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Mauro Ferreira lança livro em comemoração aos 200 anos de Franca e que trata da arquitetura e urbanismo nesse período

Mauro Ferreira, arquiteto, pesquisador, docente e escritor que contabiliza no currículo 12 livros editados, está lançando a obra “Vila Franca D´el Rey – 200 anos de arquitetura e urbanismo”, obra  resultante de extensa pesquisa, um trabalho que chega para ser, certamente, referência na área, em Franca.

O livro começou a ser elaborado uns cinco anos atrás quando me dei conta de que logo chegaríamos à comemoração dos 200 anos da antiga Vila Franca e eu estava envolvido com sua arquitetura e urbanismo desde 1970, seja na vida pública, na política partidária, na vida profissional, na universidade, como militante de movimentos culturais e de defesa do patrimônio edificado e como cidadão que nasceu e vive em Franca.

A partir de pesquisas que já tinha desenvolvido sobre alguns aspectos da cidade no mestrado, no doutorado e pós-doutorado, além da vivência e envolvimento profissional na Secretaria de Planejamento da Prefeitura em diferentes gestões, na direção de entidades como a Associação dos Engenheiros e Arquitetos – AERF e Sindicato dos Arquitetos e de militante na defesa do patrimônio cultural desde o movimento pela preservação do Hotel Francano nos anos 70, estruturei a pesquisa em torno de acervos existentes em arquivos públicos e em busca de informações em acervos particulares de profissionais da cidade ou que fizeram obras aqui”, conta o autor, cujas maiores referências são Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, Afonso Reidy no passado, “por tentarem levar adiante suas utopias sobre cidades mais belas e para todos”.

“É um livro sobre história da arquitetura e do urbanismo local, que reflete as profundas mudanças sociais e culturais da cidade, as soluções espaciais, estéticas e de modos de viver que a arquitetura revela e que foram se transformando ao longo dos séculos. Livros, como os filhos, se lançam no mundo, esperamos que sejam felizes e tornem outras pessoas felizes também”, reflete.

Para este título, ele explica que não haverá propriamente um lançamento, pois a versão em livro não será comercializada em livrarias. “A versão impressa será editada na quantidade exata dos que o encomendarem previamente ao Lab das Artes (até 30 de setembro). Informações sobre encomenda e forma de pagamento podem ser obtidas pelo Facebook do Laboratório das Artes de Franca ou pelo email:  [email protected]. Posteriormente, a partir de dezembro, a Ribeirão Gráfica Editora comercializará a versão digital em seu site.

Na entrevista à Folha de Franca, Mauro detalha aspectos e curiosidades históricas e arquitetônicas na cidade. O leitor saberá, por exemplo, que o premiado Paulo Mendes da Rocha projetou uma escola para a cidade, que não se concretizou em obra, entre outros fatos desconhecidos pelo público leigo, como uma representação gráfica da arquitetura da Câmara e da Cadeia realizado por um viajante inglês em 1827. Saberá também que o projeto do SESC, de autoria do arquiteto Shundi Iwamizu, é a obra mais complexa já realizada na cidade.

Folha de Franca – Como você chegou a esse título?

Mauro Ferreira – Seu título é “Vila Franca D´el Rey – 200 anos de arquitetura e urbanismo”, justamente porque em outubro de 1821 foi assinado o decreto original de elevação a vila, alterado em 1824 quando da elevação efetiva para Vila Franca do Imperador. São seis capítulos, que tratam da cidade imperial, da cidade da ferrovia, do café e da belle époque, a cidade moderna, a cidade do primeiro Plano Diretor, a questão do patrimônio cultural edificado e a cidade contemporânea. O livro será lançado em novembro em duas versões, digital e impresso, terá quase 400 páginas e mais de 400 imagens, entre fotos, desenhos, plantas e mapas, além de aquarelas da artista plástica Atalie Rodrigues Alves, algumas feitas especialmente para o livro.

