Delzio Marques: fotógrafo dos sons

Quando se pensa em fotografia como arte, em Franca, o nome Delzio Marques Soares (54 anos) é indissociável.
Artista da imagem, Delzio trabalha sombra e luz, sobretudo em retratos e, mais ainda, em shows musicais, com maestria e estética referenciada em nomes como Man Ray, Robert Mapplethorpe, Cartier-Bresson, entre outros. Do ponto de vista teórico, evoca a Retórica de Aristóteles e Perelman/Tyteca, o estruturalismo de Barthes e a Gestalt, como sustentações que conferem estofo à sua forma de abordagem e refletem um resultado imagético impactante
Nascido em São João Batista do Glória (MG), mudou-se para Franca em 1986. Mestre em Linguística, especialista em Análise de Sistemas e graduado em Processamento de Dados (1988), todos pela UNIFRAN.

Ele conta que por volta de 1997 começou a se envolver com a fotografia, como uma atividade paralela à atuação na AGABÊ, onde foi gerente nacional de vendas. “Por três semestres, nos anos 2000 e 2001 fiz formação no SENAC de Ribeirão Preto, tendo aulas de estética, estúdio e laboratório com o fotógrafo Vicente Sampaio. Pelos anos seguintes busquei formação em diversos gêneros fotográficos, fazendo cursos e workshops em São Paulo e Belo Horizonte. Em 2006 formalizei e inaugurei o estúdio Delzio Marques Fotografia, com vistas a fotografar pessoas, eventos sociais e corporativos.”
Em 2015 fui convidado a dar aulas de fotografia no curso de Graduação em Design Gráfico, na UNIFRAN, onde estou até hoje, tendo estendido minha atuação como docente também nos cursos de Publicidade e Propaganda e Jornalismo”, relata.
Como decorrência do mestrado, no qual defendeu dissertação a partir da análise de capas de discos da Tropicália, atualmente é pesquisador no grupo PARE (Pesquisa em Argumentação e Retórica), em que se dedica a estudos de textos multimodais ligados à cultura.
Seu currículo é vasto e luminoso. “Sou alumni do programa Intercâmbio de Grupos de Estudo, patrocinado pela Fundação Rotária, do Rotary International, que me proporcionou uma experiência profissional e cultural de 40 dias nos Estados Unidos, entre maio e junho de 1999. Como consequência desse intercâmbio, em 2001 tornei-me presidente fundador do Rotary Club de Franca Novas Gerações, que prestou serviços comunitários em Franca por 12 anos. Encerrado em 2013, hoje sigo associado ao Rotary E-Club do Distrito 4540, com o mesmo propósito de prestar serviços à comunidade, local e internacional, e promover a compreensão mundial.”

Nessa entrevista, o leitor conhecerá o vasto mundo de Delzio Marques e sua relevância no cenário cultural, que se estende à efetiva atuação em questões urgentes relacionadas à promoção da Economia Criativa.
Folha de Franca – De que forma a fotografia chegou, como interesse artístico, à sua vida? Quando começou fotografar?
Delzio Marques – É na adolescência que encontro os primeiros antecedentes da presença da fotografia na minha vida, e eles estavam no limitado acesso que tive à música e ao cinema. Nos anos 1980, antes de ter recursos para consumir música, isto é adquirir LPs, eu lia revistas e jornais sobre música. Toda a iconografia em torno dos artistas e bandas de rock, MPB e jazz, aliados aos textos, me transportavam para o som, antes de ouvi-los. Essas imagens formaram uma espécie de código para o som. Algo semelhante aconteceu com o cinema. Ainda que eu pudesse assistir a alguns filmes nas salas de exibição, a cinematografia que me interessava só vim a ter acesso com o advento do VHS. Essa visualidade percebida no universo musical e no cinema está na origem da educação do meu olhar, aliados às exposições de arte em São Paulo e aos livros que comecei a adquirir, a partir do início dos anos 1990.
O despertar para a fotografia como prática, não só artística, mas como negócio, acontece por volta de 1997, quando conheci o fotógrafo britânico Paul Pears, que residia em Franca, e a quem fui apresentado para fazer conversação em inglês. Ou seja, esse interesse chegou quase que por acidente! Ao conhecer seu trabalho, vislumbrei a possibilidade de me dedicar à fotografia como uma profissão rentável, mas também como uma forma de expressão, que daria vazão àquele background cultural que eu vinha construindo, por conta própria e para as mais diversas formas de expressão artística, desde a adolescência.
Convivendo com Paul tive minhas primeiras experiências com estúdio, laboratório e cobertura de eventos. No meu aniversário, em 1999, ganhei da minha namorada (atual esposa Águeda), uma câmera reflex semiprofissional. Pouco tempo depois estava fotografando o casamento de um amigo e um show do Djavan, no Castelinho. Considero esse show o marco zero da minha fotografia de música.
