Quatro Setembros

Por Rita Mozetti
Após uma semana intensa de estudo e trabalho, havia reservado o dia para fazer nada. De manhãzinha, o celular com número bem familiar mudaria minha rotina e minha vida para sempre. Do outro lado: “Ela está diferente, acordou querendo ir para casa, disse que se cansou de Cabo Frio. Está fazendo a mala, disse que vai embora!”, mas ela já estava em casa. Cabo Frio foi a última viagem que ela fez e como cativava memórias afetuosas do lugar, era lá que, no pensamento, ela estava. Realmente, ela estava confusa. Decidimos que seria melhor levá-la ao hospital. A afilhada a ajudou com a roupa e o beijo era somente um até breve.
A respiração foi se alterando, pouco ar… O respirador artificial parecia não dar conta. À noite, brincou com o crachá da enfermeira, pediu para ir para casa, que não a deixássemos ali, sempre tão calma, estava nervosa. Segurávamos a mão dela, o esmalte roxo que gostava, a blusa verde, a calça preta e os pés inchados. Foi para a UTI, deixamos ela lá. Foram nove dias indo em vindo e ainda havia esperança. Nas visitas, apenas o barulho do respirador e a imagem das batidas do coração. Restava a nós, apenas segurar a mão dela e ver que a cada dia, se igualava a cor do esmalte. Teve o dia que ela pediu água, muita sede, só era possível molhar o dedo e passar na boca dela.
Quantas coisas deixamos de fazer e de falar. Em um dia, entramos na UTI e, para nossa surpresa, ela estava sentada em uma cadeira. Conversou com a gente, mexeu e brincou com o anel da Isa. A esperança se renovou: “Ela melhorou”. De repente, novamente, ela não estava ali. Voltou para a cama. A despedida? Pedi para o médico, transferi-la para outro leito, pois o ar condicionado estaria atrapalhando a recuperação, ele sorriu, olhou para o ar, concordou comigo e terminou a visita dizendo: “Hoje foi o pior dia dela. Está fraquinha”. Ficávamos reunidos na portaria à espera de um milagre e o mundo não parava para viver nossa dor, nossos medos, angústias e incertezas. Recebi um telefonema: “Sua dissertação não foi entregue na secretaria da Faculdade, sua defesa será na próxima semana”. A vida continuava lá fora, embora a minha vida estivesse lá dentro.
Na madrugada do último domingo, assim como ela era, silenciosa, silenciosamente se foi. O telefonema veio pela manhã. Ela foi embora mesmo! Na memória, ainda vejo meu irmão descendo a rampa com a sacolinha de remédios: “Acabou!”. Ficamos sem saber para onde ir e o que fazer. As providências não foram fáceis. A prima de longe, que ela tanto falava e há anos não se viam, precisou autorizar a abertura do último lugar para ela ficar. A despedida é algo sem explicação, estranha, pois não temos como falar o que gostaríamos… Não dá tempo de nada. Lembra da dissertação? Então, a defesa era para o dia seguinte. Veio a pergunta: “Vamos adiar a data?” “Se adiar algo vai mudar? Se for daqui um mês? Dois meses? Ano que vem… O que mudaria nesta história?” Nada. Tinha idealizado convidar para minha apresentação de defesa pessoas importantes para mim, mas desisti da plateia, queria terminar logo e voltar para a casa. Resolvi apresentar.
No dia 26 de setembro, conclui meu mestrado sob olhares atentos do esposo, das filhas, de uma amiga e de algumas crianças (minhas alunas do 5º ano de 2017). A vida não para quando perdemos. Tudo continua como se nada tivesse acontecido e precisamos aprender a viver e conviver com a dor e a saudade. Felizmente, a vida é soberana, ela se impõe e nos obriga a seguir adiante e falar sobre é uma forma de libertar um pouquinho da dor. Ela tinha que ter visto que conclui o mestrado, pois sempre apostou e acreditou que eu seria capaz de vencer minhas dificuldades escolares. Por ser professora, ela sempre contratava os amigos professores de matemática para me ajudar a entender as contas de dividir e as longas expressões numéricas, nunca soube o que resolver primeiro: se os parênteses, colchetes ou as chaves. Dia desses reencontrei um dos professores que tentaram me auxiliar na matemática e ouvi: “Estou surpreso em saber que você é pedagoga, tinha tanta dificuldade, mas sua mãe sempre insistia, deu certo, né?” Sim, deu certo.
Quem sabe foi por isso que decidi provar que a educação realmente transforma, mas é essencial termos ao lado, pessoas que acreditam e erguem as mãos para acolher nossas dificuldades. Que sorte tive de tê-la ao meu lado. Teve que ser assim, sem a presença dela em muitas conquistas que tive na área da educação. Sempre que setembro chega, chega com ele lembranças e saudade.
E já se foram quatro setembros!
Rita Mozetti é professora da rede pública, tutora de Pedagogia, Gestora da rede municipal, pedagoga, mestra em Desenvolvimento Regional e doutoranda em Serviço Social pela Unesp e vencedora do Prêmio Educador Nota 10, o maior e mais importante prêmio da Educação Básica Brasileira criado pela Fundação Vitor Civita.










Belo texto. Parabéns. Todos nós sentimos algo semelhante meses momentos de despedida!