O livro começa com o desenho da Casa de Câmara e Cadeia (demolida nos anos 40), erguida onde hoje está o correio central e um desenho da cidade feito pelo viajante inglês William Burchell, que descobri por acaso que existia no início dos anos 1980. Li uma reportagem sobre o lançamento do livro sobre Burchell quando fazia a pesquisa para meu livro “Franca, itinerário urbano”, publicado em 1983. A reportagem dizia que Burchell tinha feito a viagem para os Goyazes passando por Jundiaí, Mogi-Mirim e Franca, mas não falava nada sobre o desenho. Conversei sobre o livro com o senhor Nelson Pucci, um dos empresários da Amazonas S.A., que financiou a edição daquele livro, o que o levou a comprar um volume e me dar de presente, mostrando que nele havia a primeira representação gráfica da arquitetura do centro da cidade, desenhada pelo viajante inglês em 1827. O livro termina com os desenhos da obra do SESC, projeto do colega arquiteto Shundi Iwamizu, a mais complexa obra de arquitetura já feita na cidade.

Folha de Franca – Uma obra extensa assim teve colaborações externas?

Mauro Ferreira – Muitas pessoas colaboraram com o livro ao longo do tempo, mas agradeço especialmente ao publicitário Gil de Russi, que desenvolveu um primoroso projeto gráfico, a arquiteta Cecília Fuentes que fotografou dezenas de obras, a Atalie que fez aquarelas de construções locais, ao Marcelo Fradim e José de Araújo que cederam fotos antigas da cidade e ao professor Agnaldo Barbosa, que gentilmente escreveu um generoso prefácio.

Infelizmente, nesse país o custo de um verdadeiro “livro de arte” no formato impresso é inacessível à maioria das pessoas, ainda mais num momento de grave crise (econômica, de saúde, política e social) em que vivemos sob o bolsonarismo, que ataca sistematicamente a arte e a cultura. Consegui algum apoio privado para essa impressão, mas não o suficiente para democratizar o acesso, quem sabe mais à frente seja possível fazer uma segunda edição impressa com um apoio maior. O livro será impresso na quantidade exata dos que o encomendaram ao Lab das Artes. Em todo caso, com baixo custo, a versão digital vai suprir essa lacuna aos interessados na história da cidade e de sua arquitetura a possibilidade de conhecerem em detalhe como a cidade foi construída e se tornou essa pujante Franca da atualidade.

Folha de Franca – Como foi o percurso de produção dessa obra?

Mauro Ferreira – Longo, prazeroso, às vezes, e com algumas constatações tristes: a ausência da preservação da memória histórica (não só) em pedra e cal como instrumento de cidadania, cada ciclo histórico destruiu o anterior, impedindo ter uma visão mais ampla do que fomos e para onde estamos caminhando; as várias camadas da história superpostas que poderiam ser vistas nos edifícios se fossem reaproveitados para novos usos e não simplesmente descartados. Inexiste educação patrimonial como política pública e como horizonte de mudança dos paradigmas atuais.

Folha de Franca- O produto final (livro) seguiu o projeto de início ou houve mudanças e surpresas no itinerário que influíram no resultado?

Mauro Ferreira – Mudanças significativas não aconteceram, mas um projeto longo como esse sempre tem que rever o rumo. Uma surpresa negativa foi a destruição por um importante fotógrafo local do seu próprio acervo, impedindo que fossem mostradas cenas urbanas de sua autoria como havia planejado.

Folha de Franca- Em termos de estilística arquitetônica, como podemos descrever Franca, historicamente falando (e avançando)?

Mauro Ferreira  – A cidade já caminhou ao lado do que havia de mais contemporâneo ao seu tempo, em especial no começo do modernismo na arquitetura brasileira nas décadas de 1950 e 60, mas isso se perdeu. Nos anos 70 uma escola projetada por Paulo Mendes da Rocha, Prêmio Pritzker em 2006 (o Nobel da Arquitetura) não foi construída, ficamos sem uma obra que poderia ser um marco na cidade.  A obra do Mendes da Rocha foi projetada a pedido do governo estadual, naquela enorme quadra vazia até hoje próxima à Capelinha, para a construção de uma escola técnica, que acabou cancelada. O projeto se perdeu, até porque o Roberto Engler (deputado estadual) criou uma lei devolvendo a área à igreja católica da Capelinha, que a havia doado para a construção de uma escola que nunca foi edificada. A arquitetura e o urbanismo praticados aqui, como na maior parte das cidades brasileiras, perdeu protagonismo na construção da cidade, embora muito do que se construa tenha um arquiteto responsável, um paradoxo. O diálogo arquitetura e urbanismo se perdeu, fazemos casinhas e prédios sem olhar o conjunto, em contínua expansão por bairros sempre iguais e de baixa densidade, gerando uma paisagem urbana repetitiva.