Folha de Franca – Quais são as suas ‘pedras angulares’, suas influências nas artes visuais?
Delzio Marques – Minhas pedras angulares estão em trabalhos que, à primeira vista, parecem ter pouco ou nada em comum com o que faço, quer seja com a fotografia de música e espetáculos, ou menos ainda com a fotografia de casamentos. São referências e temas que sequer ouso fotografar, mas considero guias em direção a um possível ideal de perfeição. São muitos, mas vou citar: Man Ray, pelo experimentalismo e vanguarda; Cartier-Bresson e Sebastião Salgado, pelo rigor, poesia e urgência documental que imprimem em seus trabalhos; Andy Warhol e Robert Mapplethorpe, pela forma visceral com que viveram e retrataram a boemia novaiorquina nos anos 60 e 70. A cinematografia de Vittorio Storaro e os filmes de Wim Wenders, em especial Asas do Desejo e Paris, Texas, com suas referências à obra de Edward Hopper, um pintor cinematográfico.
No universo da música tenho como referências Bob Gruen, Mick Rock, David Bailey, Anton Corbjin e os brasileiros Mario Luiz Thompson, Marco Aurélio Olímpio e Marcos Hermes.
Na fotografia de casamentos: Camila Butcher, Vinicius Matos e Rafael Bigarelli.
Folha de Franca – Uma imagem vale, de fato, mais do que mil palavras?
Delzio Marques – De certa forma sim, e aprendi com Dondis, uma pesquisadora da Gestalt, que um símbolo vale mil imagens. Ao elevar o poder comunicativo da imagem, Confúcio explicava as potencialidades visuais do ideograma enquanto forma de comunicação. Isso sempre me soou como algo a ser perseguido, no sentido de objetivar a comunicação, preferindo imagens às mensagens verbais. No entanto, há uma outra questão. Conforme nos ensinou Barthes, a imagem é polissêmica e dessa forma, ainda que ela se entregue de uma vez, seus sentidos não se esgotam. Certas imagens carregam sentidos que, para serem obtidos, demandam um determinado grau de alfabetismo visual, além de estarem sujeitos ao conhecimento de mundo de cada espectador. Nesse sentido, existem imagens que você vai precisar de mais de mil palavras para explicá-las. Isso me leva a concluir, de maneira bem superficial, que as imagens existem em diferentes graus de complexidade, assim como os textos verbais.

Folha de Franca – Fale sobre ser artista no Brasil hoje.
Delzio Marques – Eu posso me considerar um privilegiado, pois excetuando esse difícil período da pandemia, que suspendeu todos os eventos, nunca tive problemas em exercer o meu trabalho fotográfico. Se pratico a fotografia de música e espetáculos como uma forma de expressão artística e na maioria das vezes sem expectativas financeiras, faturo com a fotografia de casamentos e eventos sociais. Até aqui, consegui um equilíbrio fazendo arte e negócios. Mas, de uma maneira geral, em nível de país, a situação está horrível para a maioria dos artistas, pois como se não bastassem todas as tensões em torno da pandemia, não temos nenhuma política de estado voltada para as artes e a cultura. Pelo contrário, temos uma política de governo, que tem por objetivo acabar com qualquer outra política cultural. Ainda que nessas condições precárias, nunca precisamos tantos dos artistas como agora.
Folha de Franca – Recentemente fui entrevistada por uma sua aluna da Unifran para um projeto de mapeamento artístico/cultural. Fale a respeito disso.
Delzio Marques – Sim e aproveito para agradecer sua gentileza em ter participado. Aquele projeto foi decorrente de uma disciplina que ministrei no curso de Publicidade e Propaganda/Jornalismo, na UNIFRAN, chamada “Economia Criativa e Inovação”. Conduzi o projeto dividindo as atividades artísticas em seis segmentos e cada grupo ficou por conta de mapear os agentes e espaços culturais da cidade de Franca. A partir daí, elencamos alguns agentes para entrevistar, com vistas a obter deles subsídios para propostas a serem contempladas num plano municipal de cultura, em cada segmento. Os alunos ficaram encantados com o universo que descobriram e o resultado foi muito bom, podendo ser aperfeiçoado e servir de modelo para aplicação futura.
Folha de Franca – Você tem algum livro publicado?
