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Carlos de Assumpção

Carlos de Assumpção, considerado um dos decanos da literatura afro-brasileira, expressão máxima da poesia em Franca, vem ganhando novamente, com louvor, projeção nacional. Nesta semana, foi pauta do Globo News, recentemente recebeu o título de doutor honoris causa da UNESP (Universidade Estadual Paulista); no ano passado, foi tema do  documentário em longa metragem Carlos  de Assumpção: Protesto, com roteiro e direção do professor e pesquisador Alberto Pucheu, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), filme que se constitui em importante arquivo-memorial de sua vida e de sua produção poética. No ano passado, a Cia da Letras publicou a sua reunião de poemas na antologia “Não pararei de gritar”.

Voz

A voz de Assumpção tem a pungência do protesto. Tepidez é vocábulo inexistente no vernáculo poético e vivencial desse homem. Seu protesto, tema de uma vida toda, brada contra o racismo e as injustiças sociais infligidas aos negros. Grande representante da raça, sua poética é reconhecida nacionalmente. Em conversa pregressa com esta colunista, contou que é leitor assíduo de africanos e caribenhos, destes últimos, gosta especialmente da poesia de sotaque crioulo como a de Aimé Césaire, da Martinica, que lê, entusiasmado, a voz de veludo recitando em francês.

Referências

Já citou também Léopold Sédar Senghor, francês radicado na África. A filosofia  existencialista de Jean-Paul Sartre habita suas preferências, bem como a poesia do espanhol Federico Garcia Lorca. O norte-americano Langston Hughes.  Carlos de Assumpção é verbete que consta da Enciclopédia da Literatura Brasileira, organizada por Afrânio Coutinho. O crítico consagrado Sérgio Milliet entusiasmou-se com a sua poesia.  O jornalista Antônio Zago, da Folha de S.Paulo elogiou rasgadamente sua poesia, em texto que comentava a produção literária do Grupo Veredas. Abdias do Nascimento, que inclusive é francano, artista plástico e importante nome do movimento negro no Brasil e fora dele, é um dos caros amigos de Carlos de Assumpção.

Origens

Nascido em 23 de maio de 1927, na cidade de  Tietê (SP), filho de família pobre, leitor desde cedo do jornal  A Voz da Raça, editado pela Frente Negra Brasileira, estudou até o Científico na cidade natal, mas pela pouca afinidade com as Ciências Exatas, preferiu transferir-se para o Curso Normal. Foi para a Alta Paulista, seguiu para Tupã, Rinópolis, teve emprego aqui e ali. Nos hiatos, voltava a São Paulo. Quis ser jornalista – repórter ou revisor -, mas o grau máximo que conseguiu em jornal foi como lavador da rotativa. Trabalhou como secretário de uma firma falida de distribuição de medicamentos. Foi ajudante de caminhão.

Reprodução (Foto: Foto: Ricardo Benichio)

Percurso

Sempre muito presente nos movimentos da raça, freqüentou, em Tietê, durante a adolescência, a Associação Frente Negra. Em São Paulo, a Associação beneficente José do patrocínio, onde tornou-se amigo de Jorge Prado Teixeira, que o apresentou a Florestan Fernandes. Nessa associação, o versejador que se iniciara no ofício aos 15 anos, só depois dos 20 reuniria coragem  para cantar a própria pena  pela primeira vez em público. Assumpção, que já começara pelos românticos Casimiro de Abreu e Gonçalves Dias, apresentava então a seus colegas de associação o poema “Questão de Sorte”. Foi ovacionado por uns, criticado por outros. Teve, nesse período, vida boêmia. Era muito próximo de membros do “Partidão” (Partido Comunista do Brasil), gostava das ideias partilhadas, em especial as subversivas, durante os “anos de chumbo” da Ditadura Militar que vigorou no Brasil de 1964 a 1985, mas nunca levantou bandeiras. Sua luta mais feroz, sua indignação mais aguda eram expressas em versos de métrica livre.

Franca

Franca surgiu em sua vida depois de Rifaina, para onde foi na década de 60 (sobretudo por gostar de pescar) para dar aulas e onde viveu por dez anos e foi também vereador. Depois de 10 anos próximo da Jaguara, veio para Franca. Contabiliza pelo menos 30 anos de magistério na Rede Pública local, lecionando Português e Francês. Formou-se em Letras pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Franca e em Direito pela Faculdade de Direito de Franca. Participou, com destaque, do Grupo Veredas. Fundou o Movimento Negro de Franca, trabalhou na Pinacoteca Municipal, tendo criado o projeto Canto e Verso, que percorria as escolas da cidade levando poesia e música aos estudantes.

Um privilégio poder compartilhar do mesmo tempo e espaço com Carlos de Assumpção, poeta e ser humano merecedor de toda a reverência possível.

Vanessa Maranha

É Psicóloga, Jornalista, Escritora Premiada, colunista da FF.

2 Comentários

  1. Parabéns, Vanessa! Você tem uma antena versátil, generosa, parabólica, e q traz um filtro sofisticado e sensível. Sou muito grata à sua verve vulcânica!

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