
“Por detrás de cada pessoa que está nas ruas, existe um ser humano que precisa ser amado”
Irmão Francisco
Por Vitor Hugo Ferreira
O Capitão da Reserva da Polícia Militar Francisco Ferreira, que atuou em Franca nos anos 90, hoje é Diácono da Igreja Católica e há anos abraçou uma missão que cumpre com amor e solidariedade: dedica sua vida a cuidar de moradores em situação de rua, dependentes químicos e presidiários. São aquelas pessoas ditas “invisíveis”, ou seja, elas estão ali, com suas dores e necessidades, mas ninguém as vê. Ou melhor, quase ninguém. Francisco e mais 16 irmãos voluntários que integram a Associação Comunidade Divina Misericórdia têm os olhos voltados para essa parte da população, para os feridos de corpo e alma, como ele costuma dizer.
O grupo religioso dedica especial atenção aos cuidados voltados aos mais necessitados. Eles também ajudam a acolher idosos, pessoas com deficiência física ou mental leve e as encaminham para o CREAS, CRAS ou outros órgãos de Batatais e, também, de Ribeirão Preto, Marília e São Carlos, onde o grupo mantém atividades. “No trabalho que fazemos colocamos em primeiro lugar a dignidade humana e por isto buscamos fazer com que a autoestima seja resgatada. Cuidamos das feridas do corpo e da alma; pois por detrás de cada pessoa que está nas ruas, existe um ser humano que precisa ser amado e que carrega consigo uma triste história de dor e sofrimento”, disse irmão Francisco.
A Associação, que é reconhecida pelo estado de São Paulo e tem o Certificado de Entidades Beneficentes de Assistência (CEBAS), tem ganhado destaque pelo trabalho de assistência social realizado desde 1º de outubro de 2003, quando foi fundada.
De lá pra cá, a atuação do grupo vem crescendo e hoje a entidade conta com uma estrutura que inclui 13 espaços usados para serviço de acolhimento. São casas de passagem para pessoas em situação de rua e itinerantes, acolhimento de idosos, residência inclusiva para pessoas com deficiência física ou mental, casa de longa permanência para homens e mulheres, abrigo para crianças e adolescentes e uma casa de retiro com capacidade para atender 120 pessoas.
Mas a maior riqueza da Associação é sua irmandade religiosa. São os 17 voluntários, homens e mulheres e outros 29 que estão em formação, que consagraram suas vidas a Deus e, assim como irmão Francisco, se dedicam ao trabalho voltado aos mais necessitados.
A Associação conta, ainda, com colaboradores como psicólogos, assistentes sociais, coordenadores de serviço, cozinheiros, auxiliares administrativos, serviços gerais e cuidadores.
O objetivo do grupo é fornecer uma rede de proteção às pessoas em situação de vulnerabilidade. “As políticas públicas voltadas para as pessoas em situação de rua em nosso país praticamente não existem. Costumamos dizer que para a maioria das autoridades eles são invisíveis e se pudessem varreriam para debaixo do tapete, vide as políticas higienistas de alguns municípios. As prefeituras dizem nunca ter dinheiro para investir em ações afirmativas para com a população de rua, mas por ironia dinheiro para passagem que os mande para bem longe nunca falta. Mas como sempre dizemos em nossas formações o que o mundo não quer nós queremos”, completou irmão Francisco, que foi vice-prefeito de Batatais, entre 2000 e 2002, e abandonou a vida pública justamente para se dedicar à comunidade Divina Misericórdia.
A Associação é uma instituição que, por força do estatuto, não pode promover eventos do tipo bingo, jantares e outros para arrecadar fundos de manutenção das atividades. Sendo assim, ela sobrevive por meio de doações da comunidade. Em alguns municípios são firmadas parcerias com o poder público para o desenvolvimento de projetos específicos, mas as casas, em sua maioria, funcionam sem estas parcerias, segundo o Diácono irmão Francisco.
Nas quatro cidades em que atua, a Comunidade Divina Misericórdia atende, em média, 300 pessoas por dia. Muitos acolhidos têm debilidades múltiplas o que demanda a necessidade de uso de fraldas geriátricas, cadeiras de rodas, andadores, além do apoio na hora do banho e alimentação – trabalho este feito pelos membros da irmandade e por colaboradores.
Durante a pandemia eles também ofereceram postos avançados de atendimento com testagem da população de rua e local para cumprimento de quarentena.
A tarefa dos voluntários não é fácil, mas é com alegria e orgulho que irmão Francisco fala a respeito dessa missão. “O mais gratificante de tudo é poder ver, nesses dezoito anos de existência, que alguns que eram pessoas em situação de rua hoje estão resgatados. Muitos aqui tiveram a oportunidade de estudar e de ser colocado no mercado de trabalho – – alguns até já concluíram ou estão cursando a faculdade de serviço social, filosofia, teologia, enfermagem. E o principal, muitos conseguiram reatar vínculos familiares rompidos”.
O capitão da reserva que é formado em direito, encontra em sua fé a resposta para quem pergunta por que ele abraçou essa missão. “Quando nos perguntam por que fazemos isto, lembro das palavras de Jesus: ‘Eu vos dei o exemplo para que façais o mesmo’. Em tudo louvamos a Deus e que ele continue nos dando força e coragem, mas acima de tudo fé, esperança e amor para continuar em frente doando vida e vida em abundância!”, disse ele, que citou, ainda, as palavras de São João Paulo II, na Exortação Apostólica Pós-Sinodal, onde ele diz: “A Igreja olha com admiração e reconhecimento para tantas pessoas consagradas que, assistindo aos doentes e atribulados, contribuem de modo significativo para sua missão… Nas suas opções, eles devem privilegiar os doentes , os mais pobres e abandonados, bem como os idosos, os inválidos, os marginalizados, os doentes em fase terminal, as vítimas da drogadição e das novas doenças contagiosas”.
Você pode encontrar mais informações sobre a comunidade nas plataformas digitais no site – www.cmisericordia.com – e no Facebook, www.facebook.com/ComunidadeMissionariaDivinaMisericordia, o qual tem hoje mais de 22 mil seguidores.