Delzio Marques – Não me considero um escritor, mas a partir do mestrado estou me dedicando a escrever artigos científicos em torno de temas que me interessam, especialmente ligados à imagem e ao universo da música. Tenho artigos em dois livros publicados pelo grupo PARE (Pesquisa em Argumentação e Retórica), do qual faço parte na UNIFRAN. Em Retórica e Multimodalidade, lançado em 2018, analiso a capa do LP Tropicalia ou Panis et Circencis. No Trajetória das Paixões: uma retórica de alma (2020), analiso as paixões em torno da participação de Caetano Veloso no Festival Internacional da Canção, em 1968. Também escrevi o prefácio do livro Depois eu contA, do poeta Baltazar Gonçalves, lançado no início de 2021.
Meu primeiro livro tem previsão de lançamento para o começo de 2022. Trata-se da publicação da minha dissertação de mestrado, intitulada Embalando sons e seduzindo o olhar: a argumentação nas capas de discos da Tropicalia, que em livro terá outro título e começarei a divulgar em breve.
Folha de Franca – Discorra sobre o evento a respeito de Economia Criativa com Decio Coutinho.
Delzio Marques – O V FICC (5. Fórum Internacional de Cidades Criativas) acontecerá em Franca entre os dias 1 e 3 de dezembro de 2021, no Centro Universitário Uni-FACEF. Será realizado pelo NEPEC, ACIF, Uni-FACEF e SEBRAE, além de contar com apoio de uma grande rede de parceiros e patrocinadores.
O conceito do FICC está alinhado com o princípio geral da Economia Criativa, delineado pela UNCTAD/ONU, e definido como “um conjunto de negócios baseados no capital intelectual e cultural, tendo como mola propulsora a criatividade”.
O FICC tem como propósito “mostrar COMO é possível desenvolver a economia local criando oportunidades para a geração de emprego e renda, através da conexão entre os talentos locais, a criatividade coletiva, a tecnologia, a nossa história e cultura; transformando tudo isto em capital intelectual e ativos geradores de valor econômico”.
Esse objetivo será alcançado por meio da metodologia desenhada por Decio Coutinho, idealizador e curador do FICC, que se dará como uma ferramenta de planejamento estratégico, com vistas a tornar Franca uma cidade criativa. Desse modo, estão programados a participação de palestrantes internacionais e nacionais, painéis, oficinas de design de território e festival artístico, envolvendo cerca de 400 pessoas.
Meu envolvimento com o V FICC se deu por conta do NEPEC – Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Economia Criativa, criado pela professora Tania Mara Pinto de Sousa e a fluxonomista Ana de Araújo -, do qual eu passei a fazer parte em fevereiro deste ano, em decorrência da disciplina Economia Criativa e Inovação, que ministrei no primeiro semestre, na UNIFRAN. Vi nesse grupo de estudos a possibilidade de atuar com algo que eu estava trabalhando em teoria e contribuir para o desenvolvimento de Franca, por meio de um Fórum que está embasado em valores com os quais eu comungo.
Folha de Franca – Como você avalia a cidade de Franca em termos de produção cultural? E a gestão da cultura do ponto de vista histórico até a atualidade?
Delzio Marques – Como uma típica cidade do interior, sinto que Franca é carente, como muitas outras, de um ambiente cultural efervescente. Com isso quero dizer que sinto falta de espaços públicos e privados, oferecendo atrações culturais constantemente, disputando o público. A cidade é um celeiro de artistas talentosos, mas com enormes dificuldades de fazerem seus trabalhos chegarem até o público. Em todos os segmentos encontramos produções relevantes e marcadas pela diversidade, mas falta uma política pública municipal de cultura que possa ser continuada a cada mudança de governo. Não é só uma questão de falta de recursos, porque é notório que essa limitação é uma constante Brasil afora, mas a questão maior é a falta de regras para a cultura, que regulamente o setor em termos de investimento, tanto em produção quanto em espaços. Entendo que, se os recursos são poucos, é preciso que a distribuição deles seja regulamentada, haja constância na sua aplicação e base para se buscar incrementos. A cidade precisa ter no mínimo, um plano e um fundo de cultura. Por sua vez, acho que a classe artística precisa se organizar melhor, preferencialmente constituindo uma associação, uma entidade legal que possa representá-los no debate com o poder público. Estive pesquisando e sei da existência de diversas associações de artistas pelo país afora, algumas atuando sob o regime de OSCIP (Organização Social e Civil de Interesse Público). Temos pela frente o V FICC, onde acredito que surgirão muitas ideias para o setor cultural. Por outro lado, em breve teremos a inauguração do SESC. Tenho esperança de que o SESC possa contribuir para melhorar esse cenário, não só como fomento e espaço, mas também como sustentação de uma nova mentalidade que advirá do FICC, abrindo espaço para se discutir e organizar o setor.

Folha de Franca – O que é e por que você fotografa música?
