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Acabo de ler, embevecida, “O som do rugido da onça”, quinto romance da premiada escritora Micheliny Verunschk, editado pela Cia. das Letras.

Exploração

O livro trata da expedição dos alemães Spix e Martius, ambos médicos que eram respectivamente também botânico e zoólogo. Em 1817 eles desembarcaram no Brasil, a título de expedição científica (de fundo claramente política, financiada pela realeza da Baviera).

Peças vivas

Fato é que os pesquisadores catalogaram amplamente o bioma brasileiro e seriam posteriormente festejados em âmbito acadêmico, nas publicações em referência ao seu extenso registro, sem qualquer menção, contudo, à violência que cometeram: voltaram a Munique levando um menino e uma menina indígenas (aos quais denominavam ‘peças vivas’, desconsiderando sua humanidade). As tais crianças índias, Iñe-e (Miranha, na ilustração) e Juri, não suportando a violência psicológica e aculturação, adoeceriam e morreriam pouco tempo depois da chegada em solo europeu.

Povos originários

Ainda que sob pretexto historiográfico, a narrativa é lírica e potente ao focalizar esse dado encoberto e construir paulatinamente no leitor alteridade para compreender os povos originários, em termos de forma e discurso, a partir de seu próprio diapasão, algo, estilisticamente falando, na linha do fluxo de consciência por meio da mítica indígena.

Leia

Esse livro fala de desterro, de colonização, toca na ferida da arrogância eurocêntrica e dos horrores cometidos em nome da civilização e da ciência por meio de uma escrita que denuncia aspectos sombrios (e também, em alguns momentos, solares) da natureza humana.
Recomendo fortemente a leitura de “O som do rugido da onça”.

Vanessa Maranha

É Psicóloga, Jornalista, Escritora Premiada, colunista da FF.

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