Baltazar Gonçalves: uma voz de relevância na literatura contemporânea
Não bastasse ser um poeta de timbre muito próprio, do ponto de vista autoral, o escritor e historiador francano Baltazar Gonçalves se coloca de forma cada vez mais relevante no panorama da literatura lusófona, como um catalisador de vozes, lançando o segundo volume da antologia “Tanto Mar entre Nós – Diásporas”, que reúne 40 autores portugueses, brasileiros, moçambicanos e angolanos.

“A expectativa (e sonho!) do projeto TANTO MAR ENTRE NÓS é que na terceira edição possamos incluir Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Tímor Leste e Guiné Equatorial compondo e refazendo o caminho inverso da colonização portuguesa do século XVI”, explica Baltazar.
Seus dois primeiros livros foram publicados pela editora Penalux: “Tecido na papelaria”, em 2019, e “ Diário dos miseráveis”, em abril desse ano. Na entrevista abaixo, ele nos conta algo de seu percurso na literatura e na cultura. Quem desejar conhecer melhor o trabalho de Baltazar, pode visitá-lo pelas redes sociais o blogue ‘Depois eu conta’ dá uma ideia de como os livros dele surpreendem.
Pai da Ariel e da Julia, suas obras-primas, Baltazar transborda poesia.
http://depoiseuconta.blogspot.com/
https://www.facebook.com/BaltazarGoncalvesBill/
Os livros podem ser adquiridos diretamente com o autor pelo WhatsApp (16) 99379-1849.
Folha de Franca – Fale de sua formação, profissão (percurso profissional), quantos e quais livros publicados?
Baltazar Gonçalves – Sou francano, filho de mineiros, nasci em 1968 e tenho 53 anos. Dos 14 aos 20, trabalhei na produção de calçados na fábrica Sândalo. Dos 20 aos 24 anos, na “fábrica sistema financeiro” Bradesco como agente de previdência privada. Aos 25 passei em concurso público e ingressei na “fábrica escola” como professor da Secretária da Educação do Estado, formado em História pela Unesp-Franca. Atuei em todos os níveis da educação, das séries iniciais ao ensino superior na Unifef-Fernandópolis onde ensinei, além das disciplinas do curso de História, também Sociologia no curso de Letras.
Em 2012 passei a estruturar meu projeto literário a partir do blogue “Depois eu conta”. Em 2019 lancei meu primeiro livro de poemas “Tecido na papelaria”; o segundo “Depois eu conta: diário dos miseráveis” em abril de 2021, muito inspirado na obra de Vitor Hugo e nas mazelas desse período de retrocesso político-sanitário pandêmico que estamos vivendo. Entre um projeto autoral e outro, lancei a primeira antologia TANTO MAR ENTRE NÓS reunindo 15 autores de língua portuguesa (Brasil, Portugal e Angola). As três obras acima mencionadas saíram pela editora Penalux.
Nesse momento estou trabalhando na divulgação e distribuição da segunda edição da mesma antologia, agora com subtítulo DIÁSPORAS, pela editora Kotter, ampliando o repertório com a participação de 40 autores/as inclusive de Moçambique.
Folha de Franca – Como a literatura chegou à sua vida? Quando começou a escrever?
Baltazar Gonçalves – O gosto por ouvir e contar histórias é nato, fui alfabetizado lendo nos folhetos da missa histórias antigas do povo judeu. Na terceira série, aos 9 anos, lia compulsivamente e desisti de fazer os fichários que a professora recomendava para a classe, que lia “por obrigação”. Adolescente, li clássicos românticos como “O morro dos ventos uivantes” que, ao recontar, me garantiam namoradas. Cheguei à faculdade trilhando caminho de leituras autodidata, eu estava encantado com a abordagem de Alexander Lowen, sobre a expressão do corpo enquanto linguagem e suas releituras da energia orgone de Wilhelm Reich. Durante o curso de História, como é de se esperar, passei quatro anos lendo historiadores, sociólogos, antropólogos e filósofos; do panteão da psicologia conheci Michel Foucault e Deleuze e os trago na bagagem porque a cada que passa são mais necessários. Falando de forma pragmática, é notório que professores em sala de aula não têm muito tempo para ler, as condições de trabalho assemelham às da produção na fábrica de qualquer bem de consumo. Enquanto eu descobria na prática o poder alienador por que passa quem ensina, desenhei um plano de leitura a que me obriguei por prazer: para ler Kafka, li Saramago; para ler Saramago, li Padre Antônio Vieira; para ler Dostoiévski , li Graciliano Ramos. A prosa me inspira mais a escrever poesia, leio poesia por deleite e são inúmeros os autores/as que me afetam, Drummond e Cecília Meireles, Sylvia Plath e Ana Cristina Cesar, Augusto dos Anjos e Baudelaire. São muitos. Edgar Allan Poe me satisfaz por completo. Considero José Saramago meu segundo pai, a obra dele salvou minha vida no pior momento que já vivi. Comecei a escrever, com intenção de provocar os efeitos da linguagem ao leitor, depois de ler de forma combinada e ao mesmo tempo o “Manual de pintura e caligrafia” de Saramago e o “Água viva” de Clarice Lispector. O caos organizado de James Joyce, em Ulisses me dava chancela: tudo pode!
Folha de Franca – Como tem sido ‘ser escritor’? O que a literatura lhe dá e o que ela lhe tira?