Delzio Marques – Fotografar shows é, para mim, antes de qualquer outra coisa, uma maneira complementar de ouvir a música, isto é, “fotografo os sons que eu vejo” na expressão e na performance dos artistas.
A fotografia de música e espetáculos tem por objetivo tornar viva a memória de manifestações artísticas voláteis, isto é, preservar da melhor maneira possível a energia e a expressão musical que se manifesta no palco num breve período, que uma vez passado jamais poderá ser reproduzido da mesma forma.
Por um lado, o registro fotográfico de um show musical contribui com a carreira do músico, a partir do momento em que estas imagens passam a fazer parte de seu acervo, e ele as utiliza como meios de divulgação de seu trabalho. A fotografia registra uma apresentação musical, que ajuda a promover a próxima.
Mas a fotografia de música também contribui para a construção da imagem de um músico ou de uma banda, na medida em que elas podem ser produzidas com fins de aplicação em capas de álbuns musicais (CDs, LPs, DVDs, Streaming etc.). Nesse sentido é essencial que o fotógrafo tenha uma cultura musical, ao ponto de ser capaz de interpretar a personalidade musical do artista e transformá-la em imagem. Essa interpretação passa pela capacidade de interação entre fotógrafo e músico, um diálogo entre diferentes linguagens.
Já se passaram cerca de 20 anos desde que fotografei o show do Djavan. Tive a oportunidade de assistir e fotografar shows de grandes nomes da música brasileira, mas se tem algo que me dá alegria são as amizades e os trabalhos que realizei com músicos francanos. Estive presente fotografando muitas cenas musicais, mas cito algumas com as quais atuei com mais frequência: o projeto Quinta Jazz, criado e conduzido semanalmente, por mais de 10 anos, pelos músicos Helton Silva e Eduardo Machado; o Palco Almanaque, projeto de pocket shows mensais idealizado pelo amigo Cesar Nazar, há mais de 12 anos; a Orquestra Sinfônica de Franca, conduzida pelo maestro Nazir Bittar, cujos espetáculos eu fotografo há mais de 10 anos; a banda de rock The Wanteds, para quem fotografo as capas desde seu segundo álbum.
Folha de Franca – Fale da exposição fotográfica em que você celebrou seus 15 anos de atuação na área.
Delzio marques – Em 2016, tive o desejo de fazer uma exposição fotográfica, para apresentar um resumo do meu acervo de 15 anos de fotografia no universo da música. Entre as muitas possibilidades de recorte temático, optei por dar um sentido mais amplo para a exposição e torná-la, também, uma homenagem ao octogenário maestro Laércio de Franca, que, apesar da saúde debilitada, permanecia em atividade, mas pouco reconhecido pelas novas gerações de ouvintes. Dessa forma, montei a exposição Laércio de Franca – o som que eu vi, apresentando uma seleção de 32 dessas fotografias em preto e branco, finamente impressas e emolduradas, com um projeto expográfico adequado ao salão principal da Casa da Cultura e do Artista Francano “Abdias do Nascimento”.
Dividida em dois blocos conceituais, “HISTÓRIA” E “EXPRESSÃO”, a exposição mostrou o maestro como um grande artista, que, mesmo com poucas apresentações nos anos pós orquestra, era cultuado por um público mais maduro e pelos jovens músicos e instrumentistas francanos.
A exposição, gratuita, ficou aberta à visitação por 40 dias, entre outubro e novembro, e foi vista por mais de 600 pessoas, inclusive por alunos e professores do EMIM, que foram guiados por mim. Totalmente financiada por recursos próprios, com pequenos apoios de amigos, a exposição serviu como última homenagem ao maestro, que faleceu no ano seguinte.
Em 2017 fui convidado pelo músico e compositor francano Beto Eliezer, para coordenar um projeto musical, envolvendo o relançamento de dois álbuns gravados por ele na década de 90 e o lançamento de novos álbuns. Esse projeto foi finalizado em maio/2019 e consiste em um box set, intitulado Liszten to Beto Eliezer, contendo quatro CDs, um livreto de 36 páginas e um pen drive com as músicas no formato digital. Idealizado como uma embalagem no tamanho 31×31 cm, que remete a um álbum em vinil, nele contribuí com a fotografia, textos, direção de arte e coordenação geral, que envolveu produção de videoclipes, lançamento em plataformas digitais e organização de shows de lançamento. Considero este trabalho, para o qual fui comissionado, como um marco dos muitos anos que venho dedicando à fotografia e à cultura musical. Ter sido escolhido pelo exigente músico Beto Eliezer – para quem já tinha fotografado em projetos menores -, me proporcionou realizar uma espécie de doutorado em produção musical.