Folha de Franca – A que você atribui a perda do diálogo arquitetura e urbanismo?

Mauro Ferreira – São vários movimentos – a opção rodoviarista para a expansão sem fim das cidades com suas enormes periferias, a massificação sem qualidade das construções, o olhar vesgo das administrações municipais e profissionais que não analisam de forma integrada rua e lote, o aprofundamento da segregação espacial entre classes criando a “não-cidade” em guetos murados como na Idade Média, enfim, é apenas uma explicação ligeira.

Folha de Franca – Conforme certo discurso vigente, a arquitetura evolui confome a evolução da sociedade.  Você visualiza uma arquitetura que ela própria viabilize transformações na sociedade?

Mauro Ferreira- Durante o processo da Revolução Industrial e começo do Modernismo (final do século XIX e até meados do século XX) havia essa utopia presente num discurso totalizante, transformador, de arquitetos e pensadores influentes no mundo como Le Corbusier, Gropius, mas hoje não mais, a arquitetura é produto da sociedade, ela sozinha não é capaz de mudá-la como mostra o exemplo de Brasília; o Plano Piloto pensado para ser uma cidade menos desigual e acabou se tornando símbolo da exclusão da maioria do povo brasileiro à qualidade da moradia e do espaço, os mais pobres foram expulsos para a periferia do Plano.

Folha de Franca – Quais os modismos arquitetônicos que você acompanhou e dos quais hoje você até ri?

Mauro Ferreira – As casas ditas “coloniais” dos anos 70 e 80, com energia elétrica, água encanada aquecida e garagem para carros, com seus gradís pontudos (os famosos espeta-cu).

Folha de Franca – Qual é, a seu ver, o futuro da arquitetura? Para que caminho ela aponta?

Mauro Ferreira – De um lado, o aumento da miséria, da exclusão e da pobreza urbanas apontam para uma maior segregação e favelização urbana em todo o planeta. A crise climática e a apropriação da terra urbana dotada de boa infraestrutura apenas pelo “mercado” (os que podem pagar) vão levar a um impasse, a um aprofundamento do processo de exclusão – de um lado, os mais ricos se escondendo atrás de muralhas nos condomínios fechados como na Idade Média e os mais pobres se amontoando nas favelas em moradias sub humanas em locais com escassa infraestrutura e sujeitos a enchentes, alagamentos e deslizamentos de terra. As cidades brasileiras, como disse um economista no passado, são expressão da Belíndia brasileira – há alguns trechos supermodernos (a Bélgica) e outros muitos super atrasados (a Índia). De um lado, pouca gente morando em edifícios inteligentes, construídos de forma sustentável e de outro, muita gente em barracos e debaixo de viadutos. Espero estar errado. Como diz a querida arquiteta Ermínia Maricato, “o nó é a terra urbana”.

Livros já publicados por Mauro Ferreira

  • -Vamos pro mundo, contos, 1979, Fundação Mário de Andrade
  • -A Noite dos espantalhos e parasitas, 1981, Fundação Mário de Andrade
  • -Franca, itinerário urbano, história, 1983, Laboratório das Artes de Franca
  • -Nada a ver, contos, 1985, Laboratório das Artes de Franca
  • -A Viagem, novela, 1995, Laboratório das Artes de Franca
  • -O mudinho Verticelo e outras estórias, contos, 1998, Ribeirão Gráfica Editora
  • -Onze Janelas e uma crônica falta de assunto, contos, 2004, Ribeirão Gráfica Editora
  • -Arquitetura e Urbanismo Modernos em Franca, história da arquitetura, 2006, Ribeirão Gráfica Editora
  • -O Macio da Paina, crônicas, 2012, Laboratório das Artes de Franca e FESP
  • -Planejamento Urbano nos tempos do SERFHAU, história do planejamento urbano, 2014, Laboratório das Artes de Franca
  • -Veterana do Além, novela, 2016, Laboratório das Artes de Franca
  • -Anachrônicas da Franca do Imperador, crônicas, 2018, Laboratório das Artes de Franca

Vanessa Maranha

É Psicóloga, Jornalista, Escritora Premiada, colunista da FF.

Um Comentário

  1. Leitura imperdível
    Mauro nos brinda c esta superprodução q retrata os 200 anos q separam o Sertão do Capim Mimoso a Franca dos nossos dias

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