Baltazar Gonçalves – Publicar o primeiro livro era “questão de honra”, um desafio enorme por inúmeros motivos. O professor que se apresentava como escritor poderia não ser reconhecido como a mesma pessoa, acreditar nessa passagem era antes uma questão interna, mais de princípios que personalidade, de convicção. Preciso saber definir a diferença entre o que sou e o que represento usando a linguagem quando escrevo, é um exercício de autoconhecimento enovelado e prazeroso do qual sempre saio diferente. Quando se diz “profissão” pode-se pensar “algo do qual se vive”, mas isso só é possível para poucos no Brasil. Somos uma nação que não investe em leitura e, dessa perspectiva, continuo atuando como o educador que sabe a necessidade de formar leitores usando as tecnologias e as redes sociais para fazer “a montanha chegar a Maomé”. A Literatura me dá tudo que realmente preciso, alimenta meus sonhos e promove minha conexão com pessoas e lugares, o mundo a minha volta. Já foi dito que sem tesão, a vida não tem graça, a literatura me impulsiona. Você pergunta o que a Literatura tira de mim… sem tirar nada, ela me espreme até as vértebras se comprimirem, me dilui e amplia, me faz pequeno e eleva meu espírito alto, a literatura me dimensiona no tempo e no espaço, se me perco me acho, e esboça o real tamanho da insignificância no amálgama da História.
Folha de Franca – Fale sobre ser escritor no Brasil hoje.
Baltazar Gonçalves – As mudanças estão em processo, o acesso à internet mudou todas as relações de trabalho. Assim como alguém pode mostrar sua voz cantando no Youtube, escrever um livro e publicá-lo está mais perto da realidade que do sonho. Os exemplos se multiplicam pelas mãos das editoras de pequeno e médio porte emergentes. Apesar do sucesso financeiro vir ainda dos contratos com as grande editoras, a exemplo de Itamar Vieira Junior que vendeu 200.000 mil cópias do seu “Torto Arado”, o cenário que esse feito sinaliza é incrivelmente estimulante: autor desconhecido vence concurso literário e ganhando prêmios com sua obra prima, conquista o mundo.
Folha de Franca – Fale sobre a sua iniciativa em fazer antologias. Qual o objetivo? Quais os critérios que norteiam a escolha dos nomes?
Baltazar Gonçalves – Quando penso a estrutura de um livro “meu” ali deponho tudo que sou ou penso ter sido, prezo ter o controle dos processos desde o pensamento à escrita, desde a diagramação à distribuição do livro. Não é apenas um exercício do controle em busca do efeito, mas a consciência clara de que também o autor corre o risco de alienação em algum ponto do processo até o livro chegar às mãos do leitor. Quando penso a estrutura dessa antologia que reúne pessoas ao redor do mundo lusófano e seus trabalhos, já não se trata mais de “mim” ou do “meu” e sim do coletivo, é uma oportunidade de eu praticar com zelo princípios caros que o mundo contemporâneo tem sofrido a perda. Nesse projeto TANTO MAR ENTRE NÓS, não sou eu, mas, o outro que tem lugar e voz.
Folha de Franca – Como foi o retorno da primeira antologia?
Baltazar Gonçalves – O projeto cresceu em quantidade preservando qualidade. No corpo da obra uma estrutura organizada em três partes homenageia pilares da literatura ocidental de língua português e dá o tom humanista e progressista da obra: Carolina Maria de Jesus, Saramago e Agostinho Neto. A primeira edição de 2020 contava com 16 autores/as; nesta edição de 2021, 40. A ponte erguida sobre o TANTO de MAR que há ENTRE NÓS chegará a Luanda e desta vez em Maputo. O repertório textual ampliado gira em torno do conceito “diáspora, como alegoria da condição humana”; itinerário reverso da colonização portuguesa na gênese da formação da comunidade lusófona ao redor do mundo.
Folha de Franca – Como tem sido a recepção desta antologia mais recente?
Baltazar Gonçalves – Cada autor/a presente na obra e seu círculo de leitores é nosso primeiro alcance; também o mais orgânico, por assim dizer. Com o empenho de todos, somado aos contados com jornais e revistas em cada comunidade representada, estimamos que a recepção continue a levar à mais leitores nosso empenho. Aproveito a pergunta para agradecer esta FOHA DE FRANCA e a você, Vanessa Maranha, por promover o diálogo entre obra, autores/as, organizador, e leitores.









Mais uma vez obrigado, Vanessa!
Quando entrevistador e entrevista
do falam a mesma língua, tudo flui. Parabéns Baltazar por ser ponte entre escritores brasileiros e os de além- mar. Sucesso a vc e a todos do grupo. Abraços.
Pertinentes e reflexivas questões. Excelente entrevista. Baltazar é um excelente escritor e seu projeto TANTO MAR ENTRE NÓS, se destaca pela originalidade e qualidade.Todo sucesso pra você caríssimo poeta!
Parabéns! Ótima entrevista!
Nesse momento atual conturbado a poesia nos leva reflexão e filósofar .
Infelizmente maioria da população não lê, não sabem ler e muito menos refletir!
Parabéns! Ótima entrevista!
Nesse momento atual conturbado a poesia nos leva reflexão e filósofar .
Infelizmente maioria da população não lê, não sabem ler e muito menos refletir!