O preço do atraso

O vereador Gilson Pelizaro (PT) articulou na Câmara Municipal uma audiência sobre os problemas do trânsito na cidade de Franca, premido pelo noticiário cada vez mais alarmante que traz a violência no trânsito urbano para dentro de nossas casas. Sempre é bom recordar que no início deste século, Franca empilhava prêmios e reconhecimento pelo trabalho efetuado no trânsito e no transporte coletivo.
A decisão política do governo Gilmar Dominici em priorizar o transporte coletivo impôs, de um lado, a reorganização das linhas de ônibus, a construção do terminal central, a integração entre as linhas com tarifa única, o início da bilhetagem eletrônica, de outro o planejamento do tráfego e do trânsito urbano com base no novo Plano Diretor, no Plano Cicloviário e na Lei do Plano Viário, estabelecendo regras modernizantes e diretrizes para a expansão sustentável da cidade.
Nesse contexto teve início a fiscalização eletrônica urbana através de radares fixos e móveis em locais estratégicos e até sensores fiscalizavam o avanço dos veículos sobre as faixas de pedestres, campanhas educativas de trânsito eram realizadas nas principais ruas.
A forte oposição política e dos meios de comunicação à época vendendo a falsa ideia de que as iniciativas da Prefeitura para humanizar o trânsito e reduzir acidentes e mortes criavam uma “indústria da multa” que na prática só ocorria contra motoristas infratores das leis de trânsito está agora apresentando a conta. Os sucessores de Gilmar descontinuaram todas as práticas modernizantes da fiscalização do trânsito na cidade, retirando os radares, fechando o órgão responsável até então (DINFRA) e praticamente transferindo apenas à Polícia Militar a fiscalização do trânsito urbano. Como sabemos, voto não tem preço, tem consequência. O preço dessa decisão está matando tanto que a cidade lidera nesse ano o ranking de mortes no trânsito.
O prognóstico é claro:´se não mudarmos essa política, a carnificina vai continuar. Os lobbies de vários setores econômicos e políticos atuam para deixar tudo como está e só um prefeito com forte apoio político terá capacidade de implementar as mudanças necessárias. O Plano Municipal de Mobilidade Urbana – PlanMob elaborado pela própria Prefeitura e com escassa participação comunitária nunca foi pra valer, o PlanMob mofa nos escaninhos da administração municipal como papel pintado, suas ações previstas são totalmente ignoradas, prevalecendo o improviso do dia a dia nas ruas.
Por isso, a construção de alternativas deveria começar pelo desenho da cidade. A visão de que Franca tem que crescer sem limites precisa mudar – a cidade não vai crescer indefinidamente, os números do IBGE apontam a estabilização da população brasileira em uma década. Tem candidato a deputado dizendo que a cidade precisa se preparar para quando chegar a 600 mil habitantes e isso provavelmente não vai ocorrer pelos dados e projeções disponíveis atualmente. E, se chegar, será com uma população ainda mais envelhecida que a atual, bem diferente dos 17% de idosos de hoje.
Franca precisa se voltar para a cidade consolidada e não continuar se expandindo continuamente, é insustentável essa decisão política de sua elite que ameaça até mesmo os mananciais que abastecem a cidade na bacia do Rio Canoas. Parte das mortes e acidentes de trânsito estão intrinsecamente relacionadas a ela – quanto mais a cidade se expande horizontalmente, deixando lotes e construções vazias nas regiões consolidadas, mais longe moram as pessoas dos locais de emprego. O resultado é óbvio, mais elas vão necessitar de transporte e mais tempo de suas vidas vão perder em trânsito. Como o atual sistema público de transporte coletivo é ineficiente e caro, mais carros individuais e motos vão circular pelas ruas. A discussão para implantar a tarifa zero num sistema de transporte público efetivo se impõe como uma das medidas indispensáveis para reduzir o uso do veículo individual e reduzir o número de veículos nas ruas e, por consequência, os acidentes.
É preciso que a Prefeitura estruture uma estratégia que reúna de forma integrada as ações de planejamento, de fiscalização de rua e eletrônica, projetos de sinalização e intervenção viária de traffic calm, campanhas educativas, aliadas a uma redução das velocidades máximas nas vias, especialmente nas de grande tráfego. Outra ação possível é instituir uma política de tarifas mais altas para estacionamento nas vias públicas, fazendo o usuário do veículo individual reduzir o uso das vias para estacionar, já que não compete à Prefeitura fornecer estacionamento gratuito a veículos individuais e, ao mesmo tempo, ampliar a capacidade das vias centrais, ação que já foi efetuada noutra gestão do atual prefeito e que também foi descontinuada por pressão do comércio que não percebe que o problema é outro.
É preciso investir noutros modais de transporte além do veículo individual. É necessário criar uma rede integrada de ciclovias e passeios caminháveis e acessíveis em toda a cidade. Para isso é preciso outra mudança: os passeios devem se tornar públicos de fato, tornando a Prefeitura responsável pela sua execução e manutenção. Caso contrário, a colcha de retalhos que temos nas calçadas da cidade vão continuar e dificultar a locomoção de todos.
Porque a Prefeitura é responsável e gasta milhões para manter os pisos asfaltados das ruas para os automóveis e não mantém as calçadas que, afinal, também são de propriedade do Poder Público? Não existe solução simples para um problema tão complexo, mas a mudança de rumo da atual administração se impõe se quisermos uma cidade melhor e mais segura para se viver.
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