerra do Iraque tinha motivo falso: Saddan Houssein não possuía “armas químicas nem armas de destruição em massa”, como afirmavam George W. Bush, presidente dos EUA, e a coalizão que liderou na ocupação de Bagdá.
Desde que invadiu a Ucrânia, no último dia 24.2.2022, Vladimir Putin tenta passar ao mundo a ideia de que realiza uma “operação militar especial” em território ucraniano para proteger o povo de neonazistas. Não conseguindo convencer sequer a população do seu país, que vem protestando nas ruas contra a sua guerra, criou lei para proibir que seja chamada de guerra ou de invasão a agressão que o seu exército realiza na Ucrânia.
Transformou em crime com pena de prisão de até 15 anos noticiar os crimes que comete no país vizinho. A intenção da lei é obrigar os jornalistas repetirem versões oficiais das suas ações, dadas por ele mesmo. Mas, mesmo sendo presos aos milhares e agredidos os russos têm saído às ruas para protestar contra a guerra. E com isso temos uma constatação alentadora: redes sociais que mal usadas têm servido para espalhar Fake News, podem se transformar em armas importantes contra o controle da mídia por tiranos! Ou confirmar que a liberdade bem usada é algo muito bom!
A principal dúvida do Ocidente é até onde Vladimir Putin pretende chegar. Vai parar ao derrotar a Ucrânia ou continuará sua escalada para retomar todos os países que conquistaram independência após o fim da URSS? Até agora, o autocrata tem feito exatamente o contrário do que tem afirmado à imprensa ocidental. Disse que não atacaria a Ucrânia, mas atacou. Disse que ia apenas proteger as regiões de Luhansk e Donetsk, que lutam por autonomia, mas vem bombardeando as principais cidades da Ucránia, inclusive a capital, Kiev.
Outra coisa que chama a atenção é a sua declaração de que considera “ato de guerra” as sanções econômicas que a Europa e os EUA têm imposto à Rússia e aos magnatas que têm negócios no Ocidente e financiam as suas guerras. Resta saber se vai atacar algum membro da OTAN e provocar uma resposta à altura, com a possibilidade de dar início à guerra nuclear. O presidente Joe Biden tem dito que Putin não vai parar na Ucrânia. E tem acertado em seus prognósticos, inclusive quando disse que a invasão se daria na semana em que ela começou. Obviamente não é por adivinhação, porque conta com um eficiente serviço de informação.
Por aqui nem os velhos camaradas saudosos dos tempos da URSS, têm se animado a justificar publicamente os atos violentos de Vladimir. Mesmo os novos militantes da direita, que fazem questão de mostrar afinidade com as ditaduras retrógradas do mundo, têm tido coragem de externar sua admiração pelos atos de violência do tirano russo.
Por outro lado, não podemos nos esquecer de que há uma ética que todos devemos cultivar, ainda que em detrimento de interesses econômicos imediatos, que prestigia a vida e a liberdade, valores que sempre nortearam o Brasil nas relações internacionais. Portanto, expressar solidariedade ao povo ucraniano, vítima de uma guerra de conquista aos moldes do século XVI é uma obrigação do governo brasileiro e um ato de civilidade que até mesmo a população da própria Rússia tem demostrado. Não faria sentido que o povo brasileiro tivesse dúvidas em tais circunstâncias